Os Anjos de Wim Wenders

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Continuação... Um Anjo paira sobre os céus de Berlim, não o vemos, mas compartilhamos a sua visão, em preto-e-branco, mostrada pela câmera subjetiva. Seus movimentos são livres, voa rente ao parque Tiergarten, circunda a estátua da Coluna da Vitória (Siegessäule), em seguida, pousa sobre os ombros do monumento. No filme “Tão longe, tão perto” (In weiter Ferne, so nah!, Alemanha, 1993) tem-se a continuação da produção “Asas do desejo” (Der Himmel über Berlin, 1987), nos quais o diretor alemão Wim Wenders (1945-) apresenta a história de anjos que observam a humanidade, ora acompanhando a história individual de alguns, ora escutando os pensamentos humanos cheios de dúvidas, angústias; mas também repletos de experiências, vivacidade, paixões, etc. 

Em “Asas do desejo” (1987), Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) são dois anjos que acompanham a humanidade desde os primórdios. Pairam sobre Berlim, ainda dividida pelo Muro, que foi construído em 1961 para separar a parte soviética, conhecida como DDR (Deutsche Demokratische Republik), da parte capitalista, a BRD (Bundesrepublik Deutschland). São seres elevados que olham de cima para baixo, observando os que ganharam consciência e livre-arbítrio, com uma vida humana demasiada humana com sentimentos, angústias, prazeres e uma existência, mesmo que efêmera, colorida e cheia de experiências. No filme, Damiel se apaixona pela trapezista Marion (Solveig Dommartin). Deseja sentir, não quer mais apenas observar. A queda é a sua humanização. 

No filme “Tão longe, tão perto” (1993), o diretor Wim Wenders retorna ao universo criado em “Asas do desejo” (1987). Enquanto no filme de 1987, a ação se concentra no anjo Damiel e na sua paixão por Marion; na produção de 1993, Cassiel é o protagonista. Na tentativa de intervir nas ações humanos, ao tentar salvar uma criança que cai da sacada de um prédio, ele “cai”, se torna humano, para salvá-la. Ao se tornar humano, Cassiel tem que lidar com o que caracteriza o peso da humanidade: seus sentimentos, angústias, prazeres, dores. Após a queda, se rende à jogatina, experimenta sensações, sabores, tira documentos, para ter uma “existência social”, arruma um emprego, no qual conhece e compreende a dificuldade do maniqueísmo para os humanos, por ser seres complexos. 

Tanto “Asas do desejo” quanto “Tão longe, tão perto” são obras cinematograficamente belas, mas também com um roteiro repleto de diálogos que aludem à questões de cunho filosófico, principalmente questões metafísicas humanas. Pois, ao observar o seres humanos, os anjos acabam divagando sobre aspectos humanos, tais como a efemeridade da existência e as suas angústias, sobre a vida, “um momento tão curto comparado à eternidade”. Neste contexto, o tempo é o principal elemento, de modo que “ele já existia, não sabiam que ele os faria observadores”, ressaltando que o tempo se relaciona conosco de forma subjetiva. Por isso, há as histórias de uma criança e de um idoso se entrelaçando com a de Cassiel, cada um representando os “três tempos” da vida humana, já colocados como pergunta alegórica pela Esfinge para Édipo. 

Os anjos, no contexto dos filmes, são mensageiros, trazem a mensagem de luz. São alegorias de quem apenas observa e vê a existência humana de fora. Eles não interferem nas ações dos seres humanos. Acompanhamos os seus fluxos de consciência, sua divagações mais racionais do que sensitivas. Se em “Asas do desejo”, o anjo Damiel representava a postura dionisíaca, voltada para as paixões, prazeres, sentimentos e sensações; Cassiel se portava como apolíneo, racionalizando os processos humanos. No entanto, a partir da “queda” de Cassiel, em “Tão longe, tão perto”, ele se torna dionisíaco, pois terá que aprender a lidar com as sensações e sentimentos humanos, algo difícil, doloroso e necessário para a evolução e para a existência plena humana. Ele se perde, mendiga; mas, ao final, compreende na prática o que é ser humano. 

Em “Tão longe, tão perto”, dois novos seres são incorporados ao universo narrativo criado por Wim Wenders: o primeiro é o anjo chamada de Raphaela, interpretada pela atriz alemã Nastassja Kinski (1961-), filha do ator Klaus Kinski (1926-1991). Ela já havia trabalho com Wenders no filme “Paris, Texas’ (1984). Além de Raphaela, que é a interlocutora de Cassiel, há a figura do misterioso e enigmático personagem Emit Flesti, interpretado por Willem Dafoe (1955), que pode transitar e se relacionar com os anjos e com os homens. Ele pode ser entendido como sendo a personificação do tempo, no final ele é mostrado como parte integrante das engrenagens de um relógio, símbolo máximo do tempo e da tentativa de dividi-lo, compreendê-lo e, por fim, domá-lo. 

