Cinema: Um Culto Moderno

0
O Cinema é uma Arte recente, possui como marco de seu surgimento o ano de 1895, quando os irmãos Auguste (1862-1954) e Louis Lumière (864-948) fizeram a primeira projeção pública de um filme que apresentava imagens em movimento, o que criou um extremo “efeito de realidade” no público presente, pois muitos que estavam no recinto abandonaram a exibição acreditando que o trem que estava chegando na estação era verdadeiro. A Sétima Arte é um culto moderno, se entrelaçou com a modernidade, com a sociedade que se configurou no século XX e caminha pelo XXI. Fonte de fascínio, conflitos, produtos e alienações. Muitas vezes, assistem-se filmes por assistir, como evento social, como projeção e compreensão de algo ou mesmo como culto. 

A imagem é fascinante, o ser humano quando tem a sua aurora, busca criar imagens. Nas paredes das cavernas, nas primeiras habitações, há desenhos tentando reproduzir aquilo que foi visto de forma efêmera pelos olhos: um animal, outras figuras humanas, formas geométricas, paisagens, etc. A tomada de consciência cria o fascínio pela imagem. Foca-se no criador da imagens, no porque ele as pintou, tentou reproduzir o que viu? Mas, há aqueles que a viram, que a contemplaram. O que sentiram quando viram o artista fazendo-a, a tinta ainda fresca? Se voltaram outros dias, ou se convidaram outras pessoas para ver aquela imagem? Ou ainda se alguém de outra região ficou sabendo que poderia ver um animal que lhe provocava medo ou fascínio sempre que quisesse? 

Algumas religiões proíbem a representação do sagrado, não sendo permitida a criação de imagens de seus elementos sacros por acreditarem que seria idolatria. Há uma lógica nisso, pois quando o homem cria uma imagem, ele passa a ser o criador, não mais criatura. Se ele cria uma imagem do sagrado, de algo que lhe seria supostamente superior, a ordem é invertida. Com a diferença que o artista-criador contempla a sua Obra, sabendo que Ela lhe é superior. A criação artística seria o caminho para a sua imortalidade, já que fisicamente é ele efêmero. Com a Arte, a Criação se eleva, se iguala aos deuses, sendo, ainda, a única coisa superior aos homens. 

O Cinema é um culto organizado. Há horários, chamados de exibições semanais, na maioria das vezes, são três por dia, começando ao final da tarde. No Brasil, eles são modificados toda quinta-feira. Em cada sala, há a exibição de um filme. Os espectadores chegam e descobrem as exibições do dia, ou podem obter a informação pela internet, jornais ou mesmo com outros que já viram algum filme durante a semana. Chegando no local, há uma fila para comprar a entrada, a maioria dos cultos modernos são pagos, depois há outra para alimentos, que são sagrados, em toda e qualquer ida deve-se consumi-los. Há uma extrema organização, tudo em perfeita ordem, feita pelos organizadores. 

Assim como em todo e qualquer culto, há os doutos, ou seja, pessoas iniciadas que acreditam dominar um pouco mais o processo de compressão dos filmes. Fazem comentários sobre as obras, atores, fofocas. Comentam que gostaram do penúltimo filme, mas não do último, que pelo trailer, um dos modos de propagar a obra, estaria com uma expectativa baixa. Seus comentários se estendem durante a sessão, quer ser o tradutor para um acompanhante não iniciado do que supostamente seria o complexo sistema das imagens vistas ou da história narrada. Os comentários não se restringem às questões interpretativas, passam pelas referências intertextuais, ou seja, por uma informação que apenas eles possuem. 

Para a maioria das pessoas, o objeto de idolatria não é a obra em si, mas os atores. Está certo que é através deles que a criação ganha forma, pois dão vida ao enredo. A idolatria chega ao ponto de haver revistas, sites ou mesmo publicações especializadas nas vidas dos atores, destacando não o aspecto artístico, mas, sim, o da vida pessoal. Onde comeram, ou estacionaram o carro, com quem estavam, ou mesmo com quem estariam flertando são os motes dos textos. As revistas trazem ainda fotos, perfis e, o mais sagrado de todos, pôsteres de vários tamanhos, quanto maior, mais valorizada a publicação. Eles enfeitam paredes/altares de quartos isolados, ou estão em pastas com outras tantas fotos. 

No princípio é a luz. A sala ora escura se ilumina. Todos olham na mesma direção, estão em comunhão, fazem parte de um corpo único, orgânico, são espectadores. Comem, bebem, alguns se beijam, outros dormem, alguns poucos conversam. Os que se sentem fascinados pela imagem, entram em comunhão, seus olhos brilham, dependendo da obra podem ter epifanias, mas na maioria das vezes, devido ao local do culto: o moderno shopping, o templo maior do consumo, ele apenas cede o seu dinheiro, o seu tempo. Volta para casa da mesma forma que estava nos créditos iniciais.

