Viagem Mítica, Literária e Cinematográfica a Citera

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Durantes os seus doze trabalhos, Hércules viajou do Peloponeso ao Cáucaso, do Jardim das Hespérides ao mundo dos mortos. Por sua vez, na obra “Odisseia”, de Homero, tem-se a viagem de Odisseu na tentativa de retornar a Ítaca após a Guerra de Troia. Já Marco Polo relata as suas experiências nas “viagens” ao oriente através da rota da seda. Durante o período das Grandes Navegações portuguesas e espanholas nos séculos XV e XVI, há “os relatos de viagens” sobre o continente americano, o extremo oriente e as ilhas do pacífico. O tema da viagem é recorrente em narrativas míticas, na literatura e no cinema. “A viagem a Citera” é um tema que influenciou a pintura com Jean-Antoine Watteau, a literatura com Charles Baudelaire e o cinema com Theo Angelopoulos. 

Citera é uma ilha grega situada no Mar jônico defronte ao Peloponeso. Durante séculos, a ilha foi um entreposto fenício para o comércio com cidades estados gregas e com o restante do Mar Mediterrâneo. Os fenícios fundaram na ilha um templo dedicado à deusa Astarte, símbolo feminino da fertilidade e da sexualidade. Na mitologia grega, Citera foi o local de nascimento da deusa Afrodite, que teria nascido da espuma (aphrós) do mar quando a divindade suprema Cronos cortou a genitália de Urano e a arremessou à costa da ilha. Segundo a tradição, a ilha de Citera é um local idílico, harmonioso, dotado de beleza singular, natural, onde homem e natureza estão em comunhão, servindo de inspiração para artistas ao longo do tempo. 

O pintor francês Jean-Antoine Watteau (1684-1721) foi um dos principais representantes do estilo de pintura conhecido como Rococó surgido na França entre as estéticas barroca e o arcadismo, sendo considerado como um “barroco profano”, ou seja, sem a influência religiosa da arte barroca, mas com a sua ornamentação. No quadro “Peregrinação à ilha de Citera” (1717), Watteau recupera elementos da viagem mítica à Citera. Na obra, tem-se um grupo de pessoas no santuário da deusa Afrodite na ilha. Há casais com roupas opulentas, a natureza e no canto direito do quadro uma estátua de Afrodite. Ao fim, o que se tem como tema na “peregrinação a Citera” é uma peregrinação à ilha do amor, de Afrodite. 

O poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) é um “lírico no auge do capitalismo” sendo o responsável, segundo o filósofo alemão Walter Benjamim, pela modernidade artística surgida a partir da segunda metade do século XIX. O seu livro de poesia “As flores do mal” (1ª edição em 1857 e a 2ª edição em 1860) é o ponto de partida para a modernidade artística tendo como base as novas relações sociais que se estabelecem na sociedade capitalista, industrial e urbana. O poema “Uma viagem a Citera” é uma ode à ilha de Afrodite. O poeta teve como influência o quadro de Watteau de onde se inspirou nos seguintes versos: “Ilha dos corações em festiva embriaguez! / Da antiga Vênus nua a imagem soberana.” 

O cineasta grego Theo Angelopoulos (1936-2012) faz uma homenagem à ilha no filme “Viagem a Citera” (1984). No filme, tem-se a história de Spyro que passa trinta e dois anos no exílio na União Soviética após militar do lado da esquerda na Guerra civil grega na década de 1940. Com o retorno, vem o contato com a família, sua esposa Katarina, o filho Alexandros, que é um cineasta melancólico; o estranhamento do reencontro com um ente querido depois de três décadas. No plano social, Spyro tenta compreender e se adaptar à sociedade grega, o que se mostra problemático, pois ainda ele guarda os ideais socialistas que acabam em conflito com os da sociedade, que tenta se modernizar tendo como base ideias liberais. 

Em “Viagem a Citera”, Theo Angelopoulos trabalha a relação do passado com a construção do presente, Spyro não se adapta e não pertence mais ao meio e ao presente, sua história é apenas a memória de poucos que a viveram e a dos que estão no cemitério, como a maioria dos seus companheiros de luta. Angelopoulos se uniu ao escritor e roteirista italiano Tonino Guerra (1920-2012) para escrever o roteiro do filme, que já havia trabalhado com os melhores cineastas italianos da década de 1960, tais como Michelangelo Antonioni, Federico Fellini, Vittorio De Sicca, Elio Petri, Mario Monicelli, com os irmãos Paolo e Vittorio Taviani, bem como com o cineasta soviético Andrei Tarkovski no filme “Nostalgia”. 

