O roçar da língua em cabeças fechadas

0
A língua é dinâmica, é um fato social responsável por intermediar não apenas a relação humana com o real, mas também as relações sociais. O convívio em sociedade é indispensável para o desenvolvimento da linguagem, uma capacidade inata do ser humano, assim como a sociedade depende de um sistema de significação e comunicação para se fundamentar, se desenvolver. Deste modo, pelo aspecto social da língua, há condições e lugares de produção de falas, discursos que podem ter prestígio, e o seu inverso, ou mesmo representar uma escolha ideológica. Eu resolvi escrever Machu Pichu ao invés de “Machu Picchu” no meu livro. 
 
Quando um falante escolhe uma palavra, dentro de um eixo vertical de possibilidades para combinar com outras horizontalmente, e linearmente, produzindo um discurso, deve levar em conta alguns fatores históricos, sociais, de local de fala, etc. Por exemplo, a palavra “denegrir” foi usada durante muito tempo no contexto escravista da sociedade brasileira colonial para depreciar a condição do afrodescendente em detrimento da condição do colonizador. Hoje, não utilizá-la é reconhecer a história brasileira, é não reproduzir erros e preconceitos do passado. 

No contexto latino-americano, há uma revolução em curso, um reconhecimento, uma valorização da identidade ancestral de diversos povos andinos como forma de resiliência e luta contra uma condição social, econômica e cultural imposta desde o processo de colonização. A “Revolução Pachamama” é contra o legado da colonização nos seus diversos aspectos danosos, inclusive linguísticos. Pois, a língua do colonizador é a de prestígio, é a norma, é a imposição, é a dominação. 

Escrever a palavra “Pichu” é estar com quem deveria ser o herdeiro de suas terras, é se orgulhar de uma identidade, preservar uma cultura frente ao colonizador, ao usurpador, ou seja, lutar contra não apenas uma opressão histórica de uma colonização, mas se posicionar contra agressores invisíveis, econômicos, sociais e culturais. Na língua do colonizador é escrita com dois “c”s; já na do morador, do trabalhador, do herdeiro por direito, não por condição, é escrita apenas com um “c”. 

Machu Pichu é explorada, “visitada” por visitantes de diversos locais todos os dias; menos pelos seus herdeiros que no máximo devem limpar e servir seja ao estrangeiro ou mesmo aos herdeiros dos exploradores. Eu resolvi escrever Machu Pichu ao invés de “Machu Picchu” por motivos linguísticos, históricos e sociais, mas também afetivos, pois com quem eu caminhava, compartilhava uma mesa, comia junto o alimentado retirado e dividido da mesma panela, assim o fazia. 

De início, é necessário roçar a língua para incomodar cabeças fechadas, abrir mentes. A norma, muitas vezes, não segue o uso, assim como a norma padrão não esconde a história das palavras. Palavras carregam significados com camadas construídas historicamente, condicionadas socialmente. Aqueles que se prendem apenas ao significante, na grafia das normas, reproduz, não questionam a origem do logos diretamente no verbo, na criação do discurso. Não desconstroem, parte importante do entendimento, da criação.

A Última Sessão

0
Caminhando pelo interior da Espanha montado em seu cavalo, chamado Rocinante, e com a companhia do fiel escudeiro, Sancho; o cavaleiro Dom Quixote de la Mancha se depara com inimigos grandiosos, imponentes. O cavaleiro da triste figura para, olha, diz que há gigantes a frente que devem ser confrontados. O escudeiro retruca, alega que são apenas moinhos de ventos. O Cinema é, enquanto Arte, quixotesco; já como produto, é sanchista. A Sessão Zoom é bravamente nos seus cinquenta anos mantida por quixotes.

Em algum lugar, cujo nome é fácil de se lembrar, entre São Carlos e Ribeirão Preto, surgiu a Sessão Zoom, um projeto de exibição cinematográfica que desde 1978 exibe filmes considerados expressões artísticas, caminhantes fora do circuito comercial. Ela percorreu, inicialmente, diversos espaços na cidade: Cine Capri, Cine Veneza, algumas poucas sessões na Casa da Cultura (na sala Jean-Paul Sartre) e na Biblioteca Municipal, tendo o campus da Unesp como base. Depois, se descentralizou, caminhou por outros espaços, mais periféricos, abertos e públicos. 