A montagem da vida de Kurt Cobain no Cinema

0
Kurt Cobain (1967-1994) é o vocalista e guitarrista da banda grunge conhecida como Nirvana e um dos músicos mais emblemáticos e importantes da história da música popular massiva, ou seja, aquela ligada à indústria cultural e voltada ao entretenimento. Sua vida e carreira musical são mostradas no documentário “Cobain: Montage of Heck” (EUA, 2014) através de um rico material, composto por filmes em Super 8, além de fotos e diários, gravações de áudio a partir de fitas cassetes e de rolo, fornecido pela família, esposa e amigos do cantor. O material serviu para montar uma visão privilegiada de Kurt Cobain, desde a sua infância em uma pequena cidade dos Estados Unidos, passando pela adolescência, o início da fase adulta e O surgimento do Nirvana, até o seu suicídio aos vinte e sete anos de idade. 

O documentário “Cobain: Montage of Heck” começa com depoimentos da mãe de Kurt narrando como conheceu o marido e engravidou. Ela destaca que a infância do filho foi calma e pacata na pequena cidade interiorana de Aberdeen, nos Estados Unidos. Há fotografias dos aniversários de três e quatro anos, além de imagens em Super 8 do jovem Kurt então com quatro anos tocando uma guitarra de brinquedo. Da infância tranquila, passa-se para a pré-adolescência e adolescência, ambas problemática, repleta de conflitos com os pais, escola e amigos. O destaque fica por conta da personalidade desenvolvida pelo músico a partir do sentimento de rejeição em relação aos pais, já que ele migrava com frequência para casa de diversos parentes devido aos conflitos familiares. 

O filme destaca que a fonte da criatividade Kurt era a sua personalidade: inquieta, obscura e cheia de angústias. A estreita relação com a música surge na adolescência como uma forma de fuga, tendo o gênero Punk como ponto de partida, já que a música além de expressar e dar um significado para os anseios de Kurt, poderia ser executada por ele. Assim, decide montar uma banda, convida, inicialmente, o amigo Krist Novoselic para o baixo, em seguida, entram em contato com diversas gravadoras de pequeno porte, até que são aceitos pela Sub Pop da cidade de Seatle, em 1988. No ano início do ano seguinte, lançam o primeiro álbum de estúdio denominado “Bleach”, partem para shows em pequenos lugares. 

O documentário destaca o lançamento, em 1991, do álbum “Nevermind”, um dos mais impactantes de todos os tempos, com destaque para as músicas "Smells Like Teen Spirit", "In Bloom" e "Come as You Are". Com o lançamento do disco, os músicos foram alçados à fama instantânea, mesmo não estando preparados emocionalmente e psicologicamente para o estrelato dentro da indústria do entretenimento, repleta de obrigações e cordialidade com compromissos, entrevistas, contratos, etc. O impacto da fama sobre Kurt é imediato, sua inabilidade é evidente, explícita. Passa a ter comportamentos depressivos e a se relacionar com a cantora Courtney Love, momento em que seu vício em heroína se intensifica. Da união com Love, nasce a filha do casal: Frances Bean Cobain. 

A gestação e o nascimento de Frances é polêmica, como o casal Kurt e Love consumiam heroína com frequência, a mídia da época destacava o possível impacto que o consumo da droga poderia ter sobre a criança, que ao nascer teve a guarda retirada dos pais por um curto período de tempo. Cenas dos shows do Nirvana no Brasil dentro do Festival Hollywood Rock são mostradas, o destaque é a apresentação do dia 23 de janeiro de 1993 no Rio de Janeiro, na qual um insano Kurt em estado de transe cospe na câmera de filmagem e depois passa a se masturbar. As apresentações no Brasil já eram um indício da instabilidade de Kurt, que usava as palavras "I hate myself and I want to die" (“Eu me odeio e quero morrer”) como forma de expressar o seu estado emocional. Elas se concretizariam pouco tempo depois. 

No final do documentário, não há o destaque para os últimos dias de Kurt ou o seu suicídio, o diretor prefere destacar a gravação do último projeto do Nirvana, o “MTV Unplugged in New York”. A produção ganha qualidade quando os áudios de Kurt ganham corpo a partir de animações. Assim, a palavra se materializa e ganha forma. As passagens dos diários particulares e os desenhos do músico recebem um tratamento especial com efeitos visuais, o que possibilita não apenas entrar na intimidade, mas também na mente de Kurt. 

A história da música popular massiva é circular, partindo de formas mais simples para formas mais complexas, em um eterno retorno. Assim, do gênero Rock, parte-se para o Folk rock, para o Art rock, depois para o Heavy metal, até o Rock Progressivo, ponto mais complexo, para depois voltar-se à simplificação com o Punk rock. Dentro desta lógica, o Grunge surge no final da década de 1980, tendo o seu ápice no início da década de 90 como uma forma de simplificar a música pop. O documentário “Cobain: Montage of Heck” não se baseia apenas em depoimentos de familiares e amigos, há um rico material, o diretor Brett Morgen teve acesso privilegiado ao vasto material da família do cantor, o que possibilitou não apenas contar a história de Kurt Cobain, mas também do Grunge.

Trailer

Os Anjos de Wim Wenders

0
Continuação... Um Anjo paira sobre os céus de Berlim, não o vemos, mas compartilhamos a sua visão, em preto-e-branco, mostrada pela câmera subjetiva. Seus movimentos são livres, voa rente ao parque Tiergarten, circunda a estátua da Coluna da Vitória (Siegessäule), em seguida, pousa sobre os ombros do monumento. No filme “Tão longe, tão perto” (In weiter Ferne, so nah!, Alemanha, 1993) tem-se a continuação da produção “Asas do desejo” (Der Himmel über Berlin, 1987), nos quais o diretor alemão Wim Wenders (1945-) apresenta a história de anjos que observam a humanidade, ora acompanhando a história individual de alguns, ora escutando os pensamentos humanos cheios de dúvidas, angústias; mas também repletos de experiências, vivacidade, paixões, etc. 