Por fim, Citera é uma ilha grega, um tema universal. Fonte de inspiração de narrativas míticas como o mito do nascimento da deusa Afrodite, ou mesmo tema da pintura dos artistas Rococós franceses do século XVIII com Jean-Antoine Watteau, ou ainda da poesia do “poeta maldito” Charles Baudelaire na segunda metade do século XIX, como também do cinema do diretor grego Theo Angelopoulos no século XX. A alusão a Citera se constrói a partir do arquétipo do lugar ideal, idílico, perfeito, não importa se ela seja feita no mito, na pintura, na poesia ou no cinema, viajar a Citera é preciso e recorrente para a humanidade que se sustenta na Arte: “Ilha do verde mirto flores vistosas,/Venerada afinal por todas as nações”.

A Divina Comédia de Arnaldo Baptista

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Na cosmovisão medieval, baseada no modelo aristotélico-ptolomaico de organização do universo a partir de círculos concêntricos, tem-se o planeta Terra ao centro. Baseando-se no modelo medieval, o poeta italiano Dante Alighieri (1225-1321) escreveu o seu poema épico “A divina comédia” (1304-1321) narrando a jornada da personagem de próprio pelos “três reinos do além túmulo”: inferno, purgatório e céu. Assim, o percurso do herói é o caminho pelos três reinos, sendo um feito grandioso, épico. No caso do músico brasileiro Arnaldo Dias Baptista (1948-), o percurso é alterado para céu, inferno e purgatório, como mostrado no documentário “Loki” (2008), dirigido por Paulo Henrique Fontenelle

Loki” é um documentário biográfico sobre a vida e obra do músico brasileiro Arnaldo Baptista, mais conhecido por integrar a banda Os Mutantes juntamente com o seu irmão Sérgio Dias (1950-) e Rita Lee (1947-). O documentário mostra as diversas etapas da vida de um gênio, considerado louco pelas suas baladas musicais inicialmente roqueiras, depois tropicalistas e psicodélicas. Sua vida atual na região rural de Juiz de Fora é mostrada, passando pelo início da sua carreira musical em meados da década de 60, ao tropicalismo a partir do Festival da Música Popular brasileira de 1967, indo até à saída de Rita Lee dos Mutantes, em 1973, como também a gravação do disco “Loki”, terminando com o retorno dos Mutantes em 2007 no show em Barbican Hall, em Londres. 

No chão de asfalto/Ecos, um sapato/Pisa o silêncio caminhante noturno”. Arnaldo Baptista caminhante vai, há luzes, câmeras, com Sérgio e Rita revolucionam a música popular brasileira ao dar características particulares, brasileiras à música pop, principalmente ao Rock, que era apenas copiado sem identidade pela Jovem guarda. Por um tempo, instrumentos eletrificados tais como guitarras elétricas eram menosprezados pelos compositores da MPB tradicional. Somente em 1967, no Festival de música popular brasileira que o estigma é quebrado quando Caetano Veloso é acompanhando pela banda de rock argentina Beat Boys na música “Alegria, alegria” e Gilberto Gil é acompanhado pelos Mutantes na música “Domingo no parque”. Surge a Tropicália. 

O Tropicalismo é um dos principais movimentos artísticos brasileiros do século XX, permeando linguagens como as artes plásticas com Hélio Oiticica; o teatro com José Celso Martinez Corrêa; o cinema com Joaquim Pedro de Andrade; a música com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes e Tom Zé. O objetivo foi fundir elementos da música popular brasileira, nos seus mais diversos ritmos, com elementos da música pop, principalmente o rock. O movimento foi antropofágico, assimilando múltiplas influências e estilos para criar uma expressão artística brasileira, aliando o estrangeiro com o nacional, o particular com o universal, sendo os Mutantes os responsáveis por trazer a música pop para dentro do movimento a partir de Arnaldo Baptista

Nas narrativas mitológicas, a descida ao mundo inferior é parte de uma busca superior ou feito heroico como ocorreu com Teseu, Hércules e Eneias; representa ainda a busca da amada no mito de Orfeu; ou mesmo a descoberta do caminho de volta para casa no caso de Odisseu. Para Arnaldo Baptista, a queda ocorre em no dia 31 de dezembro de 1981, ao tentar se suicidar jogando-se do quarto andar de um prédio. No entanto, o seu inferno astral se inicia em 1973 com a separação de Rita Lee da sua vida amorosa e dos Mutantes. No ano seguinte, em 1974, “nos portões do inferno”, lança a sua obra prima “Loki”, como uma sinfonia da dor pela perda de Rita, um disco com músicas melancólicas e letras com lirismo poético. 

