A Televisão Pode Ser Melhor Do Que o Cinema

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O título do texto pode parecer estranho, soberbo e, até mesmo, infundado se ele não for contextualizado. Os programas televisivos não são considerados uma forma de expressão artística (sem entrar no mérito da questão da linguagem, da estética, etc.), como também o cinema comercial produzido pela grande indústria hollywoodiana ainda não o pode ser, já que também é um produto de entretenimento. O cinema hollywoodiano está estagnado, sem criatividade, refém, atualmente, de dois tipos de produções: filmes pertencentes ao gênero romance-drama para adolescentes-adultos; e/ou às produções de super-heróis, principalmente do Universo da Marvel Comics. Por seu turno, a produção televisiva, representada por seriados, está no seu ápice criativo. 

Um dos objetivos de um produto é ser vendido, ser consumido por uma grande quantidade de pessoas. Dentro da cultura de massas, algumas linguagens artísticas são apropriadas pela indústria cultural, tornando-se meros produtos de consumo, momentâneos, rápidos, ou seja, passageiros. O cinema é um produto no contexto da cultura de massas. Dentro da indústria hollywoodiana, por exemplo, o objetivo do produto é ser vendido, conseguir a maior bilheteria possível para que o retorno financeiro dos produtores executivos, ou das grandes produtoras, seja um fato concreto representado pela a arrecadação da bilheteria. Assim, o sucesso de uma produção é medido pelo retorno financeiro conseguido ao longo do período em cartaz nos cinemas. 

Vale ressaltar que as produções da indústria cinematográfica passam predominantemente em salas de exibição em shoppings centers, templos da sociedade de consumo, onde o indivíduo pode consumir outros produtos manufaturados e produzidos em massa como combos de pipocas com refrigerantes, balas e doces, para que todos, deste modo, possam pertencer à sociedade de consumo. Mas, para que isso ocorra, é preciso também “consumir” cultura. O shopping com as suas escadas ascendentes e descendentes, com lojas de diversos produtos, os manequins são a imagem e semelhança do observador. Neste lugar, o cinema é uma ilusão, uma alienação, uma propaganda ideológica, um mero produto. 

A televisão é também um elemento da cultura de massas, os seus produtos são, na sua grande maioria, ruins, sem qualidade técnica, sem conteúdo. No entanto, a televisão está mudando. Na era digital, ela não é mais uma caixa quadrada que recebe sinais analógicos VHF (onda de alta frequência) e/ou UHV (ondas de ultra alta frequência) com conteúdos repetitivos, engessados de emissoras que são reféns de anúncios publicitários. Agora, além de ser digital, é ainda a cabo, com fibra ótica. As televisões são retangulares com polegadas que podem ocupar paredes de salas residenciais inteiras. Possuem conexão com a internet, as chamadas Smart TVs, com acessórios de sistema de som de alta qualidade 

A revolução da televisão se iniciou na Era da TV a Cabo e se expandiu na Era Digital com conteúdos segmentados, mas de alta qualidade. O programas televisivos são produzidos a partir de segmentações de conteúdos desde faixa etárias, à gêneros e temas, tais como comida, viagem, desenhos animados, documentários, filmes e seriados televisivos. A televisão está melhor do que o cinema hollywoodiano se comparada com a produção de seriados televisivos no qual, diferentemente da grande indústria, impera o novo, a criatividade, o produto com qualidade. Atualmente, os melhores profissionais da indústria cultural do audiovisual estão escrevendo, produzindo, filmando, atuando em seriados televisivos. 

As maiores mentes criadoras, que são responsáveis por criar produtos de qualidade, são nomes como J. J. Abrams (1966-) com séries como “Lost” (2004-2010) e “Fringe” (2008-2013); Vince Gilligan (1967-) com as produções “Breaking bad” (2008-2013) e “Better Call Saul” (2015-), que teve os seus primeiros episódios exibidos no tradicional Festival de Cinema de Berlim em fevereiro de 2015; Beau Willimon (1977-) com a sua criação “House of cards” (2013-); e Matthew Weiner (1965-) que se destacou como roteirista da série “Família Soprano” (1999-2007) e criou uma das obras máximas da televisão “Mad Men” (2007-2015). Inclusive a comissão de frente do cinema hollywoodiano, os atores, está migrando para a televisão. 

Assim, é preciso atar as duas pontas, mas não sendo louco ou casmurro; a Televisão é melhor do que o cinema hollywoodiano. Seriados televisivos possuem mais qualidade do que grandes produções para adolescente-adultos que misturam romance com drama ou em relação à produções baseadas em super-heróis, principalmente, os da Editora Marvel. Até mesmo os personagens do universo Marvel utilizados em seriados são melhores, como é o caso da produção “Demolidor” do canal Netflix. Por fim, a indústria cultural é um grande hipermercado, com produtos separados por setores, áreas, corredores. Todavia, mesmo os produtos enlatados possuem qualidades diferentes, pois podem usar ingredientes, técnicas, embalagens, de pior ou melhor qualidade.