Em “Asas do desejo” (1987), Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) são dois anjos que acompanham a humanidade desde os primórdios. Pairam sobre Berlim, ainda dividida pelo Muro, que foi construído em 1961 para separar a parte soviética, conhecida como DDR (Deutsche Demokratische Republik), da parte capitalista, a BRD (Bundesrepublik Deutschland). São seres elevados que olham de cima para baixo, observando os que ganharam consciência e livre-arbítrio, com uma vida humana demasiada humana com sentimentos, angústias, prazeres e uma existência, mesmo que efêmera, colorida e cheia de experiências. No filme, Damiel se apaixona pela trapezista Marion (Solveig Dommartin). Deseja sentir, não quer mais apenas observar. A queda é a sua humanização. 

No filme “Tão longe, tão perto” (1993), o diretor Wim Wenders retorna ao universo criado em “Asas do desejo” (1987). Enquanto no filme de 1987, a ação se concentra no anjo Damiel e na sua paixão por Marion; na produção de 1993, Cassiel é o protagonista. Na tentativa de intervir nas ações humanos, ao tentar salvar uma criança que cai da sacada de um prédio, ele “cai”, se torna humano, para salvá-la. Ao se tornar humano, Cassiel tem que lidar com o que caracteriza o peso da humanidade: seus sentimentos, angústias, prazeres, dores. Após a queda, se rende à jogatina, experimenta sensações, sabores, tira documentos, para ter uma “existência social”, arruma um emprego, no qual conhece e compreende a dificuldade do maniqueísmo para os humanos, por ser seres complexos. 

Tanto “Asas do desejo” quanto “Tão longe, tão perto” são obras cinematograficamente belas, mas também com um roteiro repleto de diálogos que aludem à questões de cunho filosófico, principalmente questões metafísicas humanas. Pois, ao observar o seres humanos, os anjos acabam divagando sobre aspectos humanos, tais como a efemeridade da existência e as suas angústias, sobre a vida, “um momento tão curto comparado à eternidade”. Neste contexto, o tempo é o principal elemento, de modo que “ele já existia, não sabiam que ele os faria observadores”, ressaltando que o tempo se relaciona conosco de forma subjetiva. Por isso, há as histórias de uma criança e de um idoso se entrelaçando com a de Cassiel, cada um representando os “três tempos” da vida humana, já colocados como pergunta alegórica pela Esfinge para Édipo. 

Os anjos, no contexto dos filmes, são mensageiros, trazem a mensagem de luz. São alegorias de quem apenas observa e vê a existência humana de fora. Eles não interferem nas ações dos seres humanos. Acompanhamos os seus fluxos de consciência, sua divagações mais racionais do que sensitivas. Se em “Asas do desejo”, o anjo Damiel representava a postura dionisíaca, voltada para as paixões, prazeres, sentimentos e sensações; Cassiel se portava como apolíneo, racionalizando os processos humanos. No entanto, a partir da “queda” de Cassiel, em “Tão longe, tão perto”, ele se torna dionisíaco, pois terá que aprender a lidar com as sensações e sentimentos humanos, algo difícil, doloroso e necessário para a evolução e para a existência plena humana. Ele se perde, mendiga; mas, ao final, compreende na prática o que é ser humano. 

Em “Tão longe, tão perto”, dois novos seres são incorporados ao universo narrativo criado por Wim Wenders: o primeiro é o anjo chamada de Raphaela, interpretada pela atriz alemã Nastassja Kinski (1961-), filha do ator Klaus Kinski (1926-1991). Ela já havia trabalho com Wenders no filme “Paris, Texas’ (1984). Além de Raphaela, que é a interlocutora de Cassiel, há a figura do misterioso e enigmático personagem Emit Flesti, interpretado por Willem Dafoe (1955), que pode transitar e se relacionar com os anjos e com os homens. Ele pode ser entendido como sendo a personificação do tempo, no final ele é mostrado como parte integrante das engrenagens de um relógio, símbolo máximo do tempo e da tentativa de dividi-lo, compreendê-lo e, por fim, domá-lo. 

Em um eterno retorno ou em um alfa e ômega, o que se tem é que “Tempo é Arte”. Mas, o tempo não está dissociado do espaço, da noção de distância como pode-se ver no filme “Tão longe, perto”, título que alude à coordenadas espaciais. Assim, na curta e efêmera vida humana, o tempo é supremo, senhor pelo qual a existência humana se curva. Se na tradição das narrativas de matriz judaico-cristã o anjo Lúcifer “caiu” por não querer se curvar aos humanos, nos filmes de Wim Wenders, “Asas do desejo” e “Tão longe, tão perto”, os anjos “caem ” para se tornarem humanos, por um desejo de sentirem e ter a vida humana, fazendo com que a “queda” seja uma forma de elevação, que trará uma plenitude, mesmo que efêmera, pois não se pode ganhar do tempo. Logo, resta aos homens compartilharem das indagações de Cassiel sobre os versos de Lou Reed: “Why can't I be good/Why can't I act like a man”.