Em um eterno retorno ou em um alfa e ômega, o que se tem é que “Tempo é Arte”. Mas, o tempo não está dissociado do espaço, da noção de distância como pode-se ver no filme “Tão longe, perto”, título que alude à coordenadas espaciais. Assim, na curta e efêmera vida humana, o tempo é supremo, senhor pelo qual a existência humana se curva. Se na tradição das narrativas de matriz judaico-cristã o anjo Lúcifer “caiu” por não querer se curvar aos humanos, nos filmes de Wim Wenders, “Asas do desejo” e “Tão longe, tão perto”, os anjos “caem ” para se tornarem humanos, por um desejo de sentirem e ter a vida humana, fazendo com que a “queda” seja uma forma de elevação, que trará uma plenitude, mesmo que efêmera, pois não se pode ganhar do tempo. Logo, resta aos homens compartilharem das indagações de Cassiel sobre os versos de Lou Reed: “Why can't I be good/Why can't I act like a man”.

Trailer do filme "Tão longe, tão perto"

Annie Hall por Woody Allen e Nossos Amores

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O que restou de nossos amores. Uma pessoal tem noventa anos, olha para trás, vê a sua vida, suas cicatrizes, recorda suas alegrias, se lembra dos nomes de todos os seus amores (felizmente são muitos), mesmo com a morte rente a sua face, há serenidade. Amores, dores, memórias, recordações da infância e de outras partes da vida são os temas do filme “Annie Hall” (EUA, 1977), do cineastas estadunidense Woody Allen (1935-). No Brasil, no ano de seu lançamento, o filme recebeu o péssimo título “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, o que destoa do propósito da obra que é fazer uma reflexão, uma análise, sobre as relações amorosas e, principalmente, sobre os percursos amorosos que toda e qualquer pessoa se depara ao longo da vida. 
O filme “Annie Hall” é sobre Annie, interpretada por Diane Keaton (1946-), uma jovem cantora que passa a se relacionar com o comediante nova-iorquino Alvy Singer, um alter ego do próprio Allen. A rotina dos dois no início do relacionamento, as maravilhas e o encantamento do convívio inicial são mostrados, todas as ações são novas, cheias de descobertas. Cozinhar uma lagosta se torna algo lúdico, prazeroso. Os dois aprendem juntos, Alvy lhe compra livros, incentiva que ela evolua e melhore. Depois, a rotina, a vida cotidiana, ordinária, com o peso do comum. Alvy conhece os pais de Annie, ela se muda para o apartamento dele, passam a morar juntos. Vão ao cinema ver filmes do cineasta sueco Ingmar Bergman. 

O interessante no filme é que Annie evolui, está em constante aprendizado, enquanto Alvy é um ser problemático, até mesmo neurótico, que fica revivendo o seu passado, tentando superar os seus traumas: com terapia, com humor, com sarcasmo. Em uma cena, voltamos para a infância do jovem Alvy, vemos como era a sua relação com os colegas da escola, professores, antigas namoradas, com a família, etc. Ele era um ser deslocado, com dificuldades de se relacionar, mas com uma grande capacidade intelectual e crítica, por isso se torna comediante, para dar um tom de comédia ao drama da vida. Ao final escreve uma peça, com final feliz, a mesma representada pelo filme. 

O filme é repleto de digressões. O próprio Woody Allen, que interpreta Alvy, com frequência comenta o enredo, como se estivesse tentando compreender o que havia se passado. Com isso, a ação é interrompida, Alvy olha para a câmera, quebrando o efeito de realidade do cinema naturalista, se dirigindo ao espectador. Em outros momentos, ele analisa ações do seu passado, que ocorrem no plano da narrativa cinematográfica. Há inclusive um trecho de uma animação na qual Alvy fala da sua atração não pela Branca de Neve dos contos de fadas, mas pela Bruxa. O filme se coloca como uma forma de “terapia”. 

Em outra cena, na fila do cinema para ver um filme do cineasta sueco Ingmar Bergman, o efeito de realidade é quebrado quando alguém passa a analisar os filmes do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) de forma acadêmica, caricata, com conceitos repletos de falácia. Alvy interrompe o homem, passam a discutir, até que o nome do filósofo e teórico da comunicação Marshall McLuhan (1911-1980) é citado como argumento de autoridade. Para mostrar que o interlocutor estaria equivocado, Alvy coloca em cena o próprio Marshall McLuhan. Assim, tem-se uma narrativa não linear, com digressões e diálogos com o espectador. 

O filme é repleto de intertextualidades com referência explícitas e implícitas à cineastas e filmes importantes da história do cinema. No quarto de seu apartamento, Alvy e Annie estão deitados na cama, o enquadramento e a direção de arte são similares a de uma cena do filme “Domicílio Conjugal” (França, 1970) do cineasta francês François Truffaut (1932-1984). Na fila do cinema, Annie e Alvy vão ver filmes do cineasta sueco Ingmar Bergman, acabam ouvindo comentários sobre a obra do cineasta italiano Federico Fellini, como a “A Estrada” (1954), “Julieta dos espíritos” (1965) e sobre “Satyricon” (1969). 

Por fim, o que se tem no filme “Annie Hall”, nas relações amorosas são: encantamento, convívio, alteridade, conflito, identificação, término. No percurso, a passagem, intimidade, um ciclo. A separação é o fim de um ciclo, natural da vida, restando as lembranças. No epílogo do filme, tem-se que o que a memória amou, fica eterno. Annie era uma pessoa fantástica, Alvy ficou muito feliz em tê-la conhecido, e mais, ter convivido com ela. Após um encontro depois da separação, ao acaso em uma café, conversam, depois, cada um segue a vida, mas, agora, na terceira margem do rio. Por fim, as relações entre as pessoas são: irracionais, loucas e absurdas, como diz o próprio Alvy, dando um tom de comédia ao drama da vida demasiada humana.