O Fio de Ariane

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O Cinema é uma Arte que caminha entre a transparência e a opacidade. Mesmo sendo uma expressão artística com bases realistas, que cria um efeito de real na sua representação da realidade devido à imagem em movimento, ele também pode representá-la de forma opaca, por vezes questionando-a em maior ou menor grau. No filme francês “O fio de Ariane” (Au Fil d’Ariane, 2014), o diretor Robert Guédiguian (1953-) realiza uma obra que caminha, pela primeira vez em sua filmografia, em direção a uma narrativa fantástica com elementos que destoam dos seus filmes com tom realistas e políticos como “A cidade está tranquila” (La ville est tranquille, 2000) ou mesmo “As neves do Kilimanjaro” (Les Neiges du Kilimandjaro, 2011). 

Ariane decidiu que ela própria iria fazer o bolo do seu aniversário. Era uma data especial, completar anos não é apenas somar os dias, mas também celebrá-los, mesmo que seja em uma única data. Com o bolo pronto, a decoração posta, Ariane espera os seus entes queridos: marido, filha, amigos, etc. Um a um ligam alegando que não poderão comparecer à celebração, pois podem estar viajando, “presos no trabalho”, ou mesmo com outras tarefas. Desolada, Ariane desenrola o seu o fio, sai da sua casa suburbana rumo à cidade francesa de Marselha. Parada em uma ponte, esperando a travessia do barco, ela encontra o seu guia: Raphael, um jovem motoqueiro que a leva para o pequeno restaurante “Café l’Olympique”, onde encontra diversos personagens exóticos. 

O “Café l’Olympique” parece ser um local humilde e ao mesmo tempo idílico, onde personagens se relacionam de forma simples e direta, tendo a resolução dos seus conflitos como algo possível. Marcial é de origem africana e trabalhou por trinta anos como segurança do museu de história natural, deseja “libertar” os animais empalhados; Raphael é o jovem guia que ama Lola, uma bela ruiva que se prostitui, por prazer, e se assemelha à figura de Vênus, pintada por Botticelli; o solitário dono do café Denis admira o escritor Jacques, que passa os dias no estabelecimento escrevendo e observando os clientes para ter inspiração. Há ainda uma tartaruga que dialoga e dá conselhos para Ariane. 

No filme “O fio de Ariane”, o título remete à narrativa mítica grega do labirinto do Minotauro. Astérion era filho de Pasífa, esposa do rei Minos, com o Touro de Creta. Possuía como forma um corpo humano e cabeça de touro, ficando conhecido como Minotauro. O rei Minos manda que o arquiteto Dádalo, pai de Ícaro, construa um labirinto para poder abrigar Astérion. Após um conflito com a cidade de Atenas, o rei de Creta ordena que, anualmente, sete rapazes e sete moças atenienses sejam devorados no labirinto. O herói ateniense Teseu se voluntaria para ser sacrificado com o intuito de combater o Minotauro. A filha de Minos, Ariadne, se apaixona por Teseu e lhe concede um novelo de linha que lhe indicará o caminho da saída do labirinto. 

O nome da personagem principal de “O fio de Ariane” é também o da atriz Ariane Ascaride que é casada com o diretor Guédiguian. O cineasta possui como característica o hábito de realizar os seus filmes com a mesma equipe e com atores recorrentes, de modo que Ariane é protagonista de diversos outros filmes do diretor, assim como a cidade de Marselha. Se Nova Iorque é a paisagem de Woody Allen; Roma é a de Fellini; Bruxelas é a dos Irmãos Dardenne; Berlim é a de Wim Wenders, Marselha é o espaço principal de conflitos, contradições, lutas, amores e aventuras nos filmes de Robert. Ela é a mais antiga cidade francesa com ocupação ininterrupta, sendo fundada pelos gregos no século VII a.C, estando situado na região da Provença no mar Mediterrâneo. 