Depois da queda, Arnaldo passa a se recuperar e a purgar-se dedicando-se à pintura e às artes plásticas, isolando-se em Juiz de Fora, Minas Gerais. Faz, assim, a “reclusão do herói”, volta-se para música em poucas ocasiões como o lançamento do disco “Disco voador” em 1987. Na década de 1990, seu nome volta a ecoar quando o músico da banda grunge Nirvana Kurt Cobain declara a sua admiração por Arnaldo e pela música dos Mutantes, mesma opinião do cantor e compositor Beck, David Byrne e do filho de John Lennon, Sean Ono Lennon, que tocou com Arnaldo em 2000 no Free Jazz Festival. A volta triunfal do herói ocorre em 2007 em Londres com o show dos Mutantes no Barbican Hall. 

Assim como Dante teve que percorre o inferno, purgatório e céu para concluir o seu objetivo e concretizar o seu feito grandioso, Arnaldo Baptista teve o seu auge com os Mutantes e com a sua relação com Rita Lee. Depois foi “aos portões do inferno” com os discos “Loki” (1974) e “Singin' alone” (1981). Virou modelo e os cânticos vieram de seus pares com homenagens e exaltações dos seus feitos. Ao Arnaldo, após o seu percurso do herói, cabe se tornar um mito, no qual as ações e o seu nome vencem as ações do tempo e é cantada pelas gerações futuras. Nas loucuras de Quixote, Arnaldo se identifica: “A vida é um moinho/É um sonho o caminho” e, por fim, ele criou: “Eu juro que é melhor/Não ser o normal/Se eu posso pensar que Deus sou eu”.

Trailer do documentário

"Ida", de Pawel Pawlikowski

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Na língua portuguesa, a palavra “ida” é um substantivo feminino, dando a noção no seu significado de locomoção espacial. No filme “Ida” (2014), do diretor polonês Pawel Pawlikowski (1957-), a palavra é gravada em maiúsculo por ser um substantivo próprio. Ida é uma jovem  órfã que quer se tornar freira na Polônia do início da década de 1960; no entanto, antes de fazer os seus votos, ela deve se encontrar com a sua única parenta viva: sua tia. Do encontro entre sobrinha e tia, a narrativa se desenvolve com ambas tentando descobrir e/ou reviver a história dos seus entes queridos, que foram exterminados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), devido à ocupação nazista. 

Ao completar dezoito anos, Anna deixa a rotina austera do convento, a madre superior ordena-lhe que se encontre com sua tia, chamada Wanda Cruz que vive em Varsóvia, capital polonesa. Chegando à capital, a jovem noviça se depara com uma mulher livre, libertina, autônoma, que defende o regime soviético, sendo juíza e tendo lutado pela relação da Polônia com a União Soviética após o fim da grande guerra. Através da tia, Anna descobre que o seu verdadeiro nome é Ida Lebenstein, de origem judaica, e que seus pais foram exterminados pelos nazistas durante a ocupação da Polônia. Ida pede para visitar o túmulo e a antiga morada de seus parentes. 

Wanda e Ida partem pelo interior da Polônia em busca do passado, de modo que para retroceder no tempo é preciso percorrer o espaço, revisitar a memória, seja pessoal, ou mesmo coletiva. No percurso, Ida descobre onde os seus pais moravam e como foi a agonia de tentar sobreviver à ocupação alemã, sendo judeus, eram alvos dos nazistas. Encontram a cova rasa dos seus antepassados em um bosque, Wanda quer enterrá-los em um cemitério judaico. O interessante é que o filme intercala a história particular com a história coletiva, pois os dramas da família de Ida são os mesmos de diversos outros indivíduos durante os anos de conflito e ocupação, deixando marcas na própria sociedade polonesa. 

O filme “Ida” se destaca pela sua fotografia em preto e branco. A base da fotografia é a luz, no contraste entre luz e sombra, claro e escuro, tem-se não apenas o retorno aos primórdios do Cinema, mas também uma estética de valorização da imagem, dos elementos que a compõe na sua pureza, simplicidade. No contraste entre a fusão de todas as cores e a ausência delas, o plano cinematográfico se mostra belo, perfeito, aguçando o prazer dos olhos, criando um cinema de valorização da imagem, de contemplação, e não de ação, no qual o plano tem uma mínima duração em nome da proposta de cortes rápidos para gerar agilidade, como ocorre nos filmes de ação. Assim, o plano tem a sua duração, transcorrendo pelo tempo. 

