A Questão da Crítica Cinematográfica

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No princípio era o roteiro, depois a produção. O Cineasta disse: “haja luz, plano, montagem”, o Cinema foi feito. Com a obra finalizada, foi contemplá-la, o espectador foi vê-la e algumas pessoas foram criticá-la. A crítica surge no contexto da realização cinematográfica. Logo que se finaliza um filme, alguns espectadores passam a ser os primeiros críticos tentando compreendê-lo. No entanto, uma classe minoritária surge tentando dialogar, desvendar, dar significado para a obra, são chamados de críticos cinematográficos. Alguns se tornam cineastas, outros messias que guiam o espectador e muitos outros contam histórias. 

O Cinema é uma Arte recente, possui pouco mais de cem anos, tendo como marco o dia 28 de dezembro de 1895, quando os Irmãos Lumière fizeram a primeira exibição em público de obras cinematográficas no Grand Café, em Paris. Projetaram “A chegada do trem à estação Ciotat" e "Saída das operárias da Fábrica Lumière”, causando espanto, admiração e pânico nos espectadores, alguns realmente acreditaram que o trem era real, fugiram do local. A exibição dos Irmãos Lumière foi o grande destaque dos jornais parisienses dos dias seguintes, com textos que tentavam explicar a nova arte.  

Tão logo que há o nascimento do Cinema, há o surgimento da crítica cinematográfica, podendo ser dividida em dois tipos: a crítica externa e a crítica interna (imanente). A primeira se preocupa com o contexto de produção e recepção da obra, tendo uma base sociológica, relaciona a produção de significado e a significação que o receptor atribui à obra ao contexto histórico e social. Destaca, deste modo, os temas abordados pela narrativa fílmica segundo posicionamentos ideológicos e historicamente construídos. 

Já a crítica interna (imanente) se preocupa com o caráter estrutural da obra, de como os elementos da linguagem cinematográfica, tais como enquadramento, plano, luz, direção de arte, roteiro, montagem, sonoplastia produzem significados. Suas bases são estruturalistas e se associam ao campo dos estudos e da teoria cinematográfica, principalmente com a influência da semiótica, que estuda o cinema como um sistema de significação, tendo a figura do francês Christian Metz como principal influência a partir da década de 1970. 

A crítica cinematográfica acaba polarizada. Há a crítica descritiva, preocupada em descrever os elementos estruturais do discurso cinematográfico, “desconstruindo” o filme a partir de uma análise fílmica que busca compreender o seu processo de significação. De outro lado, a crítica valorativa se preocupa em emitir opiniões subjetivas sobre gostos, apreciações e efeito de recepção, baseando-se apenas em elementos do enredo fílmico, principalmente o tema e as personagens. Assim, a crítica fica entre o juízo de valor e o juízo de fato. 

A figura do crítico é vista como elemento intermediador entre o filme e o espectador. Todavia, alguns cineastas desenvolveram atividade crítica antes da cinematográfica, como é o caso de Glauber Rocha, Jean-Luc Godard e François Truffaut. Os cineastas franceses colaboraram na década de 1950 com críticas para a revista fundada por André Bazin “Cahiers du Cinéma” antes de dirigirem filmes que seriam a referência do cinema de autor e do movimento cinematográfico da Nouvelle Vague francesa na década seguinte. 

No Brasil, a figura do cineasta Glauber Rocha é a que mais se associação ao artista completo: o crítico, o teórico e o prático, ou seja, aquele artista que tem a visão crítica da sua arte, a capacidade teórica de entendê-la na sua unidade e no seu presente, como também de estudá-la no seu desenvolvimento histórico para, assim, conseguir dar uma significação social, uma importância artística e referência para ela. Sendo crítico, Glauber compreendeu o que estava sendo produzido no cinema brasileiro de sua época e, sendo teórico, conseguiu entender os elementos práticos da linguagem cinematográfica conseguindo fundamentar a sua obra com uma proposta estética inovadora: o Cinema Novo. 