Trailer do filme "Tão longe, tão perto"

Annie Hall por Woody Allen e Nossos Amores

0
O que restou de nossos amores. Uma pessoal tem noventa anos, olha para trás, vê a sua vida, suas cicatrizes, recorda suas alegrias, se lembra dos nomes de todos os seus amores (felizmente são muitos), mesmo com a morte rente a sua face, há serenidade. Amores, dores, memórias, recordações da infância e de outras partes da vida são os temas do filme “Annie Hall” (EUA, 1977), do cineastas estadunidense Woody Allen (1935-). No Brasil, no ano de seu lançamento, o filme recebeu o péssimo título “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, o que destoa do propósito da obra que é fazer uma reflexão, uma análise, sobre as relações amorosas e, principalmente, sobre os percursos amorosos que toda e qualquer pessoa se depara ao longo da vida. 
O filme “Annie Hall” é sobre Annie, interpretada por Diane Keaton (1946-), uma jovem cantora que passa a se relacionar com o comediante nova-iorquino Alvy Singer, um alter ego do próprio Allen. A rotina dos dois no início do relacionamento, as maravilhas e o encantamento do convívio inicial são mostrados, todas as ações são novas, cheias de descobertas. Cozinhar uma lagosta se torna algo lúdico, prazeroso. Os dois aprendem juntos, Alvy lhe compra livros, incentiva que ela evolua e melhore. Depois, a rotina, a vida cotidiana, ordinária, com o peso do comum. Alvy conhece os pais de Annie, ela se muda para o apartamento dele, passam a morar juntos. Vão ao cinema ver filmes do cineasta sueco Ingmar Bergman. 

O interessante no filme é que Annie evolui, está em constante aprendizado, enquanto Alvy é um ser problemático, até mesmo neurótico, que fica revivendo o seu passado, tentando superar os seus traumas: com terapia, com humor, com sarcasmo. Em uma cena, voltamos para a infância do jovem Alvy, vemos como era a sua relação com os colegas da escola, professores, antigas namoradas, com a família, etc. Ele era um ser deslocado, com dificuldades de se relacionar, mas com uma grande capacidade intelectual e crítica, por isso se torna comediante, para dar um tom de comédia ao drama da vida. Ao final escreve uma peça, com final feliz, a mesma representada pelo filme. 

O filme é repleto de digressões. O próprio Woody Allen, que interpreta Alvy, com frequência comenta o enredo, como se estivesse tentando compreender o que havia se passado. Com isso, a ação é interrompida, Alvy olha para a câmera, quebrando o efeito de realidade do cinema naturalista, se dirigindo ao espectador. Em outros momentos, ele analisa ações do seu passado, que ocorrem no plano da narrativa cinematográfica. Há inclusive um trecho de uma animação na qual Alvy fala da sua atração não pela Branca de Neve dos contos de fadas, mas pela Bruxa. O filme se coloca como uma forma de “terapia”. 

Em outra cena, na fila do cinema para ver um filme do cineasta sueco Ingmar Bergman, o efeito de realidade é quebrado quando alguém passa a analisar os filmes do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) de forma acadêmica, caricata, com conceitos repletos de falácia. Alvy interrompe o homem, passam a discutir, até que o nome do filósofo e teórico da comunicação Marshall McLuhan (1911-1980) é citado como argumento de autoridade. Para mostrar que o interlocutor estaria equivocado, Alvy coloca em cena o próprio Marshall McLuhan. Assim, tem-se uma narrativa não linear, com digressões e diálogos com o espectador. 

O filme é repleto de intertextualidades com referência explícitas e implícitas à cineastas e filmes importantes da história do cinema. No quarto de seu apartamento, Alvy e Annie estão deitados na cama, o enquadramento e a direção de arte são similares a de uma cena do filme “Domicílio Conjugal” (França, 1970) do cineasta francês François Truffaut (1932-1984). Na fila do cinema, Annie e Alvy vão ver filmes do cineasta sueco Ingmar Bergman, acabam ouvindo comentários sobre a obra do cineasta italiano Federico Fellini, como a “A Estrada” (1954), “Julieta dos espíritos” (1965) e sobre “Satyricon” (1969). 

Por fim, o que se tem no filme “Annie Hall”, nas relações amorosas são: encantamento, convívio, alteridade, conflito, identificação, término. No percurso, a passagem, intimidade, um ciclo. A separação é o fim de um ciclo, natural da vida, restando as lembranças. No epílogo do filme, tem-se que o que a memória amou, fica eterno. Annie era uma pessoa fantástica, Alvy ficou muito feliz em tê-la conhecido, e mais, ter convivido com ela. Após um encontro depois da separação, ao acaso em uma café, conversam, depois, cada um segue a vida, mas, agora, na terceira margem do rio. Por fim, as relações entre as pessoas são: irracionais, loucas e absurdas, como diz o próprio Alvy, dando um tom de comédia ao drama da vida demasiada humana.