O diretor Pawel, em “Ida”, desautomatiza a posição padrão dos objetos no plano cinematográfico. Em um plano, recorrentemente, coloca-se o elemento principal próximo ao centro, ou nas extremidades, se dividirmos a imagem em três partes horizontalmente da esquerda para a direita, a personagem ficaria na extremidade oposta à direção do seu olhar; todavia, o diretor coloca as personagens no lado oposto, ficando um espaço livre atrás. Verticalmente, há diversos planos com divisão em três partes, a personagem fica na primeira de baixo para cima, criando um plano com um espaço acima da cabeça da personagem que ocupa 2/3 da imagem. A nova disposição das personagens no plano causa estranhamento no espectador, desautomatizando o olhar. 

No início do filme, no mosteiro, a rotina das freiras e das noviças é simples com pequenos trabalhos: como o restauro de uma estátua, o preparo do alimento, o banho. Cada ação é ressaltada pelo seu som, não há comunicação entre as personagens, por isso, seja o som dos talheres sobre os pratos, ou do passar da mão na conta do terço, é ressaltado. Na cidade, Ida se encanta com uma jazz band, a música é libertação. O trítono, abolido pela igreja católica e domado pela escala cromática da música tonal, é a base da “música profana”, é a liberdade ecoando pela tensão com o sagrado. Ida conhece o sexo, a bebida, o cigarro, a música, mas não perde a sua fé, assim como o personagem Andrei Rublev, do cineasta soviético Andrei Tarkovski

Uma obra artística possui qualidades não apenas pelo que ela expressa, mas também pelo que suscita, ao exigir um espectador ativo, que dialogue com ela, vendo-a como uma “obra aberta”. O filme “Ida”, de Pawel Pawlikowski, trata da história particular de Ida e Wanda, como também da história coletiva polonesa pós Segunda Guerra Mundial. Ambas as personagens passam a descobrir e a reviver o passado, a primeira como conhecimento e libertação; enquanto a segunda como dor e angústia. No filme há níveis de significação e, ao irmos mais além, nas camadas mais profundas de interpretação, abre-se, como diria o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), o “Aleph”, a obra se abre para um “infinito de possibilidades”.

Trailer do filme "Ida":

“Boyhood”: Um Filme Sobre o Tempo

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A mudança das estações, o envelhecimento do corpo são as duas principais formas de percepção da passagem do tempo. Elemento que fascina, angustia e encanta a mente humana. Há a tentativa de compreendê-lo, domá-lo, manipulá-lo, na maioria das vezes sem êxito, com exceção da Arte e, principalmente, do Cinema que pode retê-lo. O filme “Boyhood: da infância à juventude” (EUA, 2014) retêm o tempo na sua duração, o diretor estadunidense Richard Linklater (1960-) filma a vida de um garoto durante doze anos, dos seus sete aos dezoito anos de idade. Entre 2002 a 2013, o elenco se reunia uma vez por ano, durante três a quatro dias, para filmar a trama e mostrar as suas transformações. 

No início do filme “Boyhood: da infância à juventude”, Mason (Ellar Coltrane) é um garoto de sete anos que mora com a irmã Samantha (Lorelei Linklater) e com a mãe Olivia (Patricia Arquette) em uma casa simples em alguma cidade do estado do Texas. O seu pai Mason (Ethan Hawke) havia deixado a família alguns anos antes. Seus setes anos são marcados pela mudança de cidade e a tentativa de compreensão do mundo a sua volta. Ao final do filme, Mason tem dezoito anos e está nos seus primeiros dias na faculdade e na fase adulta, morando sozinho em uma nova cidade, com novas pessoas e novas experiências. 

Como é preciso atar as duas pontas, o filme mostra de forma linear a partir de um enredo simples, sem tramas ou jogos temporais, a vida de Mason e de sua família. O seu pai o visita no seu oitavo ano. Com nove anos ele vai a uma aula da mãe, que está tentando se formar em psicologia, e percebe a relação dela com o professor. Vai ao lançamento do livro “Harry Potter e o enigma do príncipe”. No ano seguinte, sua mãe se casa com o professor universitário, Mason passa um final de semana na casa do pai. Com onze anos, há o início da atração e do descobrimento da sexualidade, na escola recebe um bilhete de uma pretensa namorada, Olivia se separa. Aos treze anos, Mason acampa com o pai.

Aos quatorze anos, sua mãe se torna professora universitária, sua irmã adolescente. Mason está na oitava série e bebe a primeira cerveja. No seus aniversário de quinze anos há um bolo, festa, e a visita do pai, o contato com os avós maternos em uma típica casa e família texana. Com dezesseis, Mason se encanta pela fotografia, está entre a Arte e a obrigação de fotografar, tendo que se relacionar com um novo padrasto veterano da guerra do Iraque. No ano seguinte, arruma trabalho em uma lanchonete e visita a irmã na faculdade, namora o seu grande amor da adolescência. Por fim, com dezoito anos, termina o colegial, vai para a faculdade. 