Portanto, a crítica faz parte do universo do cinema, podendo ser um exercício de análise, de um olhar mais profundo e, antes de tudo, uma prática de escrita e, em poucos casos, levar à prática cinematográfica. O grande problema da crítica é que ela não possui a mesma linguagem do cinema, sendo escrita, há a dificuldade de aludir à elementos da linguagem cinematográfica. Assim, ela pode ser um exercício de apreciação fílmica e de escrita que dialoga com outro texto. Mas, há blogs opinativos superficiais, messias com lanterninhas guiando os cegos, todos falando de filmes ruins para espectadores perdidos. Ao final, há outra crítica que não serve para nada, a não ser para ela mesma. Ela não é nada. Nunca será nada. Não pode querer ser nada. À parte isso, tem nela todas as possibilidades.

Programação de Outubro da Sessão Zoom

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Miss Violence: Senhorita Violência

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Miss Violence” (2013) é um filme grego dirigido pelo cineasta Alexandro Avranas, sendo o grande ganhador do Leão de Prata, prêmio do Festival de Cinema de Veneza para o melhor diretor, em 2013. O filme ata as duas pontas da cultura e da sociedade grega: a clássica e a atual, ou seja, aquela que no seu esplendor conseguiu criar as bases da cultura ocidental com a filosofia, literatura, e outras expressões artísticas; e esta que expõe o que de pior há no ser humano e, consequentemente, na sociedade. Partindo do micro (família) para o macro (sociedade), o diretor expõe temas complexos, tais como suicídios, incesto, pedofilia e prostituição infantil. 

No interior de um apartamento, uma porta pintada de branco se abre, duas adolescentes saem do quarto, vão para a sala, a família está reunida: um pai-avô, a avó, uma mãe, com suas três filhas, duas adolescentes e uma criança, além de um filho menor. O clima é de festa, festejam ao som de uma música alegre, a aniversariante está com um semblante triste na foto oficial da família, está completando onze anos. A festa é padrão, há o bolo de pasta americana, colheres rosa e copos coloridos, alguns dançam, ao fundo ouve-se a música “Dance me to the end of love”, de Leonard Cohen. Angeliki, a aniversariante, vai até a sacada, sorri, olha para a câmera, se joga, morta está, sobem os créditos iniciais. 

O prólogo com a morte de Angeliki ocorre em três minutos de filme, de uma festa de tom alegre à garota no chão com uma possa de sangue em volta da cabeça. A alegria dura poucos minutos, agora começa a tentativa do espectador para descobrir o porquê da garota ter se suicidado no seu aniversário de onze anos. Todavia, para que o enredo do filme ganhe sentido, é preciso entender a dinâmica da família e as relações de poder e de dominação que se estabelecem no ambiente familiar. Na trama, alguns indivíduos de fora tentam compreender e achar as motivações de Angeliki, como investigadores, funcionários da escola, ou mesmo a vizinha, mas a resposta é construída aos poucos, seja pelo desenrolar do enredo ou com o diálogo do espectador com a narrativa. 
 
No filme, a estrutura familiar é arcaica e padrão, sendo patriarcal, há a figura do avô-pai, que controla e detém o poder sobre os demais membros da família, há ainda a mãe passiva e observadora, que tudo sabe e tudo vê. Os outros ramos da genealogia são compostos pela filha, que por sua vez possui quatro filhos e está grávida. Todos vivem sob o mesmo teto e sobre as mesmas regras de convivência familiar. A única figura masculina é a do avô-pai, com o suicídio de Angeliki, restam apenas três mulheres e o pequeno Philippos. Ainda assim, não há respostas para a terceira mulher em uma linha de quatro mulheres da família ter se suicidado. Mas, ainda há as outras mulheres e a avó. 


O filme trata de temas demasiados humanos e de complexidade social. O primeiro deles é o suicídio, que acaba perdendo força conforme o enredo se desenvolve, ele irá se mostra como libertação e negação de um destino, o que na tragédia clássica grega era algo impossível. Em seguida, nota-se que a dominação do avô-pai é baseada também na relação sexual com as suas filhas, destacando-se, logo, a questão do incesto, de modo que a sua filha Eleni, possui três filhas que podem ser do pai-avô. 