O cinema de Robert Guédiguian se associava a uma proposta realista e de um cinema engajado politicamente e socialmente. No filme “A cidade está tranquila” é trabalhado como as políticas neoliberais da década de 1990 provocou em Marselha o desemprego, a miséria econômica e social, assim como no filme espanhol “Segunda-feira ao sol” de Fernando León de Aranoa. Com o filme “As neves do Kilimanjaro”, o diretor ressalta como a crise econômica pode levar os indivíduos a cometerem ações criminosas. Novamente, a causa dos problemas sociais é material, é econômica. Nos seus filmes anteriores, as personagens representam e/ou agem segundo uma coletividade, o que não ocorre em o “O fio de Ariane”, no qual o desejo individual se sobressai sobre o coletivo. 
No filme de Guédiguian, Ariane “desenrola o novelo”, seu fio se estende por Marselha, nas relações com personagens diversas. Mas, assim como no mito, ela volta para casa. Sua viagem onírica foi circular, termina onde começou: na sua casa, com a chegada dos familiares e amigos. O tempo é de comemoração, o bolo está pronto e a decoração posta. As velas, que acendera no bolo, ainda estão incandescentes. O seu fio teceu acontecimentos entre o real e o fantástico, seja no diálogo com a tartaruga ou mesmo com a fuga da realidade, devido a breve solidão. Em “O fio de Ariane”, o fio é a ligação, o elo, a busca pelo contato humano, pois no tempo em que se festejam o dia dos anos, a alegria de todos estava certa com uma religião qualquer.

Trailer do filme

Viver É Fácil Com Os Olhos Fechados

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Em janeiro de 1969, a pequena cidade de Matão, no interior de São Paulo, hospedou por alguns dias os músicos Mick Jagger e Keith Richards da banda inglesa de Rock The Rolling Stones. Durante o período que permaneceram na cidadezinha, há quem diga que o guitarrista da banda teve como influência a viola caipira para compor a célebre música “Honky Tonk Women”. A passagem de um grande músico por uma pequena cidade é o mote do filme espanhol “Viver é fácil com os olhos fechados” (Vivir es fácil con los ojos cerrados, 2013), dirigido pelo cineasta David Trueba, que destaca a estadia de John Lennon (1949-1980) em um pequeno vilarejo na província de Almeria na região espanhola da Andaluzia. 

O ano é 1966, Antonio (Javier Cámara) é um professor em uma pequena cidade do interior da Espanha que utiliza as músicas dos Beatles para ensinar o idioma inglês. Sua rotina de ensino é quebrada quando recebe a notícia que John Lennon está na província de Almeria para gravar um filme. Resolve ir ao encontro do seu grande ídolo e inspirador. No caminho, oferece carona para a jovem Belén, de 21 anos, que está fugindo de um lar para jovens grávidas, e para Juanjo, um adolescente que foge da autoritária casa paterna por não concordar com o conservadorismo, não apenas do pai, mas também da sociedade espanhola franquista. Antonio chega à cidade base da produção do filme e tenta de todas as maneiras se encontrar com Lennon. 

Viver é fácil com os olhos fechados” é um Road Movie, ou em uma tradução literal “filme de estrada”, um gênero cinematográfico no qual a ação se desenvolve a partir de uma viagem. As personagens se deparam com situações-problemas que são expostas e trabalhadas no decorrer do deslocamento, como ocorre também com os filmes “Easy Rider” (1969), “A Encruzilhada” (1982), “Telma e Louise” (1991), “E sua mãe também” (2001.), “Diários de motocicleta” (2004) e “Pequena Miss Sunshine” (2006). No gênero, a paisagem ganha importância por apresentar locais belos, exóticos. Na produção espanhola, Antonio se desloca pela região de Andaluzia (a mesma do poeta Federico García Lorca) e pela exuberante e árida costa da província de Almeria. 

Filmes que tratam diretamente ou indiretamente sobre os Beatles possuem uma carga enorme de intertextualidade com referências explícitas e/ou implícitas ao universo do quarteto de Liverpool. Na cena inicial de “Viver é fácil com os olhos fechados”, Antonio está discutindo com a sua classe de jovens alunos o que a palavra em inglês “help”, “ayuda” em espanhol, significa no contexto da música composta por John Lennon e em um outro mais profundo, filosófico. Em Almeria, o professor fica hospedado em um hotel próximo a uma plantação de morangos, aludindo, assim, aos versos da música “Strawberry Fields Forever”, que John Lennon compôs durante a sua estadia na província espanhola. 

John Lennon foi à Espanha no outono de 1966 para filmar a produção “How I Won the War” (“Como ganhei a Guerra”) com a direção de Richard Lester, diretor dos filmes dos Beatles “A Hard Day's Night” (1964) e “Help” (1965). Da sua estadia, originou-se a famosa foto da capa da primeira edição da revista Rolling Stone lançada em novembro de 1967, como também alguns versos da música “Strawberry Fields Forever”, que foi lançada no dia 13 de fevereiro de 1967 em um compacto juntamente com a composição "Penny Lane". No filme de David Trueba, a personagem Antonio se encontra com Lennon, e em diálogo particular ouve a fita demo da composição, sendo, deste modo, o primeiro a ouvir a música. 