Exibir filmes é uma relação entre espaços adequados e formatos. Predominantemente, a Sessão Zoom exibiu, historicamente, filmes nos chamados “cinemas de rua” que se confundiam com o formato, sendo exibidos em película de 35mm contendo o movimento de um segundo sob a luz a cada vinte e quatro fotogramas. No entanto, os locais fecharam em 1999, viraram loja comercial de mercadorias e de fé. No templo do consumo se converteram em formato digital, alguns se enlataram. 

Com o fim dos “cinemas de rua” era preciso caminhar para outros lugares, enfrentar outros “inimigos”. A Sessão Zoom vai para o “Espaço Cultural Paratodos”, depois ao shopping. Por fim, perde a batalha, mas retorna, para o mesmo lugar; depois sai para as praças, para os espaços públicos exibindo filmes independentes de qualidade, de resistência à margem. O filme em 35mm é o símbolo da resistência, do saudosismo, mesmo estando no espaço dos “gigantes”. 

A Sessão Zoom é resistência, militância para a difusão do cinema enquanto arte. Luta contra o formato, a falta de incentivo, a chuva, as adversidades, gigantes; mas tem o prazer dos olhos dos produtores e espectadores que veem na luz do cinema uma realidade mais que perfeita, mostrada de forma crítica, artística. 

Não me lembro da primeira vez que fui ao cinema, mas tenho em mim que os melhores filmes que vi foram em 35mm na Sessão Zoom. A primeira sessão, a chegada do cinematógrafo, do filme analógico, o barulho do projetor, a música, a bomboniere, não vivi, mas ouvi e li relatos. Vivo, presenciei a última exibição de um filme em 35mm em Araraquara. Assisti junto ao projetor, sentado no canto da apertada sala do cinema, uma pequena faixa do filme. Não precisava de mais, tinha o fabuloso destino da jovem moradora do bairro de Montmartre que trabalhava no café “dois moinhos” na memória. 

Exibir filmes artísticos, como o faz a Sessão Zoom, é ser idealista, é lutar contra gigantes fantasiados de moinhos. Chegou-se à última sessão, outras virão em outros formatos com Sancho mascando chiclete e Quixote à cavalo.

O preço do Nobel de Literatura de Dylan

0
Robert Allen Zimmerman (1941-), mais conhecido como Bob Dylan, foi laureado com o Nobel de Literatura em 2016. O compositor e cantor estadunidense é um dos maiores gênios artísticos dos nossos tempos. Sua obra musical caminha entre a música e a composição poética, possuindo impacto cultural e relevância em outras linguagens artísticas desde a década de 1960. 

O prêmio Nobel de Literatura foi criado em 1901, sendo concedido anualmente pela Academia Sueca para os escritores que se destacam no campo literário. O Nobel não deveria servir para se colocar em discussão a qualidade artística de Dylan, mas, sim, as diretrizes do prêmio. O filósofo francês Jean-Paul Sartre recusou a premiação, poucos outros bons escritores a receberam como Thomas Mann, Luigi Pirandello, Ernest Hemingway, Albert Camus, Pablo Neruda, Gabriel García Márquez e José Saramago. 

Prêmios literários são arbitrários, destinados a laurear escritores que possuem qualidades segundo as diretrizes de determinados grupos. Com as “musas sob assédio” por parte da indústria cultural, há a tentativa de conciliar mercado editorial e qualidade literária, sendo, no atual contexto, o primeiro predominante sobre o segundo. Bob Dylan está inserido no contexto da cultura de massas, da “arte para o consumo”, mas ele vai além, possui qualidades singulares como Artista que consegue dar relevância social para a sua arte possuindo impacto dentro da sua linguagem, a música. 

Segundo a tradição literária ocidental, a poesia e a música nascem juntas, como uma só linguagem. O termo “gênero lírico” remete à lira, um instrumento musical usado pelos aedos na Grécia antiga. No entanto, os gêneros literários não são estáticos e perenes, ou seja, eles nascem, vivem, morrem e evoluem. Uma das características da arte contemporânea e da modernidade artística é a fusão de gêneros e a interseção de linguagens artísticas. 