Fotografia com Cinema com Sebastião Salgado

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No início era a luz, a Fotografia retendo uma cena que era efêmera para as retinas humanas tão fatigadas pelo olhar automatizado do cotidiano. Depois, o Cinema com os seus vinte e quatro fotogramas por minuto, criando a ilusão de movimento. A Fotografia e o Cinema são expressões artísticas que guardam semelhanças: em ambas a luz é um dos elementos mais importantes. No documentário “O Sal da Terra” (Brasil/França, 2015), a vida e a obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado (1944-) são mostradas a partir de depoimentos e fotografias que se mesclam com imagens de expedições nos quatro cantos do Planeta Terra captadas ao longo de alguns anos pelo seu filho Juliano Ribeiro Salgado, que assina a direção juntamente com o cineasta alemão Wim Wenders (1945-). 

Daguerreotipo de 1838
O nascimento (e a história da Fotografia) é marcado pelo duplo movimento de desenvolvimento de tecnologias e mecanismos capazes de reter a luz, propiciando o surgimento e aprimoramento das técnicas que fundamentam a linguagem fotográfica. Como marco cronológico, mesmo sendo um processo, ela nasce em 1826, quando o francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) criou o processo de "heliografia", ou seja, uma “gravura a partir da luz do sol”. Somente em 1837, o também francês Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851) criou um processo de retenção da luz em uma câmara escura com uma placa com componentes químicos sensíveis à luz. A vantagem do Daguerreótipo era a sua economia de tempo e facilitação do processo. 

Sala de exibição do cinematógrafo
O Cinema segue a linha de desenvolvimento da Fotografia, dependendo de uma evolução tecnológica que propicia a captação e reprodução de imagens em uma dada sequência criando a ilusão de movimento. Para efeito de marco cronológico, o Cinema nasce em 1895 com a invenção do cinematógrafo dos irmãos franceses Auguste Marie Louis Nicholas Lumière (1862-1954) e Louis Jean Lumière (1864-1948). A diferença inicial do Cinema para a Fotografia era que, agora, a imagem não era mais estática, com a projeção em sequência de fotogramas, separados por uma pequena faixa preta, cria-se a ilusão de movimento, surgindo um efeito de realidade, pois, além de reproduzir o real de forma efetiva, o Cinema deu movimento para a reprodução. 

Sebastião Salgado
No universo da Fotografia, o brasileiro Sebastião Salgado é uma referência, sendo considerado um dos maiores de todos os tempos ao lado de nomes como Robert Capa (1913-1954), Henry Cartier Bresson (1908-2004), Robert Doisneau (1912-1994), etc. Sebastião Salgado passou a se dedicar a fotografia na década de 1970. Seus projetos fotográficos são conhecidos por retratar a figura humana em uma situação social adversa em meio à pobreza, à miséria e ao caos econômico, político e humanitário como visto nos seus livros de fotografias “Outras Américas” (1986), ou ainda em "Trabalhadores rurais" (1992). Em 2000, lançou a sua mais aclamada obra “Êxodo” e em 2013 foi lançado o seu projeto mais singular “Gênesis”, mostrando o homem e o Planeta Terra no seu estado inicial de harmonia e beleza. 

Wim Wenders e Sebastião Salgado
O filme “O Sal da Terra” é um documentário que mostra a vida e a carreira de Sebastião Salgado: da sua infância no interior de Minas Gerais, passando por sua estadia em Vitória, Espírito Santo, no início da fase adulta, até o seu exílio em Paris, na década de 1970, onde desenvolveu a sua aptidão e habilidades iniciais para a fotografia, finalizando no século XXI, com toda aclamação e reconhecimento por parte da crítica e do público. O filme é co-dirigido por Wim Wenders, um dos maiores e mais importantes cineastas vivos, que além de admirador da obra de Sebastião Salgado, também dá o seu depoimento sobre o fotógrafo brasileiro. O documentário centra-se na figura do homem, do fotógrafo que com a sua sensibilidade com “câmera olho” percorreu o planeta retratando, de forma poética e artística, o homem com fotos tiradas ao longo de mais de trinta anos de carreira. 

Juliano Ribeiro Salgado,
Sebastião Salgado e Wim Wenders
Wim Wenders cria uma narrativa para o material captado e pré-selecionado por parte de Juliano Ribeiro Salgado, que acompanhou o seu pai nas expedições fotográficas mais recentes. A escolha do cineasta alemão é sobrepor o artista com a sua obra, sobrepondo, assim, criador e criatura. Algumas fotos de Sebastião Salgado são analisadas com comentários nos quais o fotógrafo olha para a fotografia, criando um efeito de “marca d’água”, tentando recordar o contexto, a proposta, etc. A formação de Sebastião Salgado na área de economia é destacada, pois seria ela a base da sua visão crítica sobre a sociedade e a relação do homem com o universo do trabalho, bem como a compreensão das dinâmicas sociais, que são a base dos seus projetos artísticos. 