Fotografia com Cinema com Sebastião Salgado

0
No início era a luz, a Fotografia retendo uma cena que era efêmera para as retinas humanas tão fatigadas pelo olhar automatizado do cotidiano. Depois, o Cinema com os seus vinte e quatro fotogramas por minuto, criando a ilusão de movimento. A Fotografia e o Cinema são expressões artísticas que guardam semelhanças: em ambas a luz é um dos elementos mais importantes. No documentário “O Sal da Terra” (Brasil/França, 2015), a vida e a obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado (1944-) são mostradas a partir de depoimentos e fotografias que se mesclam com imagens de expedições nos quatro cantos do Planeta Terra captadas ao longo de alguns anos pelo seu filho Juliano Ribeiro Salgado, que assina a direção juntamente com o cineasta alemão Wim Wenders (1945-). 

Daguerreotipo de 1838
O nascimento (e a história da Fotografia) é marcado pelo duplo movimento de desenvolvimento de tecnologias e mecanismos capazes de reter a luz, propiciando o surgimento e aprimoramento das técnicas que fundamentam a linguagem fotográfica. Como marco cronológico, mesmo sendo um processo, ela nasce em 1826, quando o francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) criou o processo de "heliografia", ou seja, uma “gravura a partir da luz do sol”. Somente em 1837, o também francês Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851) criou um processo de retenção da luz em uma câmara escura com uma placa com componentes químicos sensíveis à luz. A vantagem do Daguerreótipo era a sua economia de tempo e facilitação do processo. 

Sala de exibição do cinematógrafo
O Cinema segue a linha de desenvolvimento da Fotografia, dependendo de uma evolução tecnológica que propicia a captação e reprodução de imagens em uma dada sequência criando a ilusão de movimento. Para efeito de marco cronológico, o Cinema nasce em 1895 com a invenção do cinematógrafo dos irmãos franceses Auguste Marie Louis Nicholas Lumière (1862-1954) e Louis Jean Lumière (1864-1948). A diferença inicial do Cinema para a Fotografia era que, agora, a imagem não era mais estática, com a projeção em sequência de fotogramas, separados por uma pequena faixa preta, cria-se a ilusão de movimento, surgindo um efeito de realidade, pois, além de reproduzir o real de forma efetiva, o Cinema deu movimento para a reprodução. 

Sebastião Salgado
No universo da Fotografia, o brasileiro Sebastião Salgado é uma referência, sendo considerado um dos maiores de todos os tempos ao lado de nomes como Robert Capa (1913-1954), Henry Cartier Bresson (1908-2004), Robert Doisneau (1912-1994), etc. Sebastião Salgado passou a se dedicar a fotografia na década de 1970. Seus projetos fotográficos são conhecidos por retratar a figura humana em uma situação social adversa em meio à pobreza, à miséria e ao caos econômico, político e humanitário como visto nos seus livros de fotografias “Outras Américas” (1986), ou ainda em "Trabalhadores rurais" (1992). Em 2000, lançou a sua mais aclamada obra “Êxodo” e em 2013 foi lançado o seu projeto mais singular “Gênesis”, mostrando o homem e o Planeta Terra no seu estado inicial de harmonia e beleza. 

Wim Wenders e Sebastião Salgado
O filme “O Sal da Terra” é um documentário que mostra a vida e a carreira de Sebastião Salgado: da sua infância no interior de Minas Gerais, passando por sua estadia em Vitória, Espírito Santo, no início da fase adulta, até o seu exílio em Paris, na década de 1970, onde desenvolveu a sua aptidão e habilidades iniciais para a fotografia, finalizando no século XXI, com toda aclamação e reconhecimento por parte da crítica e do público. O filme é co-dirigido por Wim Wenders, um dos maiores e mais importantes cineastas vivos, que além de admirador da obra de Sebastião Salgado, também dá o seu depoimento sobre o fotógrafo brasileiro. O documentário centra-se na figura do homem, do fotógrafo que com a sua sensibilidade com “câmera olho” percorreu o planeta retratando, de forma poética e artística, o homem com fotos tiradas ao longo de mais de trinta anos de carreira. 

Juliano Ribeiro Salgado,
Sebastião Salgado e Wim Wenders
Wim Wenders cria uma narrativa para o material captado e pré-selecionado por parte de Juliano Ribeiro Salgado, que acompanhou o seu pai nas expedições fotográficas mais recentes. A escolha do cineasta alemão é sobrepor o artista com a sua obra, sobrepondo, assim, criador e criatura. Algumas fotos de Sebastião Salgado são analisadas com comentários nos quais o fotógrafo olha para a fotografia, criando um efeito de “marca d’água”, tentando recordar o contexto, a proposta, etc. A formação de Sebastião Salgado na área de economia é destacada, pois seria ela a base da sua visão crítica sobre a sociedade e a relação do homem com o universo do trabalho, bem como a compreensão das dinâmicas sociais, que são a base dos seus projetos artísticos. 

Cena de "Asas do desejo"
Poucos cineastas conseguem criar um diálogo interessante com a fotografia, conseguindo “desenhar com a luz”, como é o caso de Wim Wenders. Seus filmes possuem belas fotografias, como “Paris, Texas” (1984) e, uma das obras máximas do Cinema, “Asas do desejo” (“Der Himmel über Berlin”, 1987). Assim, o cineasta alemão faz um diálogo entre Fotografia e Cinema de forma perfeita. Da união no documentário “O Sal da Terra” entre Sebastião Salgado e Wim Wenders tem-se que, filosoficamente e artisticamente, a fotografia retém o real em uma fração de tempo, já o cinema dá movimento para o tempo retido. Portanto, na busca do tempo perdido ou da passante do poema de Charles Baudelaire, a imagem desenhada pela luz eterniza o efêmero.