A discussão se a composição musical é literatura ou não, não deve caminhar para posicionamentos estáticos de gosto e desejos de imutabilidade dos gêneros literários ou mesmo no sentido restrito do que é literatura, como ocorre com parte de setores da teoria literária e com o senso comum. Pelo contrário, deve caminhar para um entendimento dos fatores que regem a criação artística, possuindo a percepção do dinamismo e da interseção das múltiplas linguagens no contexto atual. 

O bardo Dylan, ou aedo para os gregos, retorna aos primórdios da literatura com a sua Arte, sem distinção entre poesia e música, na própria gênese do gênero lírico. Os tempos estão mudando, como sempre e com frequência, Dylan percebe a mudança, nós a ouvimos, quem tiver ouvidos, ouça-a. Zimmerman está entre os bons, é um dos melhores transitando entre linguagens, é um dos maiores bardos, aedos, compositores e tudo o mais de todos os tempos. O nobel é apenas um prêmio de 8 milhões de coroas suecas. Contrariando John Lennon: I believe in Zimmerman.

O olhar da fotografia no corpo

0
A fotografia surge na primeira metade do século XIX, propiciando uma nova relação do homem com a imagem, que podia, então, ser reproduzida de forma mais direta e “fiel” em relação ao real. Não apenas aquilo o que os olhos humanos viam podia ser reproduzido, mas também transposto para uma nova linguagem na qual ganharia um novo significado, uma beleza estética destacada, realçada. Neste contexto, o corpo humano se mostra como modelo, objeto fotográfico por excelência. 

A fotografia amplia a discussão da vontade humana de vencer a morte, o tempo, através da preservação do corpo, como o fizeram os egípcios com a mumificação, ou mesmo o retrato de Dorian Gray ou o retrato oval na literatura, ou tentaram os adeptos do “livro dos mortos”, responsáveis por fotografar pessoas que acabavam de morrer. No entanto, o caráter estético da fotografia se sobressai em relação aos demais, de modo que ao se ver uma fotografia, surge uma forma de contemplação. 

Na literatura, os escritores usam as mesmas palavras que usamos no nosso cotidiano, só que eles as usam de uma forma poética, literária, mas as palavras são exatamente as mesmas. Também na fotografia, o fotógrafo revitaliza a imagem desgastada pelo espelho do cotidiano. O olhar da fotografia no corpo é uma forma bela e singela de contemplá-lo no seu estado mais puro, despido. 

O projeto fotográfico “Nu meu Corpo”, da talentosa fotógrafa araraquarense Simone Dib, é a busca da projeção e do destaque da beleza natural feminina através da fotografia, revitalizando a imagem que as mulheres têm do próprio corpo, mostrando uma mulher empoderada das suas vontades e do seu corpo. O pronome possessivo “meu” destaca a posse do próprio corpo, que dependendo do contexto social, é controlado por uma moral social e/ou religiosa. 

A imagem que algumas mulheres veem no espelho cotidianamente pode ser destacada, realçada, nos seus aspectos belos através da fotografia, como podemos perceber no projeto de Dib. O corpo fotografado é o mesmo com que elas trabalham, estudam e que, muitas vezes, negam. Mas, assim como a palavra pode ser revitalizada pela literatura, a fotografia pode revitalizar a autoimagem do corpo feminino. 

Por fim, o que se tem com as fotografias de Dib, é que o olhar fotográfico no corpo nu da mulher a despe de uma carga moral, machista e religiosa que atribui a sua gênese a costela masculina. Em um dos seus ensaios, a mulher coberta de barro e argila está livre, remetendo a sua criação da consciência do corpo e da liberdade. As mulheres se revestem de barro e argila para retornarem a um primitivo estado de origem mítica e de plena liberdade. A fotografia propicia a liberdade e destaca a beleza do corpo.

 Foto: Simone Dib

 Foto: Simone Dib

Tristes Tempos

0
Estamos vivendo tempos conturbados, tempos de absoluta depuração, em que não se diz mais “nosso futuro”, porque o presente se resulta quase inútil, cheio de erros, ódio, falsas esperanças. As instituições democráticas brasileiras já não funcionam mais, não tiveram possibilidade de se fortalecerem, nunca jamais foram reformuladas ou mesmo modificadas. Elas são reféns não apenas de crises econômicas, mas também de forças de castas sociais arcaicas, fruto da formação histórica do Brasil. 