Cena de "Asas do desejo"
Poucos cineastas conseguem criar um diálogo interessante com a fotografia, conseguindo “desenhar com a luz”, como é o caso de Wim Wenders. Seus filmes possuem belas fotografias, como “Paris, Texas” (1984) e, uma das obras máximas do Cinema, “Asas do desejo” (“Der Himmel über Berlin”, 1987). Assim, o cineasta alemão faz um diálogo entre Fotografia e Cinema de forma perfeita. Da união no documentário “O Sal da Terra” entre Sebastião Salgado e Wim Wenders tem-se que, filosoficamente e artisticamente, a fotografia retém o real em uma fração de tempo, já o cinema dá movimento para o tempo retido. Portanto, na busca do tempo perdido ou da passante do poema de Charles Baudelaire, a imagem desenhada pela luz eterniza o efêmero.

Trailer do filme "O Sal da Terra"

O Multiculturalismo e o Cinema Francês

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Diz-se que o pensamento e a cultura francesa são cartesianos, ou seja, possuem o racionalismo como base e a busca de modelos e estruturas como método. Os franceses legaram à sociedade ocidental as bases do pensamento moderno principalmente a partir do Iluminismo no século XVIII com a tentativa de “iluminar a humanidade através da razão”, culminando em um ápice com o Estruturalismo Francês no século XX. No entanto, o pensamento extremamente racional e estruturalista da sociedade tradicional francesa ainda se choca com sistemas complexos, como é o caso da questão da imigração e do multiculturalismo devido à globalização e à dinâmica de migração do final do século XX e início do XXI.

O filme “Que mal eu fiz a Deus” (“Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?”, França, 2014) consegue de uma maneira simples, lúdica, e até mesmo cômica, representar as dificuldades da sociedade tradicional francesa de se adaptar e se relacionar de forma multicultural com outras etnias e culturas. Na produção, Claude e Marie Verneuil são um casal tradicional francês de classe média alta que têm quatro filhas. As três primeiras se casaram com indivíduos que representam um grupo étnico da sociedade francesa: Isabelle se casa com o muçulmano Rachid que é um advogado de origem argelina; Odile se casa com David, um judeu que tenta prosperar com o comércio; e Ségolène se casa com Chao, de origem chinesa.

Como gaullista e estereótipo do francês padrão, Claude e sua esposa ainda possuem a esperança de que a sua última filha solteira, Laure, se case com um homem “típico francês”. Contudo, ela se apaixona e mantém um relacionamento de mais de um ano com Charles, um afrodescendente da Costa do Marfim que estuda teatro na capital francesa. Inicialmente, Laure diz que vai se casar e declara apenas, com receio da reação dos pais, que o noivo é, para a alegria da mãe, católico apostólico romano. Charles também encontra dificuldades para que a sua família aceite o casamento, de modo que seu pai não aceita que seu único filho homem se case com uma francesa caucasiana. Assim, a questão da aceitação é colocada de ambos os lados.

O restante do filme é os preparativos para o casamento de Laure com Charles e a tentativa do pai da noiva e do noivo de sabotarem a cerimônia do matrimônio. O interessante, é que, em paralelo, há a construção da harmonia e amizade entre os genros. O muçulmano Rachid se torna amigo do judeu David (algo que no plano geopolítico é difícil de acontecer) que se tornam amigos do chinês Chao. O três personagens são importantes, pois representam parcelas da sociedade francesa atual e todos eles se adaptam à cultura e fundem não só seus genes com os franceses, mas também a sua cultural com os demais. Chao ajuda David a ganhar um financiamento para a sua linha de comida saudável para muçulmanos, que tem a aceitação de Rachid.

O diálogo, aceitação e fusão da sociedade e da cultura francesa com as culturas dos imigrantes está em processo. Inicialmente, houve um estado de estranhamento e distanciamento, depois inicia-se a aceitação, em seguida a troca e, por último, o estágio de fusão. O processo inicial é evidente em acontecimentos que ficaram conhecidos como “Revoltas dos banlieues (periferia)” nas quais jovens franceses descendentes de imigrantes se revoltavam contra a marginalidade que estavam legados na sociedade francesa. Filmes como “Entre os muros da escola”, ganhador da Palma de Ouro de Cannes em 2008, e “Samba”(2014) representam o difícil diálogo da cultura francesa com os imigrantes.

O Brasil, por exemplo, é um país multicultural com influências, e mesmo base, de três culturas: a indígena, a europeia e a africana. A primeira vez que houve a aceitação e a utilização da três de forma equânime foi na Arte Modernista entorno da Geração Modernista de 22 com a figura do escritor Oswald de Andrade (1890-1954) e do Manifesto Antropofágico (1928). Na Alemanha, o cineasta Fatih Akin (1973-) consegue fazer a fusão da cultura alemã e turca nos seus filmes como “Contra a parede” (2005) e “Do outro lado” (2007). No caso francês, o diretor Philippe de Chauveron (1965-) também conseguiu unir a sociedade francesa no filme “Que mal eu fiz a Deus”, fazendo com que cada nova parcela dela se case com uma das filhas do personagem Claude.

Por fim, o que há na sociedade francesa é um duplo movimento: um de ressalva para a preservação de uma identidade e uma história cultural; e o outro de alteridade, da relação com o outro, com a diferença como parte integrante de um movimento natural e irreversível. Na busca pelo perene, pelo imutável, por modelos e estruturas que durem para sempre, anda-se em círculos, pois há o efêmero, a entropia. Os modelos estruturalistas não conseguem domar o caos e, nas novas organizações, advindas de fusões, renascimentos, gira o comboio de corda a entreter a razão, como declamaria o poeta português Fernando Pessoa. O filme “Que mal eu fiz a Deus” é apenas um entretenimento à razão, uma luz do Cinema.