Trailer do filme "O Sal da Terra"

O Multiculturalismo e o Cinema Francês

0
Diz-se que o pensamento e a cultura francesa são cartesianos, ou seja, possuem o racionalismo como base e a busca de modelos e estruturas como método. Os franceses legaram à sociedade ocidental as bases do pensamento moderno principalmente a partir do Iluminismo no século XVIII com a tentativa de “iluminar a humanidade através da razão”, culminando em um ápice com o Estruturalismo Francês no século XX. No entanto, o pensamento extremamente racional e estruturalista da sociedade tradicional francesa ainda se choca com sistemas complexos, como é o caso da questão da imigração e do multiculturalismo devido à globalização e à dinâmica de migração do final do século XX e início do XXI.

O filme “Que mal eu fiz a Deus” (“Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?”, França, 2014) consegue de uma maneira simples, lúdica, e até mesmo cômica, representar as dificuldades da sociedade tradicional francesa de se adaptar e se relacionar de forma multicultural com outras etnias e culturas. Na produção, Claude e Marie Verneuil são um casal tradicional francês de classe média alta que têm quatro filhas. As três primeiras se casaram com indivíduos que representam um grupo étnico da sociedade francesa: Isabelle se casa com o muçulmano Rachid que é um advogado de origem argelina; Odile se casa com David, um judeu que tenta prosperar com o comércio; e Ségolène se casa com Chao, de origem chinesa.

Como gaullista e estereótipo do francês padrão, Claude e sua esposa ainda possuem a esperança de que a sua última filha solteira, Laure, se case com um homem “típico francês”. Contudo, ela se apaixona e mantém um relacionamento de mais de um ano com Charles, um afrodescendente da Costa do Marfim que estuda teatro na capital francesa. Inicialmente, Laure diz que vai se casar e declara apenas, com receio da reação dos pais, que o noivo é, para a alegria da mãe, católico apostólico romano. Charles também encontra dificuldades para que a sua família aceite o casamento, de modo que seu pai não aceita que seu único filho homem se case com uma francesa caucasiana. Assim, a questão da aceitação é colocada de ambos os lados.

O restante do filme é os preparativos para o casamento de Laure com Charles e a tentativa do pai da noiva e do noivo de sabotarem a cerimônia do matrimônio. O interessante, é que, em paralelo, há a construção da harmonia e amizade entre os genros. O muçulmano Rachid se torna amigo do judeu David (algo que no plano geopolítico é difícil de acontecer) que se tornam amigos do chinês Chao. O três personagens são importantes, pois representam parcelas da sociedade francesa atual e todos eles se adaptam à cultura e fundem não só seus genes com os franceses, mas também a sua cultural com os demais. Chao ajuda David a ganhar um financiamento para a sua linha de comida saudável para muçulmanos, que tem a aceitação de Rachid.

O diálogo, aceitação e fusão da sociedade e da cultura francesa com as culturas dos imigrantes está em processo. Inicialmente, houve um estado de estranhamento e distanciamento, depois inicia-se a aceitação, em seguida a troca e, por último, o estágio de fusão. O processo inicial é evidente em acontecimentos que ficaram conhecidos como “Revoltas dos banlieues (periferia)” nas quais jovens franceses descendentes de imigrantes se revoltavam contra a marginalidade que estavam legados na sociedade francesa. Filmes como “Entre os muros da escola”, ganhador da Palma de Ouro de Cannes em 2008, e “Samba”(2014) representam o difícil diálogo da cultura francesa com os imigrantes.

O Brasil, por exemplo, é um país multicultural com influências, e mesmo base, de três culturas: a indígena, a europeia e a africana. A primeira vez que houve a aceitação e a utilização da três de forma equânime foi na Arte Modernista entorno da Geração Modernista de 22 com a figura do escritor Oswald de Andrade (1890-1954) e do Manifesto Antropofágico (1928). Na Alemanha, o cineasta Fatih Akin (1973-) consegue fazer a fusão da cultura alemã e turca nos seus filmes como “Contra a parede” (2005) e “Do outro lado” (2007). No caso francês, o diretor Philippe de Chauveron (1965-) também conseguiu unir a sociedade francesa no filme “Que mal eu fiz a Deus”, fazendo com que cada nova parcela dela se case com uma das filhas do personagem Claude.

Por fim, o que há na sociedade francesa é um duplo movimento: um de ressalva para a preservação de uma identidade e uma história cultural; e o outro de alteridade, da relação com o outro, com a diferença como parte integrante de um movimento natural e irreversível. Na busca pelo perene, pelo imutável, por modelos e estruturas que durem para sempre, anda-se em círculos, pois há o efêmero, a entropia. Os modelos estruturalistas não conseguem domar o caos e, nas novas organizações, advindas de fusões, renascimentos, gira o comboio de corda a entreter a razão, como declamaria o poeta português Fernando Pessoa. O filme “Que mal eu fiz a Deus” é apenas um entretenimento à razão, uma luz do Cinema.