A política brasileira é um transe, um estado alterado da razão, guiada pela emoção, usurpada por arautos demagógicos de religiões. O transe é caótico, violento, não é “feito para principiantes”, por isso as mesmas famílias controlam os ritos, os jogos, as práticas e as leis. Aquele não beneficiário que quiser entrar, não poderá, porque há um porteiro impedindo a entrada; e depois dele há outro e mais outro. A história do nosso país nos revela isso com os sucessivos golpes, interrupções de governos, retrocessos de direitos, de conquistas sociais e de cerceamento de liberdades. 

Legalidade é uma palavra abstrata comandada por um verbo de ação. O legal pode não ser moral, justo, imparcial. Aquele que se esconde por trás do muro da legalidade, tem que construir um muro alto, para se esconder da vergonha da falta de ética e da falta de justiça social. O processo “legalista” judiciário não justifica a prática social, não ameniza as tensões sociais, pelo contrário, reforça estruturas sociais conservadoras, arcaicas, excludentes, violentas. 

A náusea, o muro, a insatisfação. As raquíticas instituições democráticas brasileiras já não suportam as demandas sociais da grande parcela da sociedade. O acesso as instituições é restrito, algo que “monárquico”, há os filhos e os netos que estão na mesma posição dos pais, no mesmo país de seus antepassados. Nada mudou, quando houve a tentativa de mudança, o que se recebe em troca ainda é repressão, violência, uso da força coerciva do estado. 

Toda causa gera uma consequência, mas no atual momento da sociedade brasileira, a segunda deve ser substituída pela reação. É preciso reagir, é preciso lutar, é preciso se organizar, é preciso entender, é preciso não aceitar, é preciso união, é preciso amar, é preciso combater o ódio, é preciso debater, é preciso suportar, é preciso viver (sem medos), é preciso proclamar o fim de falsas esperanças, é preciso estudar o passado, é preciso ter futuro sem temer o presente, é preciso, por fim, jamais temer.




Avenida Espanha com Rua 6

0
Em Araraquara, no interior de São Paulo, somos noventa por cento de cheiro de laranja no ar, outros tantos por cento de Arte nas almas. Por isso somos, na maioria das vezes, fechados para o exterior, apenas cumprimentamos os que cruzam os nossos caminhos pelas ruas e avenidas da cidade, não por despeito ou ar de superioridade, mas porque nos fechamos em nós mesmos, em um mundo interior. 

Costumo dizer que possuo uma alma, uma ética mineira. Morei quinze anos de minha vida em Minas Gerais. Principalmente cresci em Minas, de onde trouxe sentimentos diversos, uma espiritualidade, uma melancolia que tanto diverte, um mistério que a alguns encanta. A dor de amar é doce lembrança mineira, dos amores adolescentes, idealizados com garotas simples de cabelos soltos, olhares sonhadores, sorrisos sorrateiros. De quando havia a crença na perenidade da vida, das pessoas, das paixões. Minas é um estado geral da alma, uma eterna briga entre ora o ser maior do que o mundo, ora menor. O estado gauche da vida é uma condição da existência tranquila do sertão da alma mineira. Mas, hoje, ela é apenas um retrato na parede, mas como marca. Minas é isto: empurramos para trás, mas de repente ela volta a rodear-nos dos lados. A gerais é quando menos se espera. 

Caminhando pela pedregosa Rua 5, percebo a minha outra metade, o que faz a mente pulsar, o conhecimento ferver, movimentar e, em alguns casos, aprisionar os pensamentos em estruturas dominantes, principalmente acadêmicas. Araraquara me deu o método, o conhecimento, deu forma artística, o caminho da expressão. Subo a Avenida Espanha, me sento no meu lugar predileto da cidade ao final da tarde para beber um café, comer algo, escrever outras poucas coisas de tantos devaneios. 

Araraquara aterrou o meu ser, talvez por isso gosto de caminhar pelos seus caminhos centrais, não é possível se perder nas grades das suas ruas e avenidas. Também não sinto mais o cheiro de laranja nas minhas narinas tão fatigadas. Nos últimos dias, percebo o lado mineiro se sobressaindo no prosear com o outro, no prazer de ouvir histórias, em tomar cafés. 