Trailer do filme “Que mal eu fiz a Deus”



O Cinema Indie com “Frank”

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Uma das perguntas mais difíceis que se pode colocar para alguém é quem ele é. Na maioria das vezes, a resposta surge a partir do verbo “ser” acompanhado da profissão: “sou médico”, “sou professor”, “sou físico”, etc. Assim, o ser é caracterizado pela profissão. No caso da personagem Frank, do filme homônimo inglês dirigido por Lenny Abrahamson, lançado em 2014, ele é músico, mas não um qualquer, faz parte de uma banda excêntrica e usa sempre uma cabeça gigante artificial. Sendo músico, é um artista que possui sensibilidade, loucura e criatividade, fazendo com que não se encaixe nos padrões sociais vigentes, com condutas diagnosticadas como loucas, insanas e anti-sociais.

O filme “Frank” não se incia com a personagem homônima principal, mas, sim, com Jon, um músico com um emprego fixo e burocrático em uma empresa. Ele tenta ter inspirações com coisas do cotidiano para compor músicas: uma criança construindo castelos de areia na praia, uma mulher com um bebê, uma moça com um casaco vermelho, outra com um azul, ou ainda o cartaz de uma banda que tocará na cidade, tudo pode se transforma em versos de uma canção. Em sua casa, tenta criar uma melodia com os versos, usando apenas três acordes. Utiliza um programa de computador e o seu teclado para compor, sem êxito. No twitter (@jonburroughs), escreve para quatorze seguidores: “trabalhando duro o dia todo em uma canção, agora, jantar”.

Jon tem a sua rotina quebrada quando presencia um homem tentando se afogar, na verdade o tecladista chamado Lucas da banda de Frank, conhecida como “The Soronprfbs”. A banda precisa de um novo tecladista, Jon se prontifica para assumir o posto. Ao chegar na apresentação, nota que a banda não é convencional, a começar pelos instrumentistas: Clara no Teremim, Nana na bateria, Baraque na guitarra e Frank nos vocais. A banda é inusitada não apenas pela cabeça gigante e artificial de seu vocalista e líder, mas também pelos músicos, que não tocam uma música tonal, em harmonia, em um único ritmo; mas, sim, uma música serial com cada instrumento em um tom. Jon é o novato, tenta improvisar, achar a nota certa.

O restante do filme é os músicos em uma casa à beira de um lago no interior da Irlanda. Querem compor um disco, o isolamento social e a união entre eles é a base, como ocorreu com os Rolling Stones, New Order e Happy Mondays. No entanto, Jon relata a rotina da banda no Twitter, saindo de quatorze para 25.790 seguidores, ou com vídeos no youtube. Os vídeos da excêntrica banda se tornam virais na rede. Recebem o convite para tocar no famoso festival de música Indie chamado SXSW na cidade de Austin, no Texas. Os músicos agem como deslocados, avessos ao sucesso, com exceção de Jon, que quer se tornar um músico famoso. No entanto, a banda é um catalizador social, um elemento agregador, não possui qualidades musicais para a indústria musical.

O filme “Frank” faz parte da linha de produções independentes (indie), conhecidas como “cinema indie”, com produções de baixo orçamento que trabalham a narrativa tendo personagens “deslocados” socialmente, caracterizados por patologia/esquisitices como acontece em filmes como “Pequena Miss sunshine” (EUA, 2006), dirigido pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris; “O Futuro” (EUA, 2013) de Miranda July; ou ainda “Tudo Acontece em Nova York” (EUA, 2012) dos diretores Ruben Amar e Lola Bessis. São, na maioria das vezes, personagens problemáticos do ponto de vista social, que não se encaixam ou tem dificuldades de se enquadrarem em uma classe social ou mesmo de agir segundo o padrão social de comportamento ditado.

O interessante que este tipo de roteiro acaba fundindo dois gêneros difíceis de serem conciliados: a comédia e o drama. Pelo fato de possuir personagens deslocados socialmente, pode-se provocar situações inusitadas, devido à inaptidão nas relações sociais ordinárias, cotidianas, o que gera elementos de humor, como a situação de Frank que acaba tendo problemas por não conseguir fazer coisas banais como escovar os dentes. No riso, há o distanciamento, pois o espectador não se identifica com a personagem e, por isso, ri dela. Mas, logo em seguida, tem-se a causa do porque Frank usa a cabeça, criando também pontos dramáticos, o que cria uma empatia, ou seja, uma aproximação da personagem com o espectador, criando, deste modo, as bases do drama.

Na história da música pop há exemplos de músicos que não conseguiram lidar com a fama ou com determinados comportamentos sociais, como é o caso de Jim Morrison, Syd Barrett, Brian Wilson, Arnaldo Baptista, Ian Curtis e Kurt Cobain. Frank segue esta linha, sendo uma síntese de todos estes. No filme, o remédio de Frank é compor para ser a sua cura da sociedade doente. A música é a sua melhor amiga (como declama Jim Morrison) responsável pela união entre seus pares, iguais: loucos na sua balada. No fim, Jon percebe que não seria possível fazer os músicos da banda “The Soronprfbs” se adaptarem a uma sociedade doente, que o diga Syd Barrett: “Shine on, you crazy diamond/You were caught in the crossfire/Of childhood and stardom”.