O filme mostra a vida de Mason a partir de dois importantes períodos: a infância e a juventude. O primeiro é o período de descobertas, é a percepção do mundo ao redor de um ponto de vista de baixo para cima, o que o diretor coloca como recorrente através da câmera alta e câmera baixa, alternando com frequência o plano e contra-plano, o que reforça o ponto de vista da personagem. As ações dos adultos condicionam a de Mason, cabe-lhe apenas segui-las. Na adolescência, Mason constrói a sua identidade, seja afirmando uma aparência com cabelos longos ou unhas pintadas, ou mesmo negando alguma prática, ou ainda expressando-se a partir da fotografia. 

O diretor Richard Linklater mostra a passagem do tempo através das transformações físicas que ele provoca nas personagens: no envelhecimento da pele, na transformação do cabelo, alternando em longos e curtos, como também na direção de arte com objetos de cenas típicos e representativos de cada ano, seja um computador, um console de videogame, ou mesmo acontecimentos históricos para os Estados Unidos como a invasão do Iraque em 2003, mesmo as eleições presidenciais de 2008, que elegeram Barack Obama como presidente. Outro elemento que situa historicamente a narrativa é a trilha sonora com músicas como “Yellow” do Coldplay, “She’s long gone” da banda The Black Keys, e músicas de bandas como The Flaming Lips, Wilco e Arcade Fire

Ver as personagens envelheceram durante doze anos ao longo do filme “Boyhood: da infância à juventude” é uma experiência para o espectador, pois o tempo está condensado e apreendido. O cineasta francês François Truffaut (1932-1984) também mostra a passagem da vida do seu personagem Antoine Doinel, interpretado pelo ator Jean-Pierre Léaud (1944-), ao longo de cinco filmes: “Os Incompreendidos” (1959), “O Amor aos Vinte Anos” (1962), “Beijos Proibidos” (1968), “Domicílio Conjugal” (1970) e “Amor em Fuga” (1979). Assim, pode-se acompanhar a vida de Antoine Doinel dos seus quinze anos até os trinta e poucos anos, apreendendo o tempo e diluindo-o em cinco filmes. 

O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) formulou o conceito de “la durée”, ou duração, no qual o tempo é caracterizado pela duração de momentos temporais que compõem uma experiência humana. O filme “Boyhood: da infância à juventude” mostra a duração, a natureza própria do tempo enraizada no envelhecimento do corpo, nas experiências e nas relações pessoais humanas. O Cinema é uma Arte temporal, Richard Linklater fez um filme sobre o tempo, o tempo presente, a vida presente, mas contínuo, sendo a matéria do filme o próprio tempo.

Trailer do filme

Elas São As Melhores

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Do cinema sueco originou-se um dos maiores cineastas de todos os tempos: Ingmar Bergman (1918-2007), o grande documentarista Peter Cohen (1946-) e Lukas Moodysson (1969-), um dos cineastas mais interessantes do recente século XXI. Moodysson é um dos maiores expoentes do cinema nórdico da atualidade com uma cinematografia independente que dialoga com um vasto campo de referência culturais, da música à literatura underground, à questões políticas e sociais com narrativas que remontam às décadas de 1970, 80 e 90, com filmes como “Bem-vindos” (2000), “Para Sempre Lilya” (2002), “Corações em Conflito” (2009) e “Nós Somos as Melhores!” (2014), fazendo um panorama da cultura sueca em todos os seus aspectos. 

Com o filme “Bem-vindosLukas Moodysson ganhou projeção internacional ao mostrar uma comunidade hippie na Suécia em 1975. Em uma casa, diversos indivíduos com ideais socialistas libertários tentam colocar em prática relações socialistas nos planos de convivência cotidiana, amorosa e interpessoal. Questões como a liberdade dos padrões burgueses é discutida de forma simples. Há a tentativa frustrada do poliamor, no qual os indivíduos, independente do sexo e da orientação sexual, podem ter múltiplos parceiros, o que se mostra como algo complicado. A casa é uma representação micro do universo macro da sociedade da época, polarizada entre o desejo interno de novos padrões de relações sociais contra os valores da sociedade burguesa. 