Em uma tarde, Ademir criou coragem, me perguntou em que eu trabalhava nos diversos finais de tarde em seu estabelecimento, ficou curioso em saber o que fazia sentado, introspectivo. Sempre que me servia o café, era formal, educado, marca da sua descendência japonesa. Quando respondi que estava terminando o meu livro de relatos de viagem, ele ficou contente, feliz, creio que pela descoberta, me ofereceu um café, bebi, agradeci, passamos a conversar com mais frequência. O café e o Ademir me lembraram que preciso ser mais mineiro.

Relatos de Viagem: Santa Cruz de la Sierra/Bolívia, 23 de dezembro de 2015

0
O ônibus atrasou trinta minutos, deveria ter saído às 11h de Puerto Quijarro rumo a Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. A manhã estava muito quente, conforme aproximávamos do meio-dia, o calor aumentava, assim como o desconforto. Comi duas empanadas de carne, bebi um suco de maracujá, era muito doce. 
Não há organização prévia para o embarque, o ônibus permanece estacionado ao lado de fora da rodoviária de terra batida. Primeiro carregam as encomendas: caixas, sacos, uma lava louças, um ar condicionado, máquina de lavar roupas, uma pequena bicicleta, um pequeno boliviano a acompanha com o olhar atento. Em seguida, os passageiros colocam as suas bagagens, entram no precário veículo.
O ônibus parte, chego às 20h30 na rodoviária de Santa Cruz de la Sierra. Foram mais de quatrocentos quilômetros de calvário, com muito calor, nenhum conforto. O ar condicionado não funcionava, o sol estava ao lado da minha janela. 
As noves horas de viagem foram uma experiência interessante: fisicamente era castigado com o calor, o desconforto. No entanto, psicologicamente me sentia bem, creio que devido às técnicas de respiração, de meditação ensinadas pela Marcela, minha professora de yoga. Ao meu lado, sentou-se um brasileiro, vivia há três anos em Santa Cruz de la Sierra, viajara a Bolívia como missionário, casou-se com uma boliviana, estava esperando o segundo filho. 

Reilson é paraense, tem vinte e seis anos, viajava de roupa social. Contou-me como é sua vida, como foi sua infância, adolescência no estado brasileiro do Pará, sua experiência como missionário em diversas regiões do Brasil e da Bolívia. Largara os estudos para se dedicar à missão de evangelizar. Sua esposa nasceu em Cochabamba, na Bolívia, está grávida de quatro meses, seu primogênito tem sete meses. 

Durante o trajeto, dialogamos sobre o Livro de Jó, o Evangelho de João e o Livro do Apocalipse. Havia paixão nas suas observações sobre a bíblia, é um crente, um evangelizador, propagador de sua religião. Eu, um ateu, preocupado, fascinado pelas narrativas, pelas reflexões, não concordando com a aposta feita entre Deus e o Diabo; mas que via beleza no título do livro do filósofo alemão Friedrich Nietzsche em alusão ao Evangelho de João no capítulo 19, versículo 5; ou mesmo se encantava com o versículo 8 do primeiro capítulo do último livro de João. 

Em Santa Cruz de la Sierra, o ônibus parou em uma rua próxima à rodoviária, muito movimentada. Reilson se prontificou a encontrar um táxi para mim, não queria que os bolivianos me cobrassem mais caro por ser turista. Disse-me que deveria pagar $20 bolivianos, falara o endereço para o taxista, nos despedimos. Ele resolve pegar um ônibus circular para a sua casa, não daria tempo de chegar ao culto das 21h, reencontraria esposa e filho. 

Quase dormindo, penso que Federico Fellini adoraria ter conhecido o Mercado Municipal e o Terminal Rodoviário de Puerto Quijarro com o seu barulho, as suas cores e o seu caos funcional, o que é belo. Penso em quem seria Flora Nina Guachalla, ou mesmo em uma boliviana parecida com Saraghina. 
(Trecho do livro “De Araraquara a Machu Pichu: Relatos de Viagem”)

Para apoiar o livro, entre no site do Catarse: https://www.catarse.me/araraquaramachupichu



Viagens Imaginadas

0
Viajar não é um fim, é um meio, um motivo, uma necessidade. O deslocamento no espaço gera uma nova relação com o tempo presente, essencial para se entender o passado, o futuro. Ter histórias, memórias. Viajo porque preciso; volto porque sinto saudades, porque tenho memórias de espaços, sensações, tempos, viajantes, amores. A viagem é metafísica, representante da dialética interior versus exterior, o roteiro contra o acaso, a percepção da dualidade da vida, dos sentimentos. A troca de seres, o contato. Caminhos criam roteiros lineares, podendo se cruzar, é a sinfonia do acaso. 