Trailer do filme



Pier Paolo “Pasolini”

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Pier Paolo Pasolini é um dos maiores gênios do séculos XX. Nasceu em Bolonha, Itália, em 1922, e morreu na cidade costeira, próxima a Roma, de Óstia em 1975. Sua atuação intelectual e artística encontra eco e importância dentro da poesia, do teatro, do romance, de ensaios de cunho literário, filosófico e político; e, principalmente, dentro do Cinema, com filmes como “Accattone-Desajuste Social” (1961), “Gaviões e Passarinhos” (1966), “Teorema” (1968), e o mais conhecido e impactante: “Saló ou 120 dias de Sodoma” (1975). Em 2014, o cineasta estadunidense Abel Ferrara (1951-) realizou a produção “Pasolini” sobre as últimas horas da vida de Pier Paolo até o seu brutal e misterioso assassinato no dia 02 de novembro de 1975. 

Em “Pasolini”, o diretor Abel Ferrara escolheu o ator estadunidense Willem Dafoe para dar forma à personagem de Pier Paolo. O filme se incia com uma entrevista de Pasolini em francês comentando o lançamento do filme “Saló ou 120 dias de Sodoma”, há a mescla de imagens da produção de 1975 com questões de cunho político, cinematográfico e relacionadas à estética, a frase “Quem se recusa a se escandalizar é um moralista” é colocada como resposta. Já em Roma, a rotina do último dia de Pasolini é mostrada: a vida particular na relação com a sua mãe, com amigos, com um jornalista que o entrevista. Seu processo criativo é mostrado, seja escrevendo roteiros ou narrativas em sua máquina de escrever ou no diálogo com entes queridos. 

Mas, é noite, na sua última noite, Pier Paolo vai ao seu restaurante favorito e, por fim, decidi ir à região do meretrício romana em busca de um “ragazzo di vita” (garoto de programa). Pasolini era homossexual e gostava de se relacionar de forma perigosa e autodestrutiva com garotos de programa. Após escolher um, decidi ir à cidade de Óstia. Ao ter relações sexuais na praia, é atacado por um grupo de rapazes que o espancam e, consequentemente, o matam de forma brutal. Durante anos, o assassinato de Pier Paolo foi uma incógnita, alguns proclamavam que foi político, pois ele era um grande crítico de valores de grande parcela da sociedade italiana, outros acreditavam em crime homofóbico, mesma versão mostrada por Abel Ferrara. 

O filme de Abel Ferrara é simples, intimista. Tem-se recorrentemente planos cinematográficos fechados, centrados em Pasolini mostrando o seu cotidiano como filho, escritor e cineasta com o seu processo criativo e as suas obrigações como artista. Há a fusão de imagens da produção “Saló”. Algumas partes o trabalho de escrita de Pier Paolo ganha forma no filme de Ferrara em uma interessante relação sobre imagem e palavra no qual há uma narrativa que também dá corpo a uma narrativa literária com a história de um pai com o seu filho que vão, em pleno século XX, atrás da estrela de Belém que estaria anunciando a chegada do messias. Assim, há a narrativa biográfica como também a adaptação de uma narrativa literária escrita por Pasolini. 

"Gaviões e Passarinhos"
Pier Paolo Pasolini é conhecido por fazer um “Cinema político” com críticas e ataques às instituições sociais, representadas pelos poderes econômicos, políticos e religiosos. Sua luta foi contra o conservadorismo e a moral burguesa italiana. A postura marxista de Pasolini foi além da sua filiação ao Partido Comunista Italiano, está presente nos seu filme “Teorema” que ataca a ideologia, a futilidade e a alienação burguesa. No filme “Gaviões e passarinhos”, o cineasta filma com o comediante italiano Totò (1898-1967) uma fábula alegórica da luta de classes, na qual um corvo marxista acompanha um pai e um filho em uma estrada, apresentando de forma simplificada conceitos relacionados à análise e crítica da sociedade burguesa. 

"Saló ou 120 dias de Sodoma"
Pier Paolo Pasolini utiliza-se da alegoria no seu filme mais conhecido e polêmico: “Saló”. A história se passam em 1944 na Itália onde um grupo de quatro senhores, cada um representando uma parcela do poder da sociedade italiana: um presidente de um banco, que representa o poder econômico; um bispo, representando a igreja; um duque, que representa a nobreza e um juiz, que representa o poder judiciário. Eles selecionam um grupo de jovens para serem objetos de tortura e sadismo durantes cento e vinte dias. O filme é dividido em três partes, chamadas de “círculo”: “Círculo das manias” com a satisfação dos desejos sexuais; “Círculo das fezes” com cenas de escatologia, e o “Círculo de sangue” centrado em punições e castigos sádicos. 

Pier Paolo Pasolini
Pasolini é uma figura controversa, amado por uns, odiado e repugnado por outros. Enquanto artista, é um dos mais importantes do século XX, sendo um dos grandes cineastas do seu tempo com filmes importantes para a história do cinema, com os quais o seu nome é propagado para além da cultura italiana influenciando cineastas como Bernardo Bertolucci, Julio Bressane e Abel Ferrara, que dirigiu, prestando homenagens, o filme “Pasolini”, retratando a vida, a morte do homem, do artista. A proposta estética e política de Pier Paolo Pasolini era escandalizar para atacar a moral, utilizando o corpo, a nudez, o sexo, demonstrando o grotesco como forma de denúncia e reflexão. No seu cinema, do desgosto, do mal-estar, surgem a reflexão.