Trailer do filme “Que mal eu fiz a Deus”



O Cinema Indie com “Frank”

0
Uma das perguntas mais difíceis que se pode colocar para alguém é quem ele é. Na maioria das vezes, a resposta surge a partir do verbo “ser” acompanhado da profissão: “sou médico”, “sou professor”, “sou físico”, etc. Assim, o ser é caracterizado pela profissão. No caso da personagem Frank, do filme homônimo inglês dirigido por Lenny Abrahamson, lançado em 2014, ele é músico, mas não um qualquer, faz parte de uma banda excêntrica e usa sempre uma cabeça gigante artificial. Sendo músico, é um artista que possui sensibilidade, loucura e criatividade, fazendo com que não se encaixe nos padrões sociais vigentes, com condutas diagnosticadas como loucas, insanas e anti-sociais.

O filme “Frank” não se incia com a personagem homônima principal, mas, sim, com Jon, um músico com um emprego fixo e burocrático em uma empresa. Ele tenta ter inspirações com coisas do cotidiano para compor músicas: uma criança construindo castelos de areia na praia, uma mulher com um bebê, uma moça com um casaco vermelho, outra com um azul, ou ainda o cartaz de uma banda que tocará na cidade, tudo pode se transforma em versos de uma canção. Em sua casa, tenta criar uma melodia com os versos, usando apenas três acordes. Utiliza um programa de computador e o seu teclado para compor, sem êxito. No twitter (@jonburroughs), escreve para quatorze seguidores: “trabalhando duro o dia todo em uma canção, agora, jantar”.

Jon tem a sua rotina quebrada quando presencia um homem tentando se afogar, na verdade o tecladista chamado Lucas da banda de Frank, conhecida como “The Soronprfbs”. A banda precisa de um novo tecladista, Jon se prontifica para assumir o posto. Ao chegar na apresentação, nota que a banda não é convencional, a começar pelos instrumentistas: Clara no Teremim, Nana na bateria, Baraque na guitarra e Frank nos vocais. A banda é inusitada não apenas pela cabeça gigante e artificial de seu vocalista e líder, mas também pelos músicos, que não tocam uma música tonal, em harmonia, em um único ritmo; mas, sim, uma música serial com cada instrumento em um tom. Jon é o novato, tenta improvisar, achar a nota certa.

O restante do filme é os músicos em uma casa à beira de um lago no interior da Irlanda. Querem compor um disco, o isolamento social e a união entre eles é a base, como ocorreu com os Rolling Stones, New Order e Happy Mondays. No entanto, Jon relata a rotina da banda no Twitter, saindo de quatorze para 25.790 seguidores, ou com vídeos no youtube. Os vídeos da excêntrica banda se tornam virais na rede. Recebem o convite para tocar no famoso festival de música Indie chamado SXSW na cidade de Austin, no Texas. Os músicos agem como deslocados, avessos ao sucesso, com exceção de Jon, que quer se tornar um músico famoso. No entanto, a banda é um catalizador social, um elemento agregador, não possui qualidades musicais para a indústria musical.

O filme “Frank” faz parte da linha de produções independentes (indie), conhecidas como “cinema indie”, com produções de baixo orçamento que trabalham a narrativa tendo personagens “deslocados” socialmente, caracterizados por patologia/esquisitices como acontece em filmes como “Pequena Miss sunshine” (EUA, 2006), dirigido pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris; “O Futuro” (EUA, 2013) de Miranda July; ou ainda “Tudo Acontece em Nova York” (EUA, 2012) dos diretores Ruben Amar e Lola Bessis. São, na maioria das vezes, personagens problemáticos do ponto de vista social, que não se encaixam ou tem dificuldades de se enquadrarem em uma classe social ou mesmo de agir segundo o padrão social de comportamento ditado.

O interessante que este tipo de roteiro acaba fundindo dois gêneros difíceis de serem conciliados: a comédia e o drama. Pelo fato de possuir personagens deslocados socialmente, pode-se provocar situações inusitadas, devido à inaptidão nas relações sociais ordinárias, cotidianas, o que gera elementos de humor, como a situação de Frank que acaba tendo problemas por não conseguir fazer coisas banais como escovar os dentes. No riso, há o distanciamento, pois o espectador não se identifica com a personagem e, por isso, ri dela. Mas, logo em seguida, tem-se a causa do porque Frank usa a cabeça, criando também pontos dramáticos, o que cria uma empatia, ou seja, uma aproximação da personagem com o espectador, criando, deste modo, as bases do drama.

Na história da música pop há exemplos de músicos que não conseguiram lidar com a fama ou com determinados comportamentos sociais, como é o caso de Jim Morrison, Syd Barrett, Brian Wilson, Arnaldo Baptista, Ian Curtis e Kurt Cobain. Frank segue esta linha, sendo uma síntese de todos estes. No filme, o remédio de Frank é compor para ser a sua cura da sociedade doente. A música é a sua melhor amiga (como declama Jim Morrison) responsável pela união entre seus pares, iguais: loucos na sua balada. No fim, Jon percebe que não seria possível fazer os músicos da banda “The Soronprfbs” se adaptarem a uma sociedade doente, que o diga Syd Barrett: “Shine on, you crazy diamond/You were caught in the crossfire/Of childhood and stardom”.