As músicas dos Beatles estão presentes ao longo da produção, Antonio as analisa em sala de aula, cita em diálogos informais. No encontro com Lennon, o professor pede para que o músico visite a humilde escola e mande uma mensagem para os alunos, acaba não recebendo a visita, mas, algo melhor, ouve alguns versos de “Strawberry Fields Forever” que são gravados em um gravador portátil. O encontro não é mostrado, sendo destacado pela fala de Antonio. John Lennon não aparece, não se vê a figura do músico, sabe-se que ele está lá: na casa alugada na vila de Santa Isabel, onde se vê o pequeno Julian e a sua mãe Cynthia Lennon, no set de filmagens, no seu trailer, por fim, com Antonio. 

Strawberry Field” foi um orfanato, onde há o famoso portão vermelho, que fica na rua Beaconsfield Road no subúrbio de Woolton em Liverpool. Mas, também remete aos campos de morangos da província de Almeria, onde Lennon permaneceu por alguns meses para filmar “How I Won the War”. "Strawberry Fields Forever” é uma música excepcional, de seus versos “Living is easy with eyes closed” origina-se a inspiração para o filme de David Trueba. Em “Viver é fácil com os olhos fechados”, Antonio é movido pela música, ela faz parte do seu cotidiano pessoal e profissional, recebendo o apelido na escola de “quinto Beatles”. Por fim, o filme não é sobre os Beatles, ou sobre John Lennon, é sobre Antonio e sua paixão pela música.

Trailer do filme

O Incrível Exército de Brancaleone

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O Incrível Exército de Brancaleone” (L'Armata Brancaleone, 1966) é uma produção italiana dirigida pelo cineasta Mario Monicelli (1915-2010). No filme, há a história do cavaleiro medieval Brancaleone da Norcia (Vittorio Gassman) e do seu exército de plebeus e moribundos que vagam pela Itália na baixa Idade-Média, deparando-se com cavaleiros desastrados, fanáticos religiosos, cidades desertas devido à peste negra, donzelas e invasores sarracenos. O filme satiriza os costumes da sociedade feudal, como também o código de cavalaria e a religiosidade da época, sendo, ainda, uma paródia do romance “Dom Quixote de La Mancha” (1605), do escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616). 

No filme, com a invasão de uma vila por nórdicos, um cavaleiro acaba sendo morto e dos seus espólios, dois adultos e um adolescente plebeus acham um pergaminho contendo a posse da cidade de Aurocastro, que fica na região italiana da Puglia. Mas, apenas um cavaleiro pode possui-la, assim, partem em busca de um que aceitaria dividir a cidade e as riquezas, encontram Brancaleone, um cavaleiro maltrapilho, pobre e desastrado. Com o seu grupo (exército de cinco membros) partem em direção à Puglia, no caminho há o duelo de Brancaleone e Teofilatto de Leonzi, o encontro com um grupo de fanáticos religiosos, a tarefa de levar uma pura donzela para o seu esposo, a chegada à cidade de Aurocastro e a luta final contra os piratas sarracenos. 

O enredo do filme “O Incrível Exército de Brancaleone” se passa durante o período histórico conhecido como Baixa Idade-Média entre os séculos XI e XV, quando há o enfraquecimento da relações feudais e, consequentemente, da sociedade baseada no modo de produção feudal. A sociedade era estamentada por classes sociais constituídas pela nobreza, clero e camponeses. Contudo, a partir da Baixa Idade-Média, há o declínio do feudalismo principalmente através de três viagens: a primeira representada pelas Cruzadas, que abriram novas rotas comerciais terrestres; a segundo pelos mercadores venezianos, representados por Marco Polo, que sedimentaram as rotas; e, por último, as grandes navegações que desbravaram rotas marítimas de comércio. 

Em “O Incrível Exército de Brancaleone” é possível identificar os três elementos que caracterizaram a Baixa Idade-Média: a guerra, a peste e a fome. Logo no início da narrativa, uma vila é saqueada por guerreiros aparentemente nórdicos e um cavaleiro tenta defendê-la sem êxito. Na parte final do filme, há a tentativa de Brancaleone e seu exército de conter a invasão de piratas sarracenos à cidade de Aurocastro, exemplificando algo típico do período: o embate entre os europeus e os árabes muçulmanos, no caso chamados de sarracenos. No período histórico, o embate foi caracterizado a partir da Guerra da Reconquista (península ibérica) ou mesmo com as Cruzadas contra os muçulmanos que dominavam todo o oriente médio e parte da Europa. 