Trailer do filme "Pasolini"


A Televisão Pode Ser Melhor Do Que o Cinema

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O título do texto pode parecer estranho, soberbo e, até mesmo, infundado se ele não for contextualizado. Os programas televisivos não são considerados uma forma de expressão artística (sem entrar no mérito da questão da linguagem, da estética, etc.), como também o cinema comercial produzido pela grande indústria hollywoodiana ainda não o pode ser, já que também é um produto de entretenimento. O cinema hollywoodiano está estagnado, sem criatividade, refém, atualmente, de dois tipos de produções: filmes pertencentes ao gênero romance-drama para adolescentes-adultos; e/ou às produções de super-heróis, principalmente do Universo da Marvel Comics. Por seu turno, a produção televisiva, representada por seriados, está no seu ápice criativo. 

Um dos objetivos de um produto é ser vendido, ser consumido por uma grande quantidade de pessoas. Dentro da cultura de massas, algumas linguagens artísticas são apropriadas pela indústria cultural, tornando-se meros produtos de consumo, momentâneos, rápidos, ou seja, passageiros. O cinema é um produto no contexto da cultura de massas. Dentro da indústria hollywoodiana, por exemplo, o objetivo do produto é ser vendido, conseguir a maior bilheteria possível para que o retorno financeiro dos produtores executivos, ou das grandes produtoras, seja um fato concreto representado pela a arrecadação da bilheteria. Assim, o sucesso de uma produção é medido pelo retorno financeiro conseguido ao longo do período em cartaz nos cinemas. 

Vale ressaltar que as produções da indústria cinematográfica passam predominantemente em salas de exibição em shoppings centers, templos da sociedade de consumo, onde o indivíduo pode consumir outros produtos manufaturados e produzidos em massa como combos de pipocas com refrigerantes, balas e doces, para que todos, deste modo, possam pertencer à sociedade de consumo. Mas, para que isso ocorra, é preciso também “consumir” cultura. O shopping com as suas escadas ascendentes e descendentes, com lojas de diversos produtos, os manequins são a imagem e semelhança do observador. Neste lugar, o cinema é uma ilusão, uma alienação, uma propaganda ideológica, um mero produto. 

A televisão é também um elemento da cultura de massas, os seus produtos são, na sua grande maioria, ruins, sem qualidade técnica, sem conteúdo. No entanto, a televisão está mudando. Na era digital, ela não é mais uma caixa quadrada que recebe sinais analógicos VHF (onda de alta frequência) e/ou UHV (ondas de ultra alta frequência) com conteúdos repetitivos, engessados de emissoras que são reféns de anúncios publicitários. Agora, além de ser digital, é ainda a cabo, com fibra ótica. As televisões são retangulares com polegadas que podem ocupar paredes de salas residenciais inteiras. Possuem conexão com a internet, as chamadas Smart TVs, com acessórios de sistema de som de alta qualidade 

A revolução da televisão se iniciou na Era da TV a Cabo e se expandiu na Era Digital com conteúdos segmentados, mas de alta qualidade. O programas televisivos são produzidos a partir de segmentações de conteúdos desde faixa etárias, à gêneros e temas, tais como comida, viagem, desenhos animados, documentários, filmes e seriados televisivos. A televisão está melhor do que o cinema hollywoodiano se comparada com a produção de seriados televisivos no qual, diferentemente da grande indústria, impera o novo, a criatividade, o produto com qualidade. Atualmente, os melhores profissionais da indústria cultural do audiovisual estão escrevendo, produzindo, filmando, atuando em seriados televisivos. 

As maiores mentes criadoras, que são responsáveis por criar produtos de qualidade, são nomes como J. J. Abrams (1966-) com séries como “Lost” (2004-2010) e “Fringe” (2008-2013); Vince Gilligan (1967-) com as produções “Breaking bad” (2008-2013) e “Better Call Saul” (2015-), que teve os seus primeiros episódios exibidos no tradicional Festival de Cinema de Berlim em fevereiro de 2015; Beau Willimon (1977-) com a sua criação “House of cards” (2013-); e Matthew Weiner (1965-) que se destacou como roteirista da série “Família Soprano” (1999-2007) e criou uma das obras máximas da televisão “Mad Men” (2007-2015). Inclusive a comissão de frente do cinema hollywoodiano, os atores, está migrando para a televisão. 

Assim, é preciso atar as duas pontas, mas não sendo louco ou casmurro; a Televisão é melhor do que o cinema hollywoodiano. Seriados televisivos possuem mais qualidade do que grandes produções para adolescente-adultos que misturam romance com drama ou em relação à produções baseadas em super-heróis, principalmente, os da Editora Marvel. Até mesmo os personagens do universo Marvel utilizados em seriados são melhores, como é o caso da produção “Demolidor” do canal Netflix. Por fim, a indústria cultural é um grande hipermercado, com produtos separados por setores, áreas, corredores. Todavia, mesmo os produtos enlatados possuem qualidades diferentes, pois podem usar ingredientes, técnicas, embalagens, de pior ou melhor qualidade.