Trailer do filme



Pier Paolo “Pasolini”

0
Pier Paolo Pasolini é um dos maiores gênios do séculos XX. Nasceu em Bolonha, Itália, em 1922, e morreu na cidade costeira, próxima a Roma, de Óstia em 1975. Sua atuação intelectual e artística encontra eco e importância dentro da poesia, do teatro, do romance, de ensaios de cunho literário, filosófico e político; e, principalmente, dentro do Cinema, com filmes como “Accattone-Desajuste Social” (1961), “Gaviões e Passarinhos” (1966), “Teorema” (1968), e o mais conhecido e impactante: “Saló ou 120 dias de Sodoma” (1975). Em 2014, o cineasta estadunidense Abel Ferrara (1951-) realizou a produção “Pasolini” sobre as últimas horas da vida de Pier Paolo até o seu brutal e misterioso assassinato no dia 02 de novembro de 1975. 

Em “Pasolini”, o diretor Abel Ferrara escolheu o ator estadunidense Willem Dafoe para dar forma à personagem de Pier Paolo. O filme se incia com uma entrevista de Pasolini em francês comentando o lançamento do filme “Saló ou 120 dias de Sodoma”, há a mescla de imagens da produção de 1975 com questões de cunho político, cinematográfico e relacionadas à estética, a frase “Quem se recusa a se escandalizar é um moralista” é colocada como resposta. Já em Roma, a rotina do último dia de Pasolini é mostrada: a vida particular na relação com a sua mãe, com amigos, com um jornalista que o entrevista. Seu processo criativo é mostrado, seja escrevendo roteiros ou narrativas em sua máquina de escrever ou no diálogo com entes queridos. 

Mas, é noite, na sua última noite, Pier Paolo vai ao seu restaurante favorito e, por fim, decidi ir à região do meretrício romana em busca de um “ragazzo di vita” (garoto de programa). Pasolini era homossexual e gostava de se relacionar de forma perigosa e autodestrutiva com garotos de programa. Após escolher um, decidi ir à cidade de Óstia. Ao ter relações sexuais na praia, é atacado por um grupo de rapazes que o espancam e, consequentemente, o matam de forma brutal. Durante anos, o assassinato de Pier Paolo foi uma incógnita, alguns proclamavam que foi político, pois ele era um grande crítico de valores de grande parcela da sociedade italiana, outros acreditavam em crime homofóbico, mesma versão mostrada por Abel Ferrara. 

O filme de Abel Ferrara é simples, intimista. Tem-se recorrentemente planos cinematográficos fechados, centrados em Pasolini mostrando o seu cotidiano como filho, escritor e cineasta com o seu processo criativo e as suas obrigações como artista. Há a fusão de imagens da produção “Saló”. Algumas partes o trabalho de escrita de Pier Paolo ganha forma no filme de Ferrara em uma interessante relação sobre imagem e palavra no qual há uma narrativa que também dá corpo a uma narrativa literária com a história de um pai com o seu filho que vão, em pleno século XX, atrás da estrela de Belém que estaria anunciando a chegada do messias. Assim, há a narrativa biográfica como também a adaptação de uma narrativa literária escrita por Pasolini. 

"Gaviões e Passarinhos"
Pier Paolo Pasolini é conhecido por fazer um “Cinema político” com críticas e ataques às instituições sociais, representadas pelos poderes econômicos, políticos e religiosos. Sua luta foi contra o conservadorismo e a moral burguesa italiana. A postura marxista de Pasolini foi além da sua filiação ao Partido Comunista Italiano, está presente nos seu filme “Teorema” que ataca a ideologia, a futilidade e a alienação burguesa. No filme “Gaviões e passarinhos”, o cineasta filma com o comediante italiano Totò (1898-1967) uma fábula alegórica da luta de classes, na qual um corvo marxista acompanha um pai e um filho em uma estrada, apresentando de forma simplificada conceitos relacionados à análise e crítica da sociedade burguesa. 

"Saló ou 120 dias de Sodoma"
Pier Paolo Pasolini utiliza-se da alegoria no seu filme mais conhecido e polêmico: “Saló”. A história se passam em 1944 na Itália onde um grupo de quatro senhores, cada um representando uma parcela do poder da sociedade italiana: um presidente de um banco, que representa o poder econômico; um bispo, representando a igreja; um duque, que representa a nobreza e um juiz, que representa o poder judiciário. Eles selecionam um grupo de jovens para serem objetos de tortura e sadismo durantes cento e vinte dias. O filme é dividido em três partes, chamadas de “círculo”: “Círculo das manias” com a satisfação dos desejos sexuais; “Círculo das fezes” com cenas de escatologia, e o “Círculo de sangue” centrado em punições e castigos sádicos. 

Pier Paolo Pasolini
Pasolini é uma figura controversa, amado por uns, odiado e repugnado por outros. Enquanto artista, é um dos mais importantes do século XX, sendo um dos grandes cineastas do seu tempo com filmes importantes para a história do cinema, com os quais o seu nome é propagado para além da cultura italiana influenciando cineastas como Bernardo Bertolucci, Julio Bressane e Abel Ferrara, que dirigiu, prestando homenagens, o filme “Pasolini”, retratando a vida, a morte do homem, do artista. A proposta estética e política de Pier Paolo Pasolini era escandalizar para atacar a moral, utilizando o corpo, a nudez, o sexo, demonstrando o grotesco como forma de denúncia e reflexão. No seu cinema, do desgosto, do mal-estar, surgem a reflexão.



Trailer do filme "Pasolini"