O incesto é confirmado apenas quando se descobre que o pai-avô prostitui as mulheres da família, na cena mais impactante do filme, quando a adolescente Myrte é levada e acompanhada pelo patriarca da família para se prostituir em uma lavanderia, onde três homens, em sequência, fazem sexo de forma agressiva com a garota, dois funcionários, e, por último, o patriarca. Do incesto, passa-se para a prostituição infantil, sendo justamente nesta passagem que se obtêm a resposta do por que do suicídio. 

O suicídio de Angeliki foi a negação do futuro que a aguardava, que também foi, ao final, destinado a filha mais nova, de aproximadamente oito anos, quando o seu pai-avô a leva para um velho senhor, que paga para ter relações com a virginal garota. A pedofilia ganha destaque no filme. Com os temas abordados, tem-se que a família como núcleo social agregador é decadente, suas estruturas são podres, da aparência harmoniosa e perfeita, há camadas mais profundas de podridão e contradições humanas e sociais. 

Na tragédia grega, o destino é algo inevitável, mas há a catarse, um sentimento de dor e piedade provocado no espectador. O que se tem ao final do filme “Miss Violence” é o estranhamento e questionamento, primeiro do homem, se ele seria bom como afirma o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, e depois das estruturas sociais patriarcais, que submetem a figura feminina à dominação masculina. Por fim, o êxtase (do grego ékstasis) das mulheres é o mesmo do espectador, que entra em catarse com o fim trágico do patriarca. A porta se fecha: êxodo.

Trailer do Filme:


Um Filme Sob o Céu de Berlim

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Win Wenders
No céu sobre Berlim há nuvens cinza, o frio, o vento gélido e anjos, que pairam no ar, descansam em monumentos e caminham entre os homens. “Asas do Desejo” (Der Himmel über Berlin, 1987, RDA) foi dirigido pelo cineasta Wim Wenders (1945-), um dos representantes do Novo Cinema Alemão (Neuer Deutscher Film), surgido nas décadas de 1960 e 1970, tendo a Nouvelle Vague Francesa com o seu Cinema de Autor como influência e a tentativa de revigorar a produção cinematográfica alemã como objetivo. O filme é um dos mais expressivos da carreira do cineasta, sendo ainda laureado com a Palma de Ouro no festival de Cinema de Cannes e uma das obras mais importantes e expressivas da história do cinema. 

Sobre o céu de Berlim há anjos que observam a humanidade dentre as cinzas nuvens ou mesmo nas ruas de uma cidade dividida. Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) são anjos que acompanham os pensamentos e as ações dos berlinenses e seus visitantes, seja na parte socialista oriental (DDR) ou, predominantemente, na parte capitalista ocidental (BRD). O muro divide a cidade; no tempo, são cinquenta anos dos jogos olímpicos e duzentos do vôo de balão de Blanchard. Damiel se apaixona por uma trapezista chamada Marion (Solveig Dommartin), o que realça o seu fascínio pela humanidade, acompanhando-a desde os seus estágios mais pretéritos. Seu mundo é preto e branco, a queda o seu desejo, Marion suas asas. 

O filme possui dois títulos: o primeiro “Asas do Desejo” (Wings of Desire, Les Ailes du Désir, Las Alas del Deseo) divulgado e destinado à distribuição fora da Alemanha; o segundo, “O Céu sobre Berlim” (Der Himmel über Berlin), o mais interessante, pois o filme é uma ode à capital alemã. A cidade é um dos pontos mais importantes do filme, mesmo sendo dividida, os anjos pairam acima das questões históricas e políticas. Monumentos como a Coluna da Vitória (Siegessäule) no centro do Parque Tiergarten, a Avenida Unter den Linden para o leste da cidade e, em sentido oposto, a Torre de Rádio de Berlim (Berliner Funkturm) são mostrados. Um velho procura, rente ao muro, a Postdamer Platz, acha as suas reminiscências e um sofá. 