O Fio de Ariane

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O Cinema é uma Arte que caminha entre a transparência e a opacidade. Mesmo sendo uma expressão artística com bases realistas, que cria um efeito de real na sua representação da realidade devido à imagem em movimento, ele também pode representá-la de forma opaca, por vezes questionando-a em maior ou menor grau. No filme francês “O fio de Ariane” (Au Fil d’Ariane, 2014), o diretor Robert Guédiguian (1953-) realiza uma obra que caminha, pela primeira vez em sua filmografia, em direção a uma narrativa fantástica com elementos que destoam dos seus filmes com tom realistas e políticos como “A cidade está tranquila” (La ville est tranquille, 2000) ou mesmo “As neves do Kilimanjaro” (Les Neiges du Kilimandjaro, 2011). 

Ariane decidiu que ela própria iria fazer o bolo do seu aniversário. Era uma data especial, completar anos não é apenas somar os dias, mas também celebrá-los, mesmo que seja em uma única data. Com o bolo pronto, a decoração posta, Ariane espera os seus entes queridos: marido, filha, amigos, etc. Um a um ligam alegando que não poderão comparecer à celebração, pois podem estar viajando, “presos no trabalho”, ou mesmo com outras tarefas. Desolada, Ariane desenrola o seu o fio, sai da sua casa suburbana rumo à cidade francesa de Marselha. Parada em uma ponte, esperando a travessia do barco, ela encontra o seu guia: Raphael, um jovem motoqueiro que a leva para o pequeno restaurante “Café l’Olympique”, onde encontra diversos personagens exóticos. 

O “Café l’Olympique” parece ser um local humilde e ao mesmo tempo idílico, onde personagens se relacionam de forma simples e direta, tendo a resolução dos seus conflitos como algo possível. Marcial é de origem africana e trabalhou por trinta anos como segurança do museu de história natural, deseja “libertar” os animais empalhados; Raphael é o jovem guia que ama Lola, uma bela ruiva que se prostitui, por prazer, e se assemelha à figura de Vênus, pintada por Botticelli; o solitário dono do café Denis admira o escritor Jacques, que passa os dias no estabelecimento escrevendo e observando os clientes para ter inspiração. Há ainda uma tartaruga que dialoga e dá conselhos para Ariane. 

No filme “O fio de Ariane”, o título remete à narrativa mítica grega do labirinto do Minotauro. Astérion era filho de Pasífa, esposa do rei Minos, com o Touro de Creta. Possuía como forma um corpo humano e cabeça de touro, ficando conhecido como Minotauro. O rei Minos manda que o arquiteto Dádalo, pai de Ícaro, construa um labirinto para poder abrigar Astérion. Após um conflito com a cidade de Atenas, o rei de Creta ordena que, anualmente, sete rapazes e sete moças atenienses sejam devorados no labirinto. O herói ateniense Teseu se voluntaria para ser sacrificado com o intuito de combater o Minotauro. A filha de Minos, Ariadne, se apaixona por Teseu e lhe concede um novelo de linha que lhe indicará o caminho da saída do labirinto. 

O nome da personagem principal de “O fio de Ariane” é também o da atriz Ariane Ascaride que é casada com o diretor Guédiguian. O cineasta possui como característica o hábito de realizar os seus filmes com a mesma equipe e com atores recorrentes, de modo que Ariane é protagonista de diversos outros filmes do diretor, assim como a cidade de Marselha. Se Nova Iorque é a paisagem de Woody Allen; Roma é a de Fellini; Bruxelas é a dos Irmãos Dardenne; Berlim é a de Wim Wenders, Marselha é o espaço principal de conflitos, contradições, lutas, amores e aventuras nos filmes de Robert. Ela é a mais antiga cidade francesa com ocupação ininterrupta, sendo fundada pelos gregos no século VII a.C, estando situado na região da Provença no mar Mediterrâneo. 

O cinema de Robert Guédiguian se associava a uma proposta realista e de um cinema engajado politicamente e socialmente. No filme “A cidade está tranquila” é trabalhado como as políticas neoliberais da década de 1990 provocou em Marselha o desemprego, a miséria econômica e social, assim como no filme espanhol “Segunda-feira ao sol” de Fernando León de Aranoa. Com o filme “As neves do Kilimanjaro”, o diretor ressalta como a crise econômica pode levar os indivíduos a cometerem ações criminosas. Novamente, a causa dos problemas sociais é material, é econômica. Nos seus filmes anteriores, as personagens representam e/ou agem segundo uma coletividade, o que não ocorre em o “O fio de Ariane”, no qual o desejo individual se sobressai sobre o coletivo. 
No filme de Guédiguian, Ariane “desenrola o novelo”, seu fio se estende por Marselha, nas relações com personagens diversas. Mas, assim como no mito, ela volta para casa. Sua viagem onírica foi circular, termina onde começou: na sua casa, com a chegada dos familiares e amigos. O tempo é de comemoração, o bolo está pronto e a decoração posta. As velas, que acendera no bolo, ainda estão incandescentes. O seu fio teceu acontecimentos entre o real e o fantástico, seja no diálogo com a tartaruga ou mesmo com a fuga da realidade, devido a breve solidão. Em “O fio de Ariane”, o fio é a ligação, o elo, a busca pelo contato humano, pois no tempo em que se festejam o dia dos anos, a alegria de todos estava certa com uma religião qualquer.

Trailer do filme