A peste negra, como era chamada a peste bubônica, assolou a Europa durante a Baixa Idade-Média, trazendo devastação e um número elevado de mortes. Devido à doença, cidade inteiras eram isoladas e o fanatismo religioso era elevado, pois julgavam ser a doença um castigo divino devido à “impureza da população”. Em uma cena, Brancaleone e o seu exército entram em uma cidade vazia e começam a pilhá-la segundo o “código de pilhagem”, no entanto, fogem sem levar nada temendo estarem contaminados pela “peste”. Descrentes e acreditando na iminente morte, se juntam à procissão do religioso Zenone e seus peregrinos que rumam à Terra Santa para libertar o Santo Sepulcro. 

A fome, a falta de alimentos, é uma constante durante o período. O sistema de produção feudal baseado na monocultura e a dependência da agricultura criaram um modelo que não se sustentou e não sanou as necessidades de alimentos da população da época. No contexto do filme, o alimento é mostrado como algo importante, que teria a mesma importância que a posse de pedras preciosas, sendo, ainda, um símbolo de riqueza. Um dos motivos para irem a Aurocastro, além da riqueza material, é a abundância de alimentos que lá teria, com os seus campos de cereais, vinhedos e animais. Quando um dos integrantes do exército, o velho judeu, está prestes a morrer, palavras de conforto são ditas, tendo a comida e a supressão da fome como destaques. 

Em “O Incrível Exército de Branca Leone”, Mario Monicelli faz uma sátira dos costumes e das relações sociais da Baixa Idade-Média, mostrando de forma cômica a decadência da sociedade feudal através de um cavaleiro moribundo e o seu exército de cinco maltrapilhos. Ele satiriza ainda a religiosidade do período, de uma sociedade que possui uma concepção teocentrista, onde o pensamento religioso domina todas as esferas humanas. Contudo, no filme, Zenone e seus seguidores são mostrados como fanáticos religiosos crédulos na proteção divina, que não se concretiza, por exemplo, na passagem de uma ponte. Brancaleone é um Dom Quixote da comédia italiana, mas o Quixote do século XVII, cômico, síntese de uma sátira, mas fiel ao contexto histórico.

Trailer do filme

Bate-papo sobre História em Quadrinhos e Cinema

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Link do evento no facebook: https://www.facebook.com/events/681586658616551/


Bate-papo sobre Crítica Cinematográfica

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Bate-papo sobre Crítica Cinematográfica com o jornalista e crítico de cinema Christian Petermann, com o produtor audiovisual Fernando Reis Coelho, dono do site "Tem um coelho no cinema", e com a mediação de Breno Rodrigues de Paula, dono do site Travessa Cinematográfica" (www.travessacinematografica.com.br).
Local: SESC Araraquara
Data: 11/03/2015 (quarta-feira)
Horário: 20h00
Gratuito



Os Relatos Selvagens Humanos

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Nas formas artísticas breves, dentro da literatura o conto possui uma posição de destaque com narrativas curtas e devido a sua síntese dos meios narrativos. O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), juntamente com o seu conterrâneo Julio Cortázar (1914-1984), é um dos maiores contista da literatura universal ao lado de nomes como Edgar Allan Poe (1809-1849), Machado de Assis (1839-1908) e Guy de Maupassant (1850-1893). O cineasta argentino Damián Szifron (1975-) também se utiliza de narrativas breves através de seis relatos banais do cotidiano social para realizar o filme “Relatos Selvagens” (Relatos salvajes, 2014), fundindo gêneros como humor, drama e suspense. 

Nos dois primeiros relatos, a vingança é a responsável pelas ações selvagens, ou melhor primitivas, das personagens. No primeiro, “Pasternak”, em um avião tem-se um grupo de passageiros que descobrem possuir uma conexão em comum: a relação com o músico Gabriel Pasternak. Todos os responsáveis pelos traumas e frustrações de Pasternak estão a bordo, a tragédia através da vingança é inevitável. No segundo relato, “Las ratas” (Os ratos), uma garçonete chamada Moza reconhece o político que fora responsável pelas tragédias familiares da jovem. Ela perdeu o pai, que se suicidou. Agora, no restaurante, há a possibilidade de vingança, que pode ocorrer com venenos para ratos na comida servida ao político. 