Damiel e Cassiel são dois anjos que acompanham a humanidade. Os anjos são seres míticos de diversas narrativas, sejam elas de matriz judaica (conhecidos como Malach), cristã, ou ainda zoroatrista, hindu e budista (chamados de Devas). Olham de cima para baixo, observando seres que adquiriram consciência e livre-arbítrio, tentando se elevar. No filme, Damiel é passional, dionisíaco, tem fascínio pela humanidade, se apaixona por uma mulher, quer sentir o gosto do café, de cigarro, sentir frio e poder se aquecer. Cassiel é apolíneo, poderia ser analisado como a metáfora do “Anjo da história”, utilizada pelo filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) no seu ensaio “Sobre o conceito de história” (1940) para analisar o conceito de progresso da história. 

Asas do Desejo” se destaca pela fotografia, inicialmente, em preto e branco. Em alguns planos e na parte final do filme, ela passa a ter cores. O mundo das cores é o da visão do homem, da condição humana, sendo elas quentes ou frias. Aos anjos restam-lhes apenas ver o mundo e os homens em preto e branco. Como a visão de Damiel e Cassiel é a compartilhada pela câmera subjetiva, mostrando o que os anjos veem, o espectador também. Ao final, com a queda de Damiel, e com a recorrência do seu olhar, a fotografia passa a ser em cores, pois, o outrora anjo é, agora, humano demasiado humano. A primeira coisa que ele aprende é diferenciar as cores, vendo o significado de significantes, reproduzindo os seus nomes, apontando-as no muro. 

O filme é a materialização da Arte cinematográfica; a poesia e a narrativa são a da Literatura. A relação entre o Cinema e a Literatura com frequência é associada entre narrativa literária e filme. No entanto, em “Asas do desejo”, o filme se assemelha à poesia. Ele se utiliza dela na abertura, no prólogo, com o poema do escritor austríaco Peter Handke (1943-): “Quando a criança era criança” (Als das Kind Kind war), sendo escrito sobre uma folha de papel. Cada plano tem a sua duração, é polido com luz, sombra, arte e se assemelha às palavras lavradas, trabalhadas pelo poeta ourives, tentando extrair, criar, destacar, atribuir o máximo de significado e de expressão poética da palavra bruta. 

O mais famoso dos anjos é o portador da luz, Lúcifer, denominado pela tradição judaica como “Estrela da manhã”, foi representado como orgulhoso no poema épico “Paraíso perdido” do escritor inglês John Milton, ou mesmo como o “Pai dos revoltosos” nas “litanias de Satã” do poeta francês Charles Baudelaire, como também nas narrativas poéticas e nos quadros de William Blake. Em “Asas do desejo”, Damiel e Cassiel são anjos, mas sem o aspecto religioso, e, sim, com uma moldagem filosófica, crítica, ou seja, Apolínea e Dionisíaca. O primeiro, cansado de admirar a humanidade sobre o céu de Berlim, se torna um anjo caído; já o segundo tem toda a eternidade para observar a efêmera história dos homens. Continua...



Programação Sessão Zoom de Setembro

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O HOMEM DAS MULTIDÕES
Data: 09/09
Hora: 20h
Local: SESC Araraquara
Valor: Grátis

7 DIAS EM HAVANA
Data: 15/09
Hora: 21h30
Local: Cine Lupo
Valor: 2,00

PINA
Data: 22/09
Hora: 20h
Local: Praça das Bandeiras
Valor: Grátis

O GAROTO DA BICICLETA
Data: 29/09
Hora: 21h30
Local: Cine Lupo
Valor: 2,00

Página do facebook: https://www.facebook.com/SessaoZoom?ref=hl


‘Norwegian Wood’: Música, Livro e Filme

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O mercado fonográfico de alta-fidelidade (hi-fi) japonês é o mais rico e de maior qualidade para audiófilos, seja nos equipamentos como Sanyo, Sansui, Sony, Technics; ou mesmo em lançamentos de discos de vinil ou cd com boxes e projetos gráficos excepcionais e de luxo. Em relação aos Beatles, os melhores lançamentos são nipônicos, devido ao fato do país ser o segundo maior admirador do quarteto de Liverpool, ganhando inclusive inserção cultural na Literatura e no Cinema japonês com o romance ‘Norwegian Wood’ (1987), título inspirado em uma célebre música dos Beatles. O romance foi adaptado para o cinema com o filme ‘Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood’ (2013). 