Na produção “Para Sempre Lilya” (Lilja 4-ever, 2002), Moodysson trabalha com temas mais profundos relacionados à prostituição infantil e ao suicídio. O filme narra a história de Lilya, uma jovem de 16 anos que se muda da periferia da antiga União Soviética para a Suécia, sendo obrigada a se prostituir, passa a presenciar e sentir o que de pior a essência humana possui, sendo transportado para o espectador com a recorrência da câmera subjetiva, mostrando o ponto de vista de Lilya. O objetivo do diretor é mostrar o que de podre há por trás da aparência de perfeição da moral da sociedade nórdica e, principalmente, sueca. Lilya é uma garota meiga, pura, que apenas quer ser feliz, seja brincando com as suas asas ou com o seu amigo Volodya. 

Com o filme “Corações em Conflito” (Mammoth, 2009) Moodysson faz a sua primeira produção com filmagens fora da Suécia, contando com atores de projeção internacional como o mexicano Gael García Bernal (1979-) e a atriz estadunidense Michelle Williams (1980-). No filme, eles são um casal com profissões bem sucedidas tendo como prioridade as suas respectivas carreiras. A família é uma representação micro da macro organização social, sendo ela o reflexo da sociedade. No entanto, a família não recebe atenção, os indivíduos trabalham para mantê-la, mas não desfrutam da companhia uns dos outros, o que acaba sendo contraditório. Mostrando, assim, a vida em família como ela, privada. 

No filme “Nós Somos as Melhores!” (Vi är bäst!, 2014) tem-se a história de três amigas: Bobo, Klara e Hedvig que querem montar uma banda punk. A história se passa em Estocolmo (capital da Suécia) em 1982, ano em que se propagava o fim do movimento punk com a frase “O punk está morto”. Para Klara e Bobo, de apenas doze anos, o punk não está morto. Para montar a banda, convidam Hedvig, apenas um ano mais velha e a única que possui formação musical. A trilha sonora é repleta de músicas de bandas punks suecas como a KSMB, Ebba Grön e Incest Brothers. Bandas que cantam em sueco, mas que se baseiam em bandas punks famosas como The Clash, Sex Pistols e Misfits

Bobo, Klara e Hedvig não se encaixam no padrão de comportamento escolar e, muito menos, social. Possuem atitude contestadora, tendo a difícil tarefa de construir as suas respectivas personalidades pela alteridade em relação ao outro, seja a partir da rejeição ou, no caso das três, da identificação mútua. O elemento de identificação e construção das personagens passa pela música, pelo estilo de se vestir e de comportamento. Klara possui moicano, Bobo cabelos curtos, estilo Johnny Rotten; e Hedvig acaba tendo os longos cabelos loiros cortados a um “estilo punk”. O cabelo, portanto, acaba sendo um elemento de identidade e diferenciador social.  

 Em “Nós Somos as Melhores!” Moodysson retoma temas comuns da sua cinematografia, tais como a infância, retratada a partir de uma perspectiva pessimista em “Para sempre Lilya”, mas colocada em uma perspectiva otimista; como também a própria cultura sueca, destacada pela música punk, que acaba sendo um dos principais pontos positivos do filme. Por fim, “Punk's Not Dead”, seja em 1982 quando se ouvia a música “Sex Noll Två” do KSMB, ou mesmo em 2014 com a banda Gogol Bordello com o seu estilo “Gipsy Punk”, que mescla música cigana do leste europeu, influências folclóricas eslavas e punk rock com performances teatrais envolvendo dança e arte de rua.

Trailer do filme "Nós Somos as Melhores"

Programação da Sessão Zoom de Dezembro

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Outro Tijolo no Muro

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Era 09 de novembro de 1989, às 23h29, quando na Rua Bornholmer, na região norte da cidade, cai o primeiro bloqueio de uma série de pontos de controle ao longo do Muro de 156 quilômetros que dividia Berlim fisicamente desde 1961. Outros tijolos começaram a cair, seja no principal ponto de controle das duas "Alemanhas", como o Checkpoint Charlie, na rua Friedrichstraße, ou mesmo sobre a Praça Potsdamer Platz, ou ainda defronte ao Portão de Brandemburgo. Por toda a cidade, um símbolo começava a ruir. No cinema e na música, a cidade, o seu muro, a vida de seus habitantes, o seu céu foram elementos que inspiraram artistas como os músicos Lou Reed e David Bowie, os cineastas R.W. Fassbinder, Wim Wenders e Wolfgang Becker

Um muro separa dois extremos, todavia dois espaços intimamente próximos, de modo que o maior símbolo do antagonismo não está na extensão ou na largura do muro, mas, sim, na sua altura. Na era dos extremos, que caracterizou “o breve século XX”, o final da II Guerra Mundial (1939-1945) trouxe consequências políticas para a então derrotada Alemanha, que teve o seu território dividido entre zonas de ocupação e influência pelos países aliados (EUA, França e Grã-Bretanha) e pela União Soviética (URSS). Não apenas o território alemão foi dividido, como também a própria capital Berlim, que ficava na zona soviética, foi dividida, sendo o símbolo máximo da divisão o “Muro de Berlim”, construído no dia 13 de agosto de 1961. 