No relato “Él más fuerte” (O mais forte), tem-se a diferenciação social inicial de dois homens: um possui um carro importado e todos os apetrechos da sua classe social enquanto um outro está em uma posição social inferior. No entanto, ambos estão em posição de igualdade em um duelo selvagem de força física e agressões mútuas, no qual a tecnologia acaba servindo como armas primitivas para a agressão. Em “Bombita” (Bombinha), há o relato da história do engenheiro Simon Fisher que se revolta contra o departamento de trânsito de Buenos Aires por guinchar indevidamente o seu carro. A revolta de Simon contra a burocracia das instituições sociais e a “coisificação do homem” cria uma narrativa similar à de Joseph K do romance o “O processo”, de Franz Kafka

No quinto relato, “La propuesta” (A proposta), o jovem de família rica Santiago atropela e mata uma mulher grávida na principal via de Buenos Aires. Fugindo, e sem prestar socorro à vítima, Santiago chega à casa dos pais, onde com a ajuda do advogado da família começam a arquitetar um plano para culpar um humilde caseiro, que recebe uma proposta para assumir o crime. Assim, as primitivas sobrevivência e cobiça se tornam a base do relato. Em “Hasta que la muerte nos separe” (Até que a morte nos separe), há o relato de uma noiva que descobre na festa do casamento que o marido a trai, revoltada começa a destacar e a atacar todas as máscaras sociais para, assim, se libertar e praticar o mais selvagem e primitivo de todos os atos: o sexo. 

O homem é um animal, que ao criar o contrato social, ou seja, um conjunto de regras e leis para o convívio social, foi se afastando do seu estágio e de condutas selvagens e primitivas. “O contrato social” teve como objetivo “domar o homem”, dominar os seus instintos mais primitivos (e como somos também animais) animalescos e instintivos, impondo modelos de condutas pretensamente racionais. Em “Relatos selvagens” há justamente relatos baseados em condutas “selvagens”, primitivas, mas não se pode levar em conta o indevido aspecto pejorativo do termo. No filme, as condutas humanas são despidas de qualquer marca de civilidade e não são regidas pelo contrato social que é quebrado pela vingança, pelo instinto de sobrevivência, pela revolta e pela libertação. 

A luta das personagens em “Relatos selvagens” é contra o “Leviatã”, ou seja, contra o contrato social, todas as ações, em menor ou maior grau, questionam as relações sociais estabelecidas e/ou as instituições sociais. Pasternak se revolta contra a terapia, a escola de música, as relações familiares e sociais; a garçonete se revolta contra a estrutura social que privilegia um político sem caráter. Já Bombita ataca o “Leviatã”, o Estado, que com as suas repartições pública burocráticas dominam o homem. O contrato social não doma o homem, pelo contrário, ele coloca máscaras sociais para encobrir os instintos humanos primitivos e somente com todas as máscaras despidas que o amor pode surgir na sua forma plena e primitiva através do sexo, como ocorre com o relato da noiva Romina. 

O filme “Relatos selvagens” com os seus seis relatos destaca o ser humano motivado por impulsos selvagens (primitivos) em um mundo pretensamente baseado no contrato social e na razão. As ações relatadas são selvagens porque atacam direta e/ou indiretamente a ordem social e as instituições sociais. Mas, a selvageria é lúcida, de modo que a sociedade é a desordem, o caos para o homem e, muitas vezes, sem sentido, como a burocracia. O contrato social e o positivismo não cumpriram o que prometeram, cabe ao homem voltar a ser um “bom selvagem”, como ocorre com os relatos de Gabriel Pasternak, Moza, Bombita e Romina.

Trailer do filme:


Viagem Mítica, Literária e Cinematográfica a Citera

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Durantes os seus doze trabalhos, Hércules viajou do Peloponeso ao Cáucaso, do Jardim das Hespérides ao mundo dos mortos. Por sua vez, na obra “Odisseia”, de Homero, tem-se a viagem de Odisseu na tentativa de retornar a Ítaca após a Guerra de Troia. Já Marco Polo relata as suas experiências nas “viagens” ao oriente através da rota da seda. Durante o período das Grandes Navegações portuguesas e espanholas nos séculos XV e XVI, há “os relatos de viagens” sobre o continente americano, o extremo oriente e as ilhas do pacífico. O tema da viagem é recorrente em narrativas míticas, na literatura e no cinema. “A viagem a Citera” é um tema que influenciou a pintura com Jean-Antoine Watteau, a literatura com Charles Baudelaire e o cinema com Theo Angelopoulos. 

Citera é uma ilha grega situada no Mar jônico defronte ao Peloponeso. Durante séculos, a ilha foi um entreposto fenício para o comércio com cidades estados gregas e com o restante do Mar Mediterrâneo. Os fenícios fundaram na ilha um templo dedicado à deusa Astarte, símbolo feminino da fertilidade e da sexualidade. Na mitologia grega, Citera foi o local de nascimento da deusa Afrodite, que teria nascido da espuma (aphrós) do mar quando a divindade suprema Cronos cortou a genitália de Urano e a arremessou à costa da ilha. Segundo a tradição, a ilha de Citera é um local idílico, harmonioso, dotado de beleza singular, natural, onde homem e natureza estão em comunhão, servindo de inspiração para artistas ao longo do tempo. 