Contar relatos de viagens é algo arquetipal, várias culturas possuem seus mitos de criação e de viagens. Na cosmogonia, as aventuras dos heróis por terras estrangeiras são parte fundamental do desenvolvimento do indivíduo e da sociedade. O mito não é apenas uma leitura do mundo, mas também do homem.  Jasão viajou com os argonautas da Grécia até as terras do oriente em busca do velocino de ouro; Macunaíma percorreu terras dos “tristes trópicos” em busca de sua muiraquitã. Na tradição das narrativas nórdicas, os vikings possuem relatos de viagens de aventureiros como Ragnar Lodbrok que se lançaram aos mares com barcos chamados de “drakkars”. 

Heródoto narra em suas “Histórias”, sob o signo das musas, casos de aventureiros de diversos reinos da antiguidade que viajaram rumo a terras desconhecidas. Plutarco narrou “vidas ilustres” com destaque para a de Alexandre, o Grande; aventureiro e conquistador da Macedônia que conseguiu expandir o seu reino até os limites do extremo oriente, em territórios da Índia, estabelecendo o período helenístico da antiguidade. 

Marco Polo viajou de Veneza até o extremo oriente chegando às terras da Mongólia e China dominadas pelo Kublai Khan. Navegantes portugueses partiram do “Jardim das Hespérides” navegando em périplo pelo continente africano, passando pelo mar índico, atlântico, asiático até o Japão; culminando com a circunavegação da terra. 

No universo das histórias em quadrinhos, o personagem Corto Maltese, criado pelo italiano Hugo Pratt, é um aventureiro, um marinheiro com diversas histórias e “baladas em mares salgados” na Oceania, no continente americano, africano, asiático e europeu. Desaparece lutando nas “brigadas internacionais” durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), sua última aventura. 

O cinema possui os “road-movies”, um gênero específico para filmes que se baseiam em relatos de viagens. O cineasta italiano Federico Fellini realizou “A estrada da vida” sobre a história do casal circense de rua chamados de Gelsomina e Zampanò a partir de viés existencialista. Em “Exílios”, o diretor argelino Tony Gatlif coloca a questão da viagem como a busca pela identidade. No filme “Paris, Texas”, de Win Wenders, Travis é um caminhante, se perde por caminhos, retorna para estradas familiares. 

Relatar viagens é compartilhar experiências, sensações, impressões sobre culturas, lugares, tempos e aventuras; caminhando entre a subjetividade e a objetividade, entre a impressão e a escrita. Um devaneio da realidade.

‘Tinderelxs’: o amor nos tempos dos aplicativos

0
Amar é uma ação, aquele que ama, como o verbo transitivo, necessita de um complemento, pois quem ama, ama alguém. A busca pelo amor, a reconciliação entre Eros e Psiquê, na era dos aplicativos é o tema da peça ‘Tinderelxs’ da companhia Maizum de Artes Cênicas. Em trajes de núpcias, Dominatrix (Carol Gierwiatowski), PsiquEros (Renato Alves), Stalker (Danilo Forlini) e Bloody Bride (Neila Dória) são quatro personagens que expressam as características do “amor líquido” na tentativa de realização amorosa através de aplicativos de relacionamentos. 

Dominatrix é o amor construído por camadas da memória. Carrega um buquê de noiva com fios de chicote, com uma lança na outra ponta. Sob a cama de gato, tenta conectar as memórias de seus amores, relembra dos efêmeros e intensos. Mas não é a dominadora, é submissa a sua busca. Com os versos “o amor que vive em mim/vou agora revelar/este amor que não tem fim/já não posso em mim guardar” da música ‘Gayana’ expressa-se duplamente, unindo Amor e Arte. 

PsiquEros é o símbolo do amor autodestrutivo, submisso na busca por uma alteridade. Conhece todas as regras dos relacionamentos, mas se flagela, é agredido. Quer apenas amar alguém sem ter que que hesitar, se machucar. Na sua cama, solitário, envia mensagens em áudio para “amores passantes”.