Cidades são aglomerações recentes, datadas há cerca de doze mil anos. Logo com o seu surgimento, houve a necessidade de murá-las, fortificá-las contra o ataque de outras cidades inimigas. A própria Berlim já era murada nos séculos XVII e XVIII, tendo o local do Portão de Brandemburgo como entrada e saída da fortificação desde o período do sacro império germânico e dos reis prussianos. A cidade se expande, seus muros caem. No entanto, com o fim da II Segunda Guerra Mundial, e o início da Guerra Fria (1945-1991), outros tijolos erguem outro muro sobre Berlim, separando-a não apenas fisicamente, mas politicamente, socialmente e culturalmente, sendo polarizada entre a visão capitalista de uma lado (RFA) e a visão soviética de outro (DDR). 

Berlim é uma bela cidade, capital de vários reinos, reduto de outros tantos artistas. O músico inglês David Bowie (1947-) morou na cidade entre os anos de 1977 e 1979, onde ele compôs três discos, que ficaram conhecidos como a “Trilogia de Berlim”: “Low”, “Heroes” e “Lodger”, com destaque para a música instrumental “Neuköln”, que faz alusão a uma região da cidade. Já o músico estadunidense Lou Reed (1942-2013) fez uma exaltação à capital alemã na música “Berlin”, que abre o disco homônimo de 1973, no qual o primeiro verso cita o muro, mas destaca a cidade com os seus encantos: “Eins, zwei, drei/In Berlin, by the wall/You were five foot ten inches tall/It was very nice/Candlelight and Dubonnet on ice”. 

Berlim foi tema de diversos filmes e uma série especial para o formato televisivo feita por Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), chamada “Berlin Alexanderplatz” (1980), baseada no romance homônimo de 1929 do escritor expressionista Alfred Döblin (1878-1957), tendo a sua primeira adaptação cinematográfica datada de 1931, feita por Phil Jutzi (1896-1946). A obra de Fassbinder possui quatorze episódios que se centram na vida de Franz, um pobre trabalhador tendo que sobreviver na Alemanha da República de Weimar (1919-1933) em um contexto de crise econômica e social, onde as ideias no nacional-socialismo nazista surgiram e se propagaram, quando o país começa a erguer um “muro ideológico”. 

O cineasta Wim Wnders faz uma ode à Berlim no filme “Asas do desejo” (1987), que possui como um dos títulos “O Céu Sobre Berlim” (Der Himmel über Berlin). No filme, anjos observam a humanidade, ora vagando sobre monumentos, ruas e prédios, ora entre os homens. A cidade é dividida, o muro separa a parte capitalista (RFA) da parte soviética (DDR). No entanto, os anjos pairam sobre o céu, escutam as angústias e os anseios humanos. Alguns anjos observam, outro se apaixona pela humanidade, preferindo a queda à imortalidade, almejando as sensações humanas efêmeras, mas intensas. O muro é apenas uma construção física, deixado em segundo plano para discussões metafísicas humanas. 

O muro de Berlim cai no dia 09 de novembro de 1989. O muro físico caiu, no entanto, houve um muro simbólico, ideológico, que ainda separa a capital alemã, seja na arquitetura, no saudosismo do regime soviético e na não adaptação ao sistema capitalista, como mostrado no filme “Adeus, Lênin!” (2003) do diretor Wolfgang Becker, no qual a personagem Christiane Kerner seria um símbolo do regime soviético alemão (DDR), de modo que sua vida (prática e duração) é o mesmo da República Democrática Alemã. Hoje, Berlim é uma cidade singular, vanguarda, beleza, cultura, seus muros caíram. Mas, outros tijolos são colocados em muros na Palestina, no México, nas favelas do Rio de Janeiro, em fronteiras ao redor do mundo.

Lou Reed "Berlin"

David Bowie "Neuköln"

O Cinema Brasileiro da Retomada

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Diferentemente de outras expressões artísticas individuais dependentes apenas da capacidade intelectual e artística de seu Criador, o Cinema é uma Arte coletiva que depende também de uma grande quantidade de recursos, equipamentos e profissionais para a sua realização, tornando-o uma Arte cara. Para a sua realização, no Brasil, há a necessidade de produção via financiamento particular através de produtores/produtoras ou de incentivos fiscais a partir de leis de incentivo. No entanto, entre 1992 a 1994 foram produzidos apenas dois filmes no Brasil devido à falta de agências de fomento e leis de incentivo, o que foi mudado a partir de 1995 com o que se denominou de “Cinema da Retomada”. 