O pintor francês Jean-Antoine Watteau (1684-1721) foi um dos principais representantes do estilo de pintura conhecido como Rococó surgido na França entre as estéticas barroca e o arcadismo, sendo considerado como um “barroco profano”, ou seja, sem a influência religiosa da arte barroca, mas com a sua ornamentação. No quadro “Peregrinação à ilha de Citera” (1717), Watteau recupera elementos da viagem mítica à Citera. Na obra, tem-se um grupo de pessoas no santuário da deusa Afrodite na ilha. Há casais com roupas opulentas, a natureza e no canto direito do quadro uma estátua de Afrodite. Ao fim, o que se tem como tema na “peregrinação a Citera” é uma peregrinação à ilha do amor, de Afrodite. 

O poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) é um “lírico no auge do capitalismo” sendo o responsável, segundo o filósofo alemão Walter Benjamim, pela modernidade artística surgida a partir da segunda metade do século XIX. O seu livro de poesia “As flores do mal” (1ª edição em 1857 e a 2ª edição em 1860) é o ponto de partida para a modernidade artística tendo como base as novas relações sociais que se estabelecem na sociedade capitalista, industrial e urbana. O poema “Uma viagem a Citera” é uma ode à ilha de Afrodite. O poeta teve como influência o quadro de Watteau de onde se inspirou nos seguintes versos: “Ilha dos corações em festiva embriaguez! / Da antiga Vênus nua a imagem soberana.” 

O cineasta grego Theo Angelopoulos (1936-2012) faz uma homenagem à ilha no filme “Viagem a Citera” (1984). No filme, tem-se a história de Spyro que passa trinta e dois anos no exílio na União Soviética após militar do lado da esquerda na Guerra civil grega na década de 1940. Com o retorno, vem o contato com a família, sua esposa Katarina, o filho Alexandros, que é um cineasta melancólico; o estranhamento do reencontro com um ente querido depois de três décadas. No plano social, Spyro tenta compreender e se adaptar à sociedade grega, o que se mostra problemático, pois ainda ele guarda os ideais socialistas que acabam em conflito com os da sociedade, que tenta se modernizar tendo como base ideias liberais. 

Em “Viagem a Citera”, Theo Angelopoulos trabalha a relação do passado com a construção do presente, Spyro não se adapta e não pertence mais ao meio e ao presente, sua história é apenas a memória de poucos que a viveram e a dos que estão no cemitério, como a maioria dos seus companheiros de luta. Angelopoulos se uniu ao escritor e roteirista italiano Tonino Guerra (1920-2012) para escrever o roteiro do filme, que já havia trabalhado com os melhores cineastas italianos da década de 1960, tais como Michelangelo Antonioni, Federico Fellini, Vittorio De Sicca, Elio Petri, Mario Monicelli, com os irmãos Paolo e Vittorio Taviani, bem como com o cineasta soviético Andrei Tarkovski no filme “Nostalgia”. 

Por fim, Citera é uma ilha grega, um tema universal. Fonte de inspiração de narrativas míticas como o mito do nascimento da deusa Afrodite, ou mesmo tema da pintura dos artistas Rococós franceses do século XVIII com Jean-Antoine Watteau, ou ainda da poesia do “poeta maldito” Charles Baudelaire na segunda metade do século XIX, como também do cinema do diretor grego Theo Angelopoulos no século XX. A alusão a Citera se constrói a partir do arquétipo do lugar ideal, idílico, perfeito, não importa se ela seja feita no mito, na pintura, na poesia ou no cinema, viajar a Citera é preciso e recorrente para a humanidade que se sustenta na Arte: “Ilha do verde mirto flores vistosas,/Venerada afinal por todas as nações”.

A Divina Comédia de Arnaldo Baptista

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Na cosmovisão medieval, baseada no modelo aristotélico-ptolomaico de organização do universo a partir de círculos concêntricos, tem-se o planeta Terra ao centro. Baseando-se no modelo medieval, o poeta italiano Dante Alighieri (1225-1321) escreveu o seu poema épico “A divina comédia” (1304-1321) narrando a jornada da personagem de próprio pelos “três reinos do além túmulo”: inferno, purgatório e céu. Assim, o percurso do herói é o caminho pelos três reinos, sendo um feito grandioso, épico. No caso do músico brasileiro Arnaldo Dias Baptista (1948-), o percurso é alterado para céu, inferno e purgatório, como mostrado no documentário “Loki” (2008), dirigido por Paulo Henrique Fontenelle