Em 1965, os Beatles lançam o disco ‘Rubber Soul’, sem o nome da banda na capa, apenas com uma foto com uma leve distorção de George Harrison, John Lennon, Ringo Starr e Paul McCartney na capa. As sete músicas do lado A e as sete do lado B representaram um avanço no processo de ruptura temática e estrutural da música serial pop com músicas com uma temática mais poéticas como ‘In my life’ e ‘Girl’. Um dos grandes destaques está por conta da segunda canção do lado A, a inovadora "Norwegian Wood (This Bird Has Flown)", composta pela dupla Lennon-McCartney, que dialoga com a música modal hindu com a utilização do instrumento musical de cordas conhecido como Sitar indiano. 

Os versos da música ‘Norwegian Wood (This Bird Has Flown)’ narram a história do encontro de um rapaz com uma garota em um chalé (I once had a girl, or should I say / she once had me.../ She showed me her room, isn't it good/Norwegian wood?), passam uma noite juntos (She asked me to stay / and she told me to sit anywhere / So I looked around / and I noticed there wasn't a chair), ao amanhecer ela desaparece (And when I awoke, I was alone, this bird had flown / So I lit a fire, isn't it good, Norwegian wood...). O que se tem nos versos é uma cena de encontro e desencontro em um espaço fechado e em um tempo curto, narrando um jogo de sedução cheio de símbolos, metáforas e sugestões de dupla interpretação. 

Em 1987, foi lançado o romance ‘Norwegian Wood’ do escritor Haruki Murakami (1949-), um dos mais populares escritores japoneses contemporâneos. O título do romance alude à composição dos Beatles, já que a música serve como mote para a narrativa cheia de referências implícitas e explícitas ao universo pop e intelectual da década de 1960, tais como ao Rock com referências as bandas como The Beatles, The Doors, Cream, ou mesmo ao jazz com Milles Davis. O livro se constrói a partir da narração de um personagem homodiegético (narrador-personagem em primeira pessoa) que coloca e reflete sobre as suas questões existenciais e afetivas na Tóquio da década de 1960, fazendo, assim, um retrato de sua geração. 

O romance ‘Norwegian Wood’ é uma obra que conseguiu causar impacto na cultura japonesa, sendo adaptado para o cinema em 2013 com o filme ‘Norwegian Wood’ (traduzido no Brasil como ‘Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood’), a tradução, para ser mais vendável e direta, alude à canção homônima dos Beatles. A música é a preferida do protagonista Watanabe, que a associa ao seu grande amor da adolescência para a fase adulta: a bela Naoko. Após o suicídio de Kizuki, seu melhor amigo e namorado de Naoko, Watanabe vai estudar em Tóquio. No entanto, o filme não se constrói a partir de um triângulo amoroso, mantendo-se, assim, fiel à proposta temática do romance adaptado de ser uma narrativa de memória e de reflexão. 

Dois elementos se destacam no filme: a fotografia e a música. O primeiro segue uma tradição de planos artisticamente bem trabalhados com uma bela direção de arte, com uma fotografia que se assemelha à tradição estética e plástica de cineastas como Akira Kurosawa (1910-1998), na sua obra ‘Sonhos’ (1990); ou mesmo Kim Ki-duk (1960-) com ‘Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera’ (2003). O segundo ganha força aludindo e tendo como tema a canção dos Beatles, como também pela direção e composição da trilha sonora feita pelo guitarrista da banda inglesa Radiohead Jonny Greenwood (1971-). O músico ainda compôs as trilhas de filmes como ‘Precisamos Falar Sobre o Kevin’ (2011), ‘Sangue Negro’ (2007) e ‘O Mestre’ (2012). 