A história do cinema brasileiro é rica, com obras importantes não apenas para o cinema nacional, mas também para o cinema mundial, tendo grandes diretores como Humberto Mauro (1897-1983), Glauber Rocha (1939-1981), Nelson Pereira dos Santos (1928-), José Mojica Marins (1936-), Rogério Sganzerla (1946-2004), Júlio Bressane (1946-). Todavia, entre 1992 a 1994, durante o governo de Fernando Collor de Mello, a produção cinematográfica brasileira esteve em seu estágio mais baixo com a extinção da Concine (Conselho Nacional de Cinema) e da Embrafilme. Em um período de três anos, o cinema brasileiro teve o pior período da sua história com uma produção cinematográfica ínfima. 

O Cinema da Retomada foi um período de ressurgimento das produções nacionais entre 1995 até 2002. O estado passa a fomentar a produção cinematográfica a partir de leis de incentivo e cria a Ancine (Agência Nacional do Cinema) em 2001. As produções do período possuem um elemento em comum: a aceitação do público interno em relação às produções cinematográficas nacionais, que passam a lotar as salas de cinema. No entanto, elas podem ser divididas em dois grupos: o primeiro encabeçado pelas produções da Globo Filmes; e o outro por diretores que almejavam fazer filmes autorais, que fossem expressões artísticas. 

Em 1998, as Organizações Globo criam a coprodutora Globo Filmes como extensão da Rede Globo de Televisão. O objetivo é produzir filmes para o mercado cinematográfica interno, que passa a ter aceitação de obras nacionais a partir do Cinema da Retomada, tendo o seu staff técnico e de atores à disposição. Os seus filmes são de fácil assimilação pelo público já acostumado com a linguagem televisiva das telenovelas e mini-séries, segmentando, assim, o gênero da comédia e da comédia romântica. No período, lançam “Simão, o Fantasma Trapalhão” (1998), “Zoando na TV” (1999) e “O Auto da Compadecida” (1999), no qual a o filme é apenas um produto de consumo que volta a ser retomado pelo grande público. 

O marco do Cinema da Retomada é a data de 1995, ano de produção de dois importantes filmes: o primeiro “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, dirigido por Carla Camurati. O filme centra o seu enredo na vinda da família real portuguesa ao Brasil em 1808, fugindo das invasões napoleônicas, tendo as figuras de rei D. João VI (1776-1826) e da infante Carlota Joaquina de Bourbon (1775-1830) como personagens centrais. Ele mostra de forma cômica o contraste das duas culturas: a portuguesa e a brasileira. As personagens são caricaturizadas para gerar o efeito de humor, destacando a suposta sofisticação europeia em contraste com o exotismo das terras brasileiras. 

Se “Carlota Joaquina” foi o grande sucesso de público e o marco do Cinema da Retomada, a grande qualidade artística está por conta do filme “Terra Estrangeira” (1996) do diretor Walter Salles. O filme vai ser o responsável por abrir o caminho oposto ao cinema comercial, com um cinema de autor. Na obra, há uma reflexão sobre os anos da Era Collor, com a desilusão existencial devido à crise econômica e a tentativa de emigração do Brasil. Walter Salles ganharia destaque ainda com “Central do Brasil” (1998), o primeiro filme de “comoção nacional” da década de 1990, que entorne dele se geraria um orgulho e uma identidade em relação ao cinema brasileiro. O cineasta dirigiu ainda “O Primeiro Dia” (1998) e “Abril Despedaçado” (2001). 


Durante o período da Retomada, destacam-se filmes como “O Quatrilho” (1995), dirigido por Fábio Barreto e “O Que é isso, companheiro?” (1997), dirigido por Bruno Barreto, sendo baseado no livro homônimo de 1979 escrito por Fernando Gabeira sobre o sequestro do embaixador do Estados Unidos Charles Burke Elbrick, em 1969. Cineastas como Beto Brant com os seus filmes “Ação entre amigos” (1998) e “O Invasor” (1999); Laís Bodanzky com “Bixo de Sete Cabeças” (2001) também figuram como exemplos de produções da época.

Por fim, o filme “Cidade de Deus” (2002) é o marco de transição entre o que se chamou de “Cinema de Retomada” e o cinema brasileiro que vai se desenvolver com extrema qualidade a partir do século XXI. A retomada terminou o seu processo em 2002; atualmente, o Cinema Brasileiro vive o seu melhor momento desde o Cinema Novo da década de 1960, com um cinema autoral e com aceitação por parte do grande público, sem perder a qualidade e com quantidade.