Loki” é um documentário biográfico sobre a vida e obra do músico brasileiro Arnaldo Baptista, mais conhecido por integrar a banda Os Mutantes juntamente com o seu irmão Sérgio Dias (1950-) e Rita Lee (1947-). O documentário mostra as diversas etapas da vida de um gênio, considerado louco pelas suas baladas musicais inicialmente roqueiras, depois tropicalistas e psicodélicas. Sua vida atual na região rural de Juiz de Fora é mostrada, passando pelo início da sua carreira musical em meados da década de 60, ao tropicalismo a partir do Festival da Música Popular brasileira de 1967, indo até à saída de Rita Lee dos Mutantes, em 1973, como também a gravação do disco “Loki”, terminando com o retorno dos Mutantes em 2007 no show em Barbican Hall, em Londres. 

No chão de asfalto/Ecos, um sapato/Pisa o silêncio caminhante noturno”. Arnaldo Baptista caminhante vai, há luzes, câmeras, com Sérgio e Rita revolucionam a música popular brasileira ao dar características particulares, brasileiras à música pop, principalmente ao Rock, que era apenas copiado sem identidade pela Jovem guarda. Por um tempo, instrumentos eletrificados tais como guitarras elétricas eram menosprezados pelos compositores da MPB tradicional. Somente em 1967, no Festival de música popular brasileira que o estigma é quebrado quando Caetano Veloso é acompanhando pela banda de rock argentina Beat Boys na música “Alegria, alegria” e Gilberto Gil é acompanhado pelos Mutantes na música “Domingo no parque”. Surge a Tropicália. 

O Tropicalismo é um dos principais movimentos artísticos brasileiros do século XX, permeando linguagens como as artes plásticas com Hélio Oiticica; o teatro com José Celso Martinez Corrêa; o cinema com Joaquim Pedro de Andrade; a música com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes e Tom Zé. O objetivo foi fundir elementos da música popular brasileira, nos seus mais diversos ritmos, com elementos da música pop, principalmente o rock. O movimento foi antropofágico, assimilando múltiplas influências e estilos para criar uma expressão artística brasileira, aliando o estrangeiro com o nacional, o particular com o universal, sendo os Mutantes os responsáveis por trazer a música pop para dentro do movimento a partir de Arnaldo Baptista

Nas narrativas mitológicas, a descida ao mundo inferior é parte de uma busca superior ou feito heroico como ocorreu com Teseu, Hércules e Eneias; representa ainda a busca da amada no mito de Orfeu; ou mesmo a descoberta do caminho de volta para casa no caso de Odisseu. Para Arnaldo Baptista, a queda ocorre em no dia 31 de dezembro de 1981, ao tentar se suicidar jogando-se do quarto andar de um prédio. No entanto, o seu inferno astral se inicia em 1973 com a separação de Rita Lee da sua vida amorosa e dos Mutantes. No ano seguinte, em 1974, “nos portões do inferno”, lança a sua obra prima “Loki”, como uma sinfonia da dor pela perda de Rita, um disco com músicas melancólicas e letras com lirismo poético. 

Depois da queda, Arnaldo passa a se recuperar e a purgar-se dedicando-se à pintura e às artes plásticas, isolando-se em Juiz de Fora, Minas Gerais. Faz, assim, a “reclusão do herói”, volta-se para música em poucas ocasiões como o lançamento do disco “Disco voador” em 1987. Na década de 1990, seu nome volta a ecoar quando o músico da banda grunge Nirvana Kurt Cobain declara a sua admiração por Arnaldo e pela música dos Mutantes, mesma opinião do cantor e compositor Beck, David Byrne e do filho de John Lennon, Sean Ono Lennon, que tocou com Arnaldo em 2000 no Free Jazz Festival. A volta triunfal do herói ocorre em 2007 em Londres com o show dos Mutantes no Barbican Hall. 

Assim como Dante teve que percorre o inferno, purgatório e céu para concluir o seu objetivo e concretizar o seu feito grandioso, Arnaldo Baptista teve o seu auge com os Mutantes e com a sua relação com Rita Lee. Depois foi “aos portões do inferno” com os discos “Loki” (1974) e “Singin' alone” (1981). Virou modelo e os cânticos vieram de seus pares com homenagens e exaltações dos seus feitos. Ao Arnaldo, após o seu percurso do herói, cabe se tornar um mito, no qual as ações e o seu nome vencem as ações do tempo e é cantada pelas gerações futuras. Nas loucuras de Quixote, Arnaldo se identifica: “A vida é um moinho/É um sonho o caminho” e, por fim, ele criou: “Eu juro que é melhor/Não ser o normal/Se eu posso pensar que Deus sou eu”.

Trailer do documentário