No filme ‘Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood’, Watanabe tinha uma garota ou ela o teve? O filme é uma adaptação do diretor franco-vietnamita Tran Anh Hung (1962-) de um romance de Haruki Murakami, que alude à canção dos BeatlesNorwegian Wood (This Bird Has Flown)’. Assim, há o filme que adapta o romance que alude à música; ou seja, uma “quadrilha" drummoniana de relações, para os apreciadores dos Beatles, da literatura japonesa e do cinema oriental, tendo a madeira norueguesa como combustível.

Trailer do filme:

Amantes Eternos e Constantes

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Seres pálidos, sensíveis à luz do dia, com os dentes caninos sobressalentes, que se alimentam de sangue; são as descrições mais comuns de seres mítico-folclóricos conhecidos como Vampiros. Sujeitos de inúmeras narrativas, sejam elas populares, literárias, musicais, ou mesmo, cinematográficas, tiveram a sua representação modificada dependendo não apenas do contexto histórico, mas também da linguagem utilizada. No cinema, se metamorfosearam em seres horripilantes dentro do expressionismo alemão até personagens superficiais do universo adolescente. O último filme do cineasta estadunidense Jim Jarmusch (1953-), “Amantes eternos” (Only Lovers Left Alive, EUA, 2014), faz uma abordagem interessante da figura do vampiro. 

Mesmo sendo estadunidense, Jim Jarmusch está associado ao cinema independente, não se rendendo ao canto da sereia da indústria do entretenimento cinematográfico representada por Hollywood. Dirigiu “Dead man” (1995) no qual desconstrói o gênero western (faroeste), filmando em preto e branco com trilha sonora de Neil Young. Em 2003, lança a produção “Sobre Café e Cigarros” com uma série de 11 curtas-metragens com músicos e personalidades do cinema, tais como Jack e Meg White, da banda The White Stripes, Iggy Pop, Tom Waits, Roberto Benigni, Bill Murray, tendo café e cigarros como combustíveis de diálogos. Já em “Flores partidas” (2005), tem-se a busca de um pai por um filho desconhecido. 

Amantes eternos” (2014) foi lançado no festival de Cinema de Cannes, tendo como personagens figuras não muito recorrentes em filmes pretensamente autorais e artísticos lançados nos últimos anos, devido às produções para adolescentes que criaram uma figura do vampiro passiva e vendável. No filme, um casal de vampiros sociofóbicos divaga sobre música, literatura e arte em geral. Adam é músico, byroniano, depressivo, com tendências suicidas. Eva é uma vampira que tem predileção pela literatura. Observam a humanidade há séculos, tendo inclusive ajudado-a a criar obras artísticas como um adágio para uma composição de Schubert (1797-1828), ou ainda uma peça de Shakespeare (1564-1616), tendo convivido com escritores como Lord Byron (1788-1824) e Mary Shelley (1797-1851). 

O vampiro, ao longo da história do cinema, foi retratado em filmes de comédia, suspense, terror, ficção científica, drama. Um dos primeiros e mais expressivos filmes sobre vampiros é a produção “Nosferatu” (1922), de F. W. Murnau, que figura entre uma das principais obras do expressionismo alemão. Em 1979, o diretor alemão Werner Herzog refilma o clássico de Murnau com o nome de “Nosferatu: O Vampiro da Noite”, tendo o ator Klaus Kinski como o vampiro. O filme “Drácula” (1931), estrelado por Béla Lugosi, ajudou a sedimentar as principais características do personagem vampiresca dentro do gênero terror. Já no filme ‘A dança dos vampiros” (1967), o diretor Roman Polanski faz uma comédia mesclando com o terror. 