A personagem Bloody Bride expõe a posição do feminismo, questiona o papel da mulher na sua busca pelo amor na atualidade. Ela é o amor não submisso, que luta para se emancipar. Em outro aspecto, Stalker é o humor: é preciso rir, é preciso amar, é preciso achar alguém, uma vida de necessidades. Perfis são expostos, apresentações, buscas se mesclam. 

Na intervenção cênica ‘Tinderelxs’ as histórias apontam para experiências passadas, marcadas na memória, mas o fim, o almejado, é o final feliz representado pela harmonia, comunhão arquetipal entre Eros e Psiquê, simbolizada pelo ritual do matrimônio. Os quatro personagens entram no carro, festejam, há uma música feliz de casamento, partem. 

O amor nos tempos dos aplicativos se prende a uma “cama de gato” tentando conectar os que buscam eternamente serem amantes ou apenas desvencilhar-se da solidão. Como é a busca pelo amor intermediada pela tela, com a ação sendo iniciada com o toque no “x” ou no “coração vermelho”? A companhia Maizum de Artes Cênicas com a direção de Weber Fonseca responde à indagação através da intervenção cênica ‘Tinderelxs’. 

No fim, há a facilidade da conectividade virtual ao mesmo tempo em que ocorre a inabilidade, a efemeridade, a pouca profundidade das relações afetivas humanas. Assim, mesmo na era dos aplicativos, o ser humano, repleto de dilemas existenciais, se volta para questões arquetipais em torno do amor, se questionando “como eu amo?”.



Sobre ser idoso nas cidades e a peça de teatro "+75"

0
Manuel (Miquel Chimeno), Antonio (Ferran Orobitg), Fermin (Ivan Alcoba) e Mapi (Núria Pellisa Gracia, estrela da companhia) são quatro idosos, suas pernas são grandes, são amigos que caminham pela cidade. No entanto, possuem ritmo próprio, seja devido à idade avançada, como também pelo companheiro de cadeira de rodas. A peça “+ 75” da companhia de teatro espanhola Fadunito apresenta situações difíceis da relação entre o idoso e o espaço urbano. 


Passar dos 75 anos no século XXI é mais fácil do que em outros períodos da história. A humanidade está conseguindo envelhecer, vive-se por mais tempo, sendo possível tornar-se idoso de forma mais natural. Todavia, a qualidade de vida dos que chegam à terceira idade nos centros urbanos ainda é prejudicada pela falta da capacidade da cidade de integração, acessibilidade e adaptação as necessidades do idoso, opondo- se ao ritmo acelerado da vida moderna
.

A companhia de teatro Fadunito usa técnicas do “teatro de rua” para contar a história de quatro amigos idosos tentando se integrar aos espaços urbanos. Os atores usam pernas de pau, o que faz com que se destaquem no meio da multidão, desautomatizando e tornando visível a figura do idoso. 

As cidades contemporâneas não atendem todas as necessidades de acessibilidade dos idosos. Na peça, o personagem chamada Manuel se locomove em cadeiras de rodas, o que faz com que um simples deslocamento seja dificultado por falta de rampas, calçadas pavimentadas, sem nenhuma irregularidade. Como a peça é ‘na rua” alguns espectadores participam da encenação, seja ajudando o cadeirante a atravessar uma rua ou subindo uma escadaria, demandando esforço e trabalho em grupo. 

O destaque da peça é a abordagem da problemática da dificuldade de adaptação não apenas do espaço urbano ao idoso, mas também dos indivíduos. Pois, passam a ver as necessidades dos idosos como um atraso, um problema que estaria atrapalhando o ritmo de vida ordinária urbana. Na apresentação na cidade de Araraquara (Brasil), um policial militar abordou de forma rude e agressiva os atores que, segundo ele, estariam atrapalhando o trânsito e o ritmo do tráfego. 

Por fim, a apresentação do espetáculo “+ 75” da companhia de teatro catalã Fadunito destaca, de forma primorosa, as dificuldades de ser idoso nos centros urbanos atualmente. Manuel, Antonio, Fermin e Mapi possuem ritmos próprios da terceira idade, cabe as cidades se adaptarem criando formas de acessibilidade que facilite a mobilidade do idoso de forma que suas necessidades sejam integradas ao espaço urbano.

Data e local da apresentação: Araraquara, São Paulo, Brasil / 18 de junho de 2016
Fotos: Renato Haddad
Link da companhia: http://www.fadunito.com/wp/
Link da peça: http://www.fadunito.com/wp/75/