Na década de 1980, os vampiros fizeram parte de produções tais como “A Hora do Espanto” (1985) e “Garotos perdidos” (1987), este último trabalha alguns elementos recorrentes, tais como o vampiro só pode entrar na casa de alguém se for convidado, ou ainda a questão da água benta. Os filmes figuram entre o terror e a comédia. Durante a década de 1990, a produção “Um drink no inferno” (1995) foi o filme mais significativo, tendo a direção Robert Rodriguez e o roteiro escritor por Quentin Tarantino, o aclamado diretor de filmes como “Pulp Fiction” (1994), com o qual ganhou a Palma de Ouro em Cannes, “Bastardos Inglórios” (2009) e “Django livre’ (2012). Nos anos 2.000, o único filme digno de nota é a produção sueca “Deixa ela entrar” (2009). 

No filme “Amantes eternos”, Jim Jarmusch subverte a representação da figura do vampiro, fazendo um filme pretensamente autoral. Logo no início, tem-se uma cena interessante, enquanto um disco de 45 rpm toca a música “Funnel of Love”, da cantora de rockabilly Wanda Jackson, a câmera gira acompanhando a rotação do disco. A música recebe destaque no filme, seja citando e visitando a casa do músico Jack White, em Detroit, ou mesmo aludindo ao hobby de Adam: compor músicas, colecionar instrumentos musicais, além de aparelhos de reprodução como receivers, amplificadores, deck de rolos, da Marantz, Telefunken, Sansui, Marshal. 

Amantes eternos” dialoga com uma tradição, mas também a subverte, é um filme repleto de intertextualidade com a literatura, música e cinema. Mesmo com uma grande quantidade de produtos representados por filmes e seriados, a figura do vampiro durante os últimos anos ficou apagada, apática, passiva. Jim Jarmusch revive o personagem dando-lhe aspectos interessantes, inovadores, tendo a sua direção como norte e o cinema independente como bandeira. Ele é um dos arautos do cinema independente estadunidense, ou seja, aquele sem influência da indústria cinematográfica e sem as “mãos nefastas” dos produtores hollywoodianos.

Trailer do filme:


Música "Funnel of love", de Wanda Jackson

Luz, Câmera e Som - Festa da SEDA

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Exibição dos documentários “Aliens 69” e “One plus One - Sympathy For The Devil”

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Exibição dos documentários “Aliens 69” e “One plus One - Sympathy For The Devil” Sessão Zoom | SEDA | Araraquara Rock



11/08 - Segunda-feira: Sessão Zoom especial Araraquara Rock/SEDA – “One plus One - Sympathy for the Devil”, de Jean-Luc Godard,  + “Alin 69, o ano que os Rolling Stones invadiram Matão”. Bate-papo com Breno Rodrigues e com os realizadores de “Alien 69” .
Horário: 19h | Local: Praça das Bandeiras, Araraquara-SP
Gratuito

Link do evento no facebook: https://www.facebook.com/events/1460249784225959/


“Simpatia pelo Diabo” e por Godard

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Uma música mereceria um filme? Algumas poucas dentro da história da música popular massiva da segunda metade do século XX, sim, tais como ‘Like A Rolling Stone’ (1965) do Bob Dylan, ou mesmo ‘A Day in The Life’ (1967) dos Beatles, ou ainda ‘Johnny B. Goode’ (1955) do Chuck Berry, como também ‘White Light/White Heat’ (1968) do Velvet Underground. A música ‘Sympathy For The Devil’ (1968), da banda inglesa The Rolling Stones, teve o seu processo de gravação em estúdio filmado pelo cineasta francês Jean-Luc Godard (1930-), sendo lançado com o título de ‘Sympathy For The Devil - One Plus One’ (Inglaterra, 1968) em um filme cheio de referências ao contexto musical, histórico, cultural e político de 1968. 

Por gentileza, permita-me que apresente ‘‘Sympathy For The Devil’, uma música de fortuna e requinte gravada em junho e lançada como abertura do lado A no disco ‘Beggars Banquet’ em 06 de dezembro de 1968 pelos Rolling Stones. A canção foi composta por Mick Jagger tendo como inspiração para a letra o romance ‘O Mestre e Margarida’ (1940) do escritor soviético Mikhail Bulgakov e uma tradição ocultista que remete às ‘Litanias de Satã’ do poeta francês Charles Baudelaire, ou ainda às ‘fáusticas histórias’ do escritor alemão Goethe. Os arranjos são de Keith Richards e Brian Jones. O ritmo foi influenciado pela música modal africana a partir do Candomblé, que os músicos entraram em contato em uma visita à Bahia meses antes. 

Prazer em lhe conhecer, quando o cineasta Jean-Luc Godard vai a Londres, em junho de 1968, para realizar um filme com produtores britânicos, sua ideia inicial é modificada, sendo sugerido que faça uma produção com/sobre os Beatles ou mesmo os Rolling Stones. Os primeiros recusam por questões contratuais, já os segundos aceitam a proposta de realizar um filme com o grande nome da nouvelle vague francesa. Da parceria surge o filme ‘Sympathy For The Devil - One Plus One’. 

O filme se inicia com o ensaio da música, Brian Jones e Mick Jagger estão com instrumentos de cordas decorando os primeiros versos da canção. Em seguida, chega Keith Richards e, a partir de uma panorâmica horizontal, têm-se os outros músicos como o baterista Charlie Watts e o baixista Bill Wyman; Jagger entoa o refrão “Pleased to meet you/Hope you guess my name”. A câmera é documental, mostra o processo de gravação no estúdio Olympic em Londres. 

Godard entende a natureza do jogo, faz um filme que documenta o processo de gravação de ‘Sympathy For The Devil” entre os dias 04 a 10 de junho de 1968, mas, não apenas. Poucos dias antes, o cineasta estava no Festival de Cinema de Cannes na França, sendo um dos arautos (juntamente com os cineastas Carlos Saura, François Truffaut, Louis Malle, Terence Young e Roman Polanski) para o seu cancelamento em solidariedade às manifestações que estavam ocorrendo em Paris, em “Maio de 68”. 

Mas, o que intriga é o filme de Godard. O cineasta já havia abandonado as propostas estéticas da nouvelle vague para fazer filmes de caráter político através do grupo cinematográfico Dziga Vertov, que fundara no início de 1968. No filme, o cineasta vai além da música, coloca a sua nova diretriz política marxista segundo várias esquetes narrativas, discutindo o contexto social e político da época, dando vozes para os Panteras Negras, com a discussão racial; para as formas de manifestações sociais e a posição do intelectual; ou ainda a Guerra do Vietnã. As esquetes são surrealistas, quebram com o efeito de realidade e com o discurso cinematográfico padrão. 

Paris era o centro das manifestações políticas a partir de maio de 1968, Londres era a capital cultural. O termo “Swinging London” foi usado para descrever a efervescência cultural da cidade que estava na vanguarda da música com a “invasão britânica’, das artes e do cinema com os diretores Tony Richardson, Richard Lester e Lindsay Anderson. Assim, vários cineastas de outras nacionalidades foram filmar na cidade, tais como o francês François Truffaut com ‘Fahrenheit 451’ (1966), ou mesmo o italiano Michelangelo Antonioni com o filme ‘Blow-up’ (1967), e também Jean-Luc Godard com ‘Sympathy For The Devil - One Plus One’ (1968). 

Com o filme ‘Sympathy For The Devil - One Plus One’, Godard cria uma polifonia, um conjunto de vozes, de discursos: do musical com o processo de gravação da canção ‘Sympathy For The Devil’ centrado em uma banda de rock, os Rolling Stones; como também político com os Panteras Negras; ou ainda histórico, com a discussão sobre a Guerra do Vietnã. As vozes são musicais, trechos de obras literárias, sociológicas ou mesmo filosóficas. Há a voz em off, que destoa da imagem, pichações em muros, carros com os dizeres: “Cinemarxism”, “Freudemocracy”, “sovietcongs”. Jean-Luc Godard cria uma obra que presenciará muitos acontecimentos.

Trailer do filme: