Os Rolling Stones no Cinema

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O cinema nasce “mudo”, a música nasce sem a imagem. A união entre música e cinema é uma das mais produtivas dentro da indústria cultural. Músicos e bandas passaram a atuar em filmes para divulgar as suas canções e sedimentar suas imagens para um púbico cada vez mais amplo, como ocorreu, por exemplo, com cantores como Elvis Presley (1935-1977) ou mesmo David Bowie (1947-2016), e bandas como The Beatles, The Who, além dos Rolling Stones. A banda inglesa formada por Mick Jagger e Keith Richards trabalhou com importantes cineastas como Jean-Luc Godard, os irmãos Albert e David Maysle, Michael Lindsay-Hogg e Martin Scorsese, produzindo documentários ou mesmo registros de shows do grupo. 

Jean-Luc Godard, o maior nome, ao lado de François Truffaut, do movimento cinematográfico francês da Nouvelle Vague (nova onda), vai a Londres em 1968 para fazer um documentário sobre os Rolling Stones. Godard entende a natureza do jogo, faz um filme que documenta o processo de gravação da canção ‘Sympathy for the Devil” entre os dias 04 a 10 de junho. No entanto, faz um filme experimental, político com alusão ao marxismo, aos Panteras Negras e à vários conceitos filosóficos e literários. O documentário recebeu o título de ‘Sympathy For The Devil - One Plus One’, sendo um importante documento histórico das agitações políticas e culturais pós maio de 1968. 

No final de 1968, os Rolling Stones tiveram a ideia de filmar, em um circo, uma apresentação ao vivo das músicas do recente disco lançado “Beggar's Banquet”. O picadeiro foi montado, incluíram a participação de outros músicos e bandas como Jethro Tull (com o guitarrista Tommy Iommi), The Who, Taj Mahal, Marianne Faithfull, e a banda mais inusitada e efêmera The Dirty Mac, formada por John Lennon, Eric Clapton, Keith Richards e Mitch Mitchell. A direção foi feita pelo cineasta nova-iorquino Michael Lindsay-Hogg, que ainda dirigiria o documentário “Let it be”, dos Beatles, em 1969; além de diversos “vídeos promocionais” (uma espécie de “proto-videoclipe”) das duas maiores bandas inglesas de rock. 

Em 1969, os Rolling Stones fazem uma grande turnê pelos Estados Unidos, queriam encerrá-la de forma grandiosa, com uma apresentação gratuita em um espaço aberto, como ocorrera meses antes na famosa apresentação da banda no Hyde Park, em Londres. O local escolhido para o show foi o Golden Gate Park, em San Francisco, mas a apresentação foi transferida para Altamont. O show é filmado pelos cineastas Albert e David Maysles seguindo a proposta do “cinema direto”, mostrando inclusive um jovem negro sendo assassinado pelo grupo de motociclistas Hell's Angels. O filme foi lançado como o nome de “Gimme Shelter”, sendo exibido no Festival de Cinema de Cannes em 1971. 

Martin Scorsese é um dos maiores diretores de cinema dos Estados Unidos, dirigiu os filmes “Alice não mora mais aqui” (1974), “Taxi driver” (1976) e “Touro indomável” (1980); além dos documentários “No direction home: Bob Dylan” (2005) e “George Harrison: Living in the material world” (2011). Em 2008, dirigiu o documentário “Shine a Light” sobre a apresentação da turnê “A Bigger Bang Tour” (2005-2007) dos Rolling Stones. Scorsese filmou duas apresentações da banda no Beacon Theater, em Nova York, em 2006, com todo um aparato de filmagem para obter não apenas um mero registro de uma apresentação ao vivo, mas, sim, um produto final com qualidade cinematográfica. 

Pareceria “lorota” de caipira, mas não, Mick Jagger e Keith Richards visitaram Araraquara e se hospedaram por cerca de quinze dias em uma fazenda, então propriedade do banqueiro Walther Moreira Salles, na cidade de Matão, no interior de São Paulo, em janeiro de 1969. A passagem dos dois integrantes dos Rolling Stones foi tema do documentário "Aliens 69 - Quando os Rolling Stones Invadiram Matão" (2013), um bom trabalho de conclusão do curso de Jornalismo feito por alunos da UNIARA (Centro Universitário de Araraquara). Depoimentos de pessoas que tiveram contato com a dupla, como um sanfoneiro, o caseiro, a vizinha, relatam a experiência e histórias. 

No documentário “The Stones in the Park” (1969), sobre o famoso show ao ar livre no Hyde Park, em Londres, Mick Jagger afirma que “os Beatles gostam de compor e gravar discos enquanto os Rolling Stones preferem fazer shows”. Não é a única diferença entre as bandas, enquanto o quarteto de Liverpool realizou filmes ficcionais-musicais como “A Hard Day's Night” (1964), “Help” (1965) e “Magical Mystery Tour” (1967), os Stones preferiam documentários e registros das apresentações ao vivo da banda, trabalhando com grandes cineastas como Jean-Luc Godard, os irmãos Albert e David Maysle, Michael Lindsay-Hogg e Martin Scorsese. Isso é apenas rock’n’roll, mas o cinema adora.

Trailer Godard-Stones 'Sympathy For The Devil'


Nina Simone: entre a música e o ativismo

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Palmas, o público aplaude de pé, é ovacionada, seu nome é anunciado. Ela entra no palco, está vestindo um vestido negro, saúda os presentes, está com o olhar atônito, se senta defronte ao piano, dedilha algumas notas, diz que começará do início, com uma garotinha chamada “Blue”. Outrora fora Eunice Kathleen Waymon, nascida em 1933 na cidade Tryon no estado da Carolina do Norte, EUA; agora é mundialmente conhecida como Nina Simone, nome artístico adotado em 1953 quando decide tocar e cantar músicas de blues e jazz na cidade de Atlantic City. No documentário "What Happened, Miss Simone?" (EUA, 2015), dirigido por Liz Garbus, lançado mundialmente no Festival de Cinema de Sundance, tem-se todas as facetas da artista: cantora, mãe, ativista e mulher.

Com imagens da apresentação de Nina Simone, o documentário volta-se para o ano de 1968. Há uma entrevista com um jornalista, que pergunta para a cantora, envolta e engajada na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, o que é “liberdade”. Nina responde que liberdade é não ter medo. No entanto, ela conviveu com o medo, com a segregação racial. Na infância começou os seus estudos em piano clássico, teve duas idosas brancas como professoras, todavia, para chegar às aulas percorria uma linha de trem que separava a cidade, segregando-a entre brancos e negros. Era um prodígio no piano, no início da fase adulta tenta ser aceita no Instituto Curtis, na Filadélfia, é rejeitada não pela sua habilidade, mas pela cor da sua pele.

Com um fundo que juntara para a sua educação musical, iniciou os estudos na conceituada escola de Juilliard, em Nova Iorque. Quando era criança tocava piano na igreja, depois com os estudos musicais sentia o isolamento, estudava horas por dia. Com o fim do fundo, teve que tocar em bares noturnos para sobreviver, deixando a música clássica e a gospel, executando canções de blues e jazz. Para que a mãe não descobrisse que estava “tocando música do Diabo”, aquela baseada no trítono e na escala pentatônica, adota o nome de Nina Simone. Se destaca, pois, segundo o documentário, a profundidade e escuridão das apresentações colocava para fora o que a cantora tinha na alma, chegando diretamente ao espectador. 

Nina Simone ganha destaque em 1960 quando se apresenta no Newport Jazz Festival, sua carreira passa a ser gerida pelo marido Andy, com quem se casa em 1961, que impõe à cantora uma conduta e um modelo de negócios, culminando no ápice com a apresentação no Carnegie Hall, sendo a primeira mulher negra a tocar na tradicional casa de shows nova-iorquina. A vida familiar passa a ser opressora, Nina é espancada com frequência pelo autoritário marido, sofre violência de diversos tipos. Segundo o documentário, se sentia deprimida, tendo poucos momentos de felicidades, um deles é o nascimento da filha Lisa Simone Kelly

A carreira, a consciência musical e política de Nina Simone mudam a partir de 1963, quando entra em sintonia com as manifestações contra a segregação racial e a favor dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Compõe a canção “Mississippi Goddam”, aludindo ao atentado feito pelos membros da ku klux klan que explodem uma bomba em igreja batista de Birmingham, Alabama, matando diversas crianças. O documentário mostra a transformação na carreira e na vida da cantora quando ela passa a se engajar, participando de protestos como a “marcha de Selma a Montgomery”, em 1965, ou mesmo o contato com Martin Luther King e Malcolm X

Nina Simone escolhe refletir o seu tempo, as situações em que se encontra pessoalmente e socialmente. Se questiona como ser artista e não refletir a sua época, como na composição “Ain't Got No/i Got Life”. Apoia a ação violenta, como proposta pelos Panteras Negras, prega a revolta, cenas de discursos da cantora são mostrados no documentário, paga um preço pelo engajamento, sendo rejeitada pela indústria musical. Se Martin Luther King tinha a paixão e poesia nas palavras, Malcolm X uma excelente oratória, Nina Simone tinha a sua música, a sua alma e o seu talento musical, contribuindo, assim, para a luta histórica pelo fim da segregação racial nos Estados Unidos. 

Assistir ao documentário "What Happened, Miss Simone?" não é apenas ter contato com a vida e a carreira de Nina Simone, é entrar em contato também com parte da história dos Estados Unidos, com acontecimentos importantes da segunda metade do século XX. A luta pelos direitos civis dos afrodescendentes, fatos marcantes como o atentado em Birmingham, a “Marcha de Selma”, os assassinatos de Martin Luther King e Malcolm X são mostrados. A vida de Nina Simone na sua esfera particular e musical é mostrada. Alguns pontos são polêmicos, como a relação com o marido, que ganha muita voz no documentário; outros inspiradores como o engajamento da cantora, refletido em composições atemporais: “I've got life/ I've got my freedom/I've got the life”.

Trailer do filme




Um filme como ‘Novíssimo Testamento’

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Deus está morto” ("Gott ist tot"), contrariando o famoso trecho do livro “Assim falou Zaratustra” (1883), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche; Deus está vivo, mora em Bruxelas, capital da Bélgica, com a esposa e a filha Ea em um apartamento pequeno de três quartos mais dependências, como mostrado no filme ‘O novíssimo testamento’ (Le Tout Nouveau Testament, 2016), dirigido pelo cineasta belga Jaco van Dormael. A produção é uma comédia que dialoga com o universo bíblico propondo uma narrativa que recria um “novíssimo testamento”, já que o irmão mais velho de Ea, chamado de JC (Jesus Cristo), foi o centro do “novo testamento’. 

“O novíssimo testamento” se inicia com uma voz off, a narradora afirma que “Deus existe, ele mora em Bruxelas”, que é seu pai. Em seguida há imagem do quadro a “Santa ceia”, de Leonardo Da Vinci, com dezoito apóstolos, os doze do “novo testamento”, mais os seis que participarão da escrita do “novíssimo testamento”. O enredo se desenvolve tendo a jovem Ea como centro, seus conflitos domésticos com o pai autoritário e controlador. Após uma briga, resolve ir para o “mundo dos humanos”, onde encontrará seis pessoas para serem seus apóstolos para escrever o “novíssimo testamento”. Mas, antes, resolve entrar no computador do pai, fonte da sua onisciência e onipotência, envia para todos os humanos as datas das suas respectivas mortes. 

Inicia-se o “Êxodo”, após conversar com a estátua do irmão, Ea resolve fugir, entra na lavadora de roupas, rasteja por um túnel, chegando em Bruxelas, encontra Victor, um mendigo que será o responsável por escrever as palavras, histórias dos seis “novíssimos” apóstolos. A filha não concorda com a postura autoritária do pai, para ela, o patriarca da família procura algo para relaxar, esquecer dos problemas, teve a ideia de criar a humanidade, antes tentara povoar o mundo com galinhas, tigres, até mesmo avestruz, então resolve criar o homem a sua imagem e semelhança, criando Adão, depois Eva, que povoam o mundo, como mostrado no “Gênesis”.

Em Bruxelas, Ea inicia a sua jornada para encontrar os seis apóstolos. O primeiro evangelho é segundo Aurélie, uma moça solitária que perde o braço esquerdo em um acidente no metrô. Sua música interna é do compositor Handel. No segundo evangelho é de Jean-Claude, mas ele não estava em casa, ao saber da data da sua morte, resolve permanecer sentado em um banco do parque. Pensa ter gastado suas horas com um trabalho horrível com horas ruins. Sua música é de Rameau. Ao ser questionado por um pássaro do porque está no banco se pode caminhar, resolve voltar a ser um viajante. Nesse momento, Deus desce à terra, está entre os homens, é atacado por neonazistas, vai ao hospital cuidar dos ferimentos. 

O terceiro evangelho é segundo “o maníaco sexual”. Marc é um homem de meia idade, ao saber da data e da iminência da sua morte, resolve tirar todo o dinheiro da poupança para gastar com sexo. Ele está em uma cabine de strip-tease quando é encontrado por Ea e Victor. Se apaixonara na infância pela filha do: alemão, da cabelereira, do padeiro, da vizinha. No entanto, é muito tímido com as mulheres. Sua música é de Purrol. Deus vai a uma igreja que atende refugiados, fala que é Deus, apanha, é agredido por um clérigo. O quarto evangelho é segundo “o assassino”. François que ser a “mão do destino”, amava a morte, funerais, atira em Aurélie, a bala atravessa o braço de silicone, não era hora ainda da sua morte. Se apaixonam. Sua música é de Schubert. 

O quinto evangelho é segundo Martine, interpretada por Catherine Deneuve, uma mulher de terceira idade descontente com a vida e com o casamento. Além de fazer compras, se relaciona com jovens garotos de programa. Vai a um circo, sua música é circense, se apaixona por um gorila, larga do marido para ficar com o primata. Deus volta à lavanderia, tenta voltar por alguma máquina de lavar roupas, não consegue, acha a filha, ela caminha sobre as águas para escapar do pai, ele, ao tentar o mesmo, se afunda, se afoga. No sexto, e último evangelho, é segundo Willy, um garoto de aproximadamente dez anos que tem poucas semanas de vida. Tem saúde frágil, seu último desejo é ir à escola vestido de mulher, vai de vestido longo, vermelho. Sua música é de Charles Trenet. Ea o encontra, faz o milagre da multiplicação dos pães de presunto. 

Por fim, há os cânticos, todos os outros cinco apóstolos, mais Ea e Victor, acompanham Willy à praia, local onde quer morrer. Deus é confundido com um imigrante, é deportado para o Uzbequistão. Em “O novíssimo testamento” Deus parece ter sido criado a partir da letra da música “Partido alto”, de Chico Buarque: “Deus é um cara gozador, adora brincadeira”. No filme, ele se diverte criando leis esdrúxulas como: “a fatia de pão com geleia sempre cai com a geleia para baixo”, “o telefone sempre toca quando se entra na banheira”, “a fila do lado, no supermercado, sempre anda mais rápido”, “se apaixonará sempre pela pessoa errada”. Ao final do filme, Deus está trabalhando em uma linha de montagem fabricando máquinas de lavar roupas no Uzbequistão. Assim, “o novíssimo testamento” foi escrito pelos, segundo os homens, com histórias demasiadas humanas, sendo mostrado em um filme.

Trailer



Greta Gerwig: a atriz símbolo do cinema independente

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Provavelmente, quando cresceu, um cineasta torto do cinema independente estadunidense, desses que vivem na sombra da indústria cinematográfica, conhecidos como Mumblecore, disse: Vai, Greta! Ser atriz gauche na vida. Greta Gerwig é uma atriz e roteirista de cinema, nasceu em 1983 na cidade de Sacramento, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Estudou Inglês e Filosofia na Universidade de Columbia na cidade de Nova Iorque. Ainda na faculdade, recebeu o convite para a sua primeira atuação no cinema, em 2006, na produção “LOL”, do jovem diretor Joe Swanberg (1981-). Em seguida, Greta trabalha com os principais diretores do cinema independente estadunidense, tais como Jay Duplass e Mark Duplass, Mary Bronstein e, o principal, Noah Baumbach

Alguns estudiosos do cinema consideram o Dogma 95 como o último grande movimento de relevância e impacto dentro da história do cinema. Cineastas consagrados como os dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterberg criaram um manifesto em 1995, prescrevendo como deveria ser a produção cinematográfica com os seus “votos de castidade”, contendo dez regras, com o objetivo de realizar um cinema mais realista e menos comercial. No início dos anos 2.000, um grupo de jovens cineastas estadunidenses, mais pelo contexto de produção do que por uma proposta estética elaborada premeditadamente, cria o movimento “Mumblecore”, ou em tradução livre, “geração do resmungo”. 

A geração do Mumblecore foi caracterizada por ser constituída de jovens cineastas, que realizavam filmes de baixo orçamento. As produções são realistas, usam locações caseiras, luz ambiente. Os roteiros abordam temas ligados ao cotidiano de uma geração pós-adolescente, que evoluiu muito rápido de videogames de 8, 16, 32, 64, ad infinitum, bits, além de acompanharem o advento do domínio da internet na intermediação das relações humanas. As personagens estão em crise constante devido à relacionamentos amorosos fracassados, ou mesmo emprego ou rotina monótonos. Os filmes se destacam pela importância atribuída aos diálogos e às referências à vida cotidiana, ordinária. 

Se Anna Karina (1940-) é a atriz símbolo da Nouvelle vague francesa na década de 1960, trabalhando nos principais filmes do cineasta Jean-Luc Godard (1930-), tais como “Uma mulher é uma mulher” (Une femme est une femme, 1961), “Vivre sa vie (1962), “Bande à part” (1964), “O Demônio das onze horas” (Pierrot le fou, 1965) e “Made in U.S.A” (1966); Greta Gerwig é a atriz símbolo do cinema independente estadunidense. Sua primeira atuação foi como atriz coadjuvante na produção “LOL” (2006), do diretor Joe Swanberg. O filme se centra no impacto das novas tecnologias ligadas à internet nas relações sociais, principalmente afetivas. 

No seu segundo filme “Hannah Takes the Stairs” (2007), também dirigido por Joe Swanberg, Greta além de ser a protagonista contribui com o roteiro. No filme ela interpreta Hannah que tem que lidar com a vida de recém graduada, dar uma direção para a sua carreira e vida amorosa. No ano seguinte trabalha com os irmãos Jay Duplass e Mark Duplass no filme “Baghead” (2008), no qual um grupo de quatro atores se isolam em uma cabana para escrever um roteiro de cinema. No mesmo ano atua na produção “Yeast”, dirigida por Mary Bronstein. Ainda em 2008, dirige e atua junto com Joe Swanberg o filme “Nights and Weekends”, com uma narrativa que destaca as dificuldades de um relacionamento à distância. 

O ápice da carreira de Greta Gerwig ocorre na parceria com o diretor Noah Baumbach, inicialmente no aclamado filme “Greenberg” (2010), interpretando a personagem Florence Marr, uma aspirante à cantora que se relaciona com o neurótico irmão do patrão. Em 2012, contribui com o roteiro e personifica o seu principal papel através do filme “Frances Ha”. Filmado em preto e branco, como proposta estética, tem-se a história de Frances Halladay, sua dificuldade de ganhar a vida através da dança. No filme há a famosa cena de Frances correndo pelas ruas de Nova Iorque ao som da música “Modern Love”, de David Bowie. O último filme de Greta com Noah Baumbach foi a produção “Mistress America” (2015), no qual interpreta Brooke, uma personagem que apenas quer abrir um restaurante, achar o “seu lugar no mundo”. 

Se o cineasta italiano Federico Fellini tem como musa a sua esposa Giulietta Masina; e Ingmar Bergman Liv Ullmann; ou mesmo Jean-Luc Godard Anna Karina; Greta Gerwig é a atriz símbolo do movimento de cinema independente estadunidense. Sua beleza, sua voz anasalada, o seu jeito gauche, sua capacidade de atuar, escrever roteiros e dirigir filmes é a personificação do Mumblecore. Vale destacar, antes do fim, a participação de Greta no excelente videoclipe da música “Afterlife” da banda Arcade Fire, produzido para a premiação do YouTube Music Awards (YTMA), em 2013, e dirigido por Spike Jonze. Ela dança, caminha do videoclipe para o palco da apresentação. “When love is gone/Where did it go?/And where do we go?


Olmo e a Gaivota

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Na sua gênese, o Cinema possuía apenas o caráter documental, a câmera era posicionada em um ponto fixo, filmando a ação de forma direta, como o que acontece, por exemplo, nos dois primeiros filmes feitos pelos Irmãos Lumière (Auguste e Louis): “A saída da Fábrica Lumière em Lyon” e “Chegada do trem à estação de Ciotat”, ambos de 1895. Em um segundo momento, conforme elementos formais da linguagem cinematográfica tais como tipos de planos, a montagem e a movimentação da câmera se desenvolvem, torna-se possível a narratividade, ou seja, a capacidade de contar uma história, surgindo, assim, o ficcional dentro da sétima arte. A cineasta brasileira Petra Costa (1983-), nos seus dois últimos filmes “Elena” (2013) e “Olmo e a Gaivota” (2015), funde o gênero ficcional com o documental.

Quando foi lançado no Brasil em maio de 2013, o filme “Elena” ganhou destaque no circuito cinéfilo, conseguindo, inclusive, encabeçar campanhas populares na internet através de vídeos e no facebook com as palavras “Queremos Elena em...”, para que fosse exibido em salas de cinemas dominadas pelo circuito comercial. Petra faz um documentário sobre a vida de Elena Andrade, que mudou-se para Nova Iorque com o objetivo de trabalhar como atriz, mas acaba se suicidando. O filme é uma homenagem de Petra à Elena, uma tentativa de reconstruir os passos da irmã na grande cidade estadunidense. O modo como a diretora opta por contar a história, mesmo sendo um documentário, é poético, há lirismo nas imagens, no tratamento do tema da saudade, bem como da morte.

Na produção “O Olmo e a Gaivota”, Petra Costa realiza um documentário que se mescla com o gênero ficcional. No filme, tem-se a história da atriz Olivia Corsini que, junto com o seu marido Serge Nicolai, faz parte da companhia de teatro francesa Thêatre du Soleil. Estão participando como atores principais da montagem da peça “A gaivota” (1896), do escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904). A euforia do convite recebido pela companhia para uma temporada nos Estados Unidos é quebrada com a notícia da gravidez de Olivia. Há o risco de aborto, ela deve permanecer em repouso absoluto, não podendo atuar. Deste modo, passamos a acompanhar a rotina de reclusa de Olivia, a sua gestação em seu apartamento, bem como a sua relação com Serge.

Se em “Helena” há o documental que se aproxima do ficcional, em “Olmo e a gaivota” há o inverso. Durante grande parte do filme, o espectador acreditar estar diante de uma obra ficcional, no entanto, o naturalismo da obra é quebrado quando a diretora expõe o “mise en place”, ou seja, o “o jogo de cena”, demonstrando que as personagens são pessoas reais, passando por aquela situação, quebrando o “contrato ficcional” estabelecido entre obra e espectador. Petra Costa interfere em uma cena, sua voz em off pede para que as personagens troquem de papeis, comentem um aspecto específico da relação conjugal. Os atores-personagens olham diretamente para câmera, o ficcional é quebrado, o documental se mostra enquanto gênero.

O Cinema é a Arte que mais se aproxima do real por possuir aquilo que estudiosos da sétima arte chamam de “efeito de realidade”. Na relação entre cinema e realidade, o espectador se esquece de que a obra cinematográfica é um produto de uma linguagem artística, sua representação não é real, mesmo acreditando no efeito de realidade. Muitas vezes permanece imerso no universo narrativo ficcional. Todavia, Petra Costa quebra com o “contrato ficcional” ao expor que o que é mostrado não é ficcional, mas documental. Olivia e Serge são seres reais, atores da companhia de teatro francesa, deste modo ela tenta representar o real.

Petra Costa se destacou por mostrar um olhar lírico, por fazer um cinema poético, tendo como ponto central personagens femininas com seus dramas psicológicos. Em “Olmo e a gaivota”, Olivia é a personagem principal, sua gravidez de risco e a problemática de não poder exercer a sua profissão ganham destaque. O filme discute a questão de ser mulher psicologicamente, com pressões sociais e biológicas agindo sobre a figura feminina. Olivia se expressa através da sua arte, atuar a tira das suas inquietações cotidianas, propicia a plenitude ao seu ser. Agora, questionada sobre o que teria feito durante o dia, responde: “Uma orelha, um pedaço de fígado”.

No seu último filme “Olmo e a Gaivota” (2015), Petra Costa volta a trabalhar uma narrativa com o mesmo estilo do seu filme anterior “Elena” (2013), fundindo ficção e realidade. No primeiro, trabalha o documental com pontos de interseção com o ficcional; enquanto no último trabalha o ficcional desvendado como documental.  Olivia sente o peso de ser mulher, seja de forma biológica com a gravidez, ou mesmo psicológica com os seus medos, anseios e sua arte. Petra Costa está construindo um estilo cinematográfico de qualidade, fazendo um cinema baseado no hibridismo entre o ficcional e o documental, com pontos metalinguísticos. Uma verdadeira autora de Cinema.

Trailer de "Olmo e a Gaivota"

David Bowie: da música para o cinema

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Poucos compositores foram tão influentes na segunda metade do século XX em diversos campos como música, cinema e moda quanto o músico inglês David Bowie (1947-2016). Na música, ganhou destaque no final da década de 1960 com composições de influência do Folk e do Rock Psicodélico; em seguida, no início da década de 70, foi o grande nome do movimento conhecido como Glam Rock, junto com bandas como T-Rex, New York Dolls, Roxy Music, tendo à frente músicos como Marc Bolan, Bryan Ferry e Brian Eno. Sua carreira evoluiu nas décadas seguintes para diversas facetas musicais como Soul, Funk, Instrumental, Minimalista o que lhe rendeu a alcunha de “camaleão do rock”. No cinema, atuou em papeis principais e coadjuvantes, além de ter diversas composições em várias produções cinematográficas. 

A primeira participação de destaque de David Bowie em uma produção cinematográfica foi no filme “O homem que caiu na Terra” (The Man Who Fell to Earth), lançado em 1976, sendo dirigido por Nicolas Roeg. O músico inglês interpreta um alienígena que “cai” na terra em busca de água para salvar o seu planeta natal. As filmagens ocorreram entre os lançamentos dos discos “Young Americans” (1975), com as composições “Young Americans”, “Fame” (em parceria com John Lennon) e destaque para o cover dos Beatles “Across the Universe”; e “Station to Station” (1976) com as músicas “Station to Station” e “Golden Years”. 

Berlim é uma bela cidade, capital de vários reinos, reduto de outros tantos artistas. David Bowie morou na cidade entre os anos de 1977 a 1979, onde compôs três discos, que ficaram conhecidos como a “Trilogia de Berlim”: “Low” (1977), “Heroes” (1978) e “Lodger” (1979). Na cidade, atuou no filme “Apenas um Gigolô” (Schöner Gigolo, armer Gigolo, 1978) com a direção de David Hemmings, com a participação de Kim Novak, mais conhecida pelo seu papel de destaque no filme “Um corpo que cai”, de Alfred Hitchcock, e Marlene Dietrich, no seu último trabalho no cinema. O enredo gira em torno de Paul (David Bowie), um oficial do exército que acabara de retornar dos campos de batalha da 1ª Guerra Mundial (1914-1918). Para sobreviver, vira gigolô de mulheres ricas.

Nagisa Ōshima (1932-2013) é um diretor japonês mais conhecido por dirigir o filme “Império dos sentidos” (1976), no qual há a famosa cena de uma prostituta inserindo um ovo na própria vagina e depois “botando”-o diretamente na boca do amante. Em 1983, o diretor nipônico realizou a produção “Furyo, Em Nome da Honra” (Merry Christmas, Mr. Lawrence) com David Bowie no papel principal e atores de renomes no elenco como o inglês Tom Conti e os japoneses Takeshi Kitano e Ryuichi Sakamoto. No filme, Bowie é um prisioneiro de guerra capturado na ilha de Java, acaba sendo acusado de matar dois oficiais japoneses. 

Ainda na década de 1980, David Bowie fez uma breve participação, em 1981, no filme “Eu, Christiane F., 13 Anos, drogada e prostituída”. Em 1983 atua, ao lado da atriz francesa Catherine Deneuve, na produção “Fome de viver”, um filme de vampiros dirigido por Tony Scott. Três anos depois, em 1986, participa com papel de destaque na produção “Labirinto - a magia do tempo”, interpretando Jareth, o rei do grupo de duendes. Em 1988, o ator inglês interpreta Pôncio Pilatos na aclamada produção “A última tentação de Cristo”, dirigida por Martin Scorsese, na qual o diretor, assim como o escritor português José Saramago, recria a narrativa da vida de Jesus de forma humanizada, cheia de questões demasiadas humanas, como dúvidas, paixões, medos, etc. 

Em 1998, o diretor inglês Todd Haynes realizou o filme “Velvet Goldmine” em homenagem ao movimento glam rock da década de 1970. O enredo do filme faz alusão a diversos músicos como David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop. A personagem Brian Slade e seu personagem Maxwell Demon são uma referência a David Bowie e a sua criação, Ziggy Stardust. Também pode-se ver a personagem Curt Wild como sendo a junção das personalidades de Iggy Pop com a de Lou Reed, ambos músicos que tiveram a suas respectivas carreiras “resgatadas” pelo “camaleão”. O próprio título do filme é retirado da música “Velvet Goldmine” do disco “The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars”, de 1972. 

A carreira musical de David Bowie é uma evolução constante na incessante busca do artista gênio por ir além das fronteiras da sua arte. O cantor britânico ganhou o apelido de “camaleão do rock” justamente por buscar renovar a sua música constantemente dialogando com outros gêneros do rock. Sua genialidade o levou para o cinema, onde interpretou diversos papeis ora como protagonista ora como coadjuvante, compôs ainda diversas trilhas sonoras para filmes e teve suas músicas em muitos outros como “Dogville” (2003), de Lars von Trier; “Frances Ha” (2012), de Noah Baumbach; “C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor”, de Jean-Marc Vallée. Ainda sobre cinema, a composição de Bowie “Space Oddity” (1969) foi inspirada no filme “2001: uma odisseia no espaço” (1968), de Stanley Kubrick. “Ground control to Major Tom/Ground control to Major Tom/Take your protein pills and put your helmet on”.

David Bowie - Space Oddity


A ‘Arca Russa’ Cinematográfica

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O Cinema Russo possui grandes teóricos e, principalmente, excelentes cineastas, que em diversos momentos exerceram as duas funções como é o caso de Lev Kulechov (1899-1970), Vsevolod Pudovkin (1893-1953) e o principal Serguei Eisenstein (1898-1948). Em seguida, do país surgiram cineastas como Mikhail Kalatozov (1903-1973) e, o maior de todos, Andrei Tarkovski (1932-1986); bem como um dos mais notórios da atualidade: Alexandr Sokurov (1951-), dirigindo filmes de destaque como “Mãe e filho” (1997), “Moloch” (1999), “Pai e filho” (2003), “O sol” (2004), e o seu mais premiado “Fausto” (2001). Contudo, o seu filme mais ousado tecnicamente e artisticamente é a produção “Arca Russa” (2002). 

Há a tela escura, aparecem os créditos: produção, equipe técnica, e o último e mais importante nome, o do diretor anunciando que o filme é de Alexandr Sokurov. Depois, uma voz em off, que se configurará como sendo o narrador e através do qual compartilharemos o ponto de vista, aparece, sofrera um acidente. O espaço-tempo é quebrado, a personagem é transportada para o museu Hermitage, em São Petersburgo na Rússia. Acredita estar no ano de 1700, devido às vestimentas. Assim começa “Arca russa”, nos próximos 88 minutos o espectador compartilhará da visão deste personagem, que não aparece no quadro, mas é através dele, do seu ponto de vista, que o enredo se desenvolve no espaço dos corredores do museu e no tempo da história russa. 

O enredo de “Arca russa” é o espaço, o próprio museu Hermitage com os seus corredores, galerias, salas com as suas obras representadas por pinturas, esculturas como também por pessoas, já que o museu também é o local de depósito da memória coletiva, daquilo que uma dada cultura produz e é considerado de valor artístico, histórico, etc. A personagem que compartilhamos do ponto de vista tem como guia um estrangeiro, com quem vai dialogando, divagando sobre temas relacionados à arte e à história russa, precisamente do ano de 1700 até os prelúdios da Revolução russa (1917), com uma breve citação ao “Cerco a Leningrado” (1941-44) durante a II Guerra Mundial (1939-1945). 

O filme é rodado a partir de um único plano chamado tecnicamente de “plano-sequência”, no qual não há a fragmentação da ação, da cena, em diversos planos que são unidos por cortes, criando uma “manipulada” unidade de ação, tempo, espaço e sentido. Fazer um filme longa metragem composto apenas por um único plano é uma das tarefas mais ousadas e difíceis dentro da linguagem cinematográfica devido à questões técnicas de fotografia, direção de arte, produção e da própria direção da empreitada. As preparações de filmagem de “Arca russa” duraram sete meses, sendo filmado em apenas um dia, em 23 de dezembro de 2001 no museu Hermitage, em São Petersburgo, utilizando mais de três mil figurantes. 

Um filme, predominantemente, é composto por unidades segmentadas chamadas de planos que são unidos através de técnicas de montagem. No plano-sequência questões técnicas se mostram como a maior dificuldade; no entanto, há também questões de ordem estética, pois neste tipo de plano a unidade de espaço e tempo é preservada. A ação se desenvolve de forma contínua na frente da câmera, que se movimenta, como também as próprias personagens que devem se movimentar dentro do plano, ora entrando ora saindo do quadro, quebrando, assim, o efeito naturalista. O tempo é preservado na sua unidade, mostrado na sua duração objetiva, o que é possível apenas com a ação contínua e o movimento no espaço. 

No cinema há duas formas para se mostrar aquilo que está no universo da ação: a câmera objetiva com diversos pontos de vista; e a câmera subjetiva que simula o ponto de vista de uma personagem. O plano-sequência escolhido por Sokurov é baseado na câmera subjetiva. O espectador compartilha do ponto de vista de uma personagem, no caso de “Arca russa” tem-se um interessante efeito de pontos de vista de quem vê e o que é visto, podendo ser associado com “um jogo” similar que há no quadro “As meninas” (1656) pintado pelo espanhol Diego Velázquez (1599-1660). No quadro, o espectador da obra, dentre uma das interpretações, compartilha do ponto de vista das figuras pintadas, que não aparecem no quadro, a não ser por um reflexo no espelho. 

Por fim, o que é mostrado no filme de Sokurov, “Arca russa”, não é apenas os corredores do museu Hermitage, obras de arte e personagens históricos que parecem encenar partes da história da Rússia; mas também o próprio transcorrer do tempo no espaço. Se o cineasta russo Dziga Vertov (1896-1954) fez o filme “Um Homem com uma Câmera” (1929) mostrando a dinâmica da sociedade russa em ambientes externos, Sokurov preferiu o espaço fechado do museu para mostrar a sua concepção de arte, de história, de cinema. Para Sokurov, o cinema é a arte da imagem em movimento, fazendo o plano-sequência ser o ápice do movimento na imagem.



Ocupações Estudantis Vistas no Cinema e em Araraquara

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Desde a antiguidade clássica, na Grécia antiga, há o conceito de mimeses, no qual a arte representaria o real. Deste modo, a realidade objetiva poderia ser representada pelas linguagens artísticas. Na modernidade, o cinema surge como uma linguagem que estabelece, nas suas próprias bases, uma estreita relação com o real através do conceito de “efeito de realidade”, pois a imagem cinematográfica teria a capacidade de ser tomada como “fiel” e “verdadeira” frente ao real. O documentário chileno “A rebelião dos pinguins” (2007), não apenas devido ao gênero cinematográfico documental, mas também devido ao tema, serve como base de compreensão e entendimento sobre o movimento estudantil secundarista do Chile de 2006 e do que ocorre no Brasil atualmente. 

Em maio de 2006, uma onda de manifestações, feitas por estudantes secundaristas (ensino médio) com idade entre 14 a 17 anos, ocorreu na maioria das cidades chilenas. Os estudantes reivindicavam melhorias no ensino público bem como a não efetivação de propostas governamentais que iriam contra os interesses da classe ao beneficiar setores que lucravam com a educação. Começaram com passeatas, parando as principais vias das cidades, quando foram duramente violentados pelos aparatos repressores do estado, a mobilização e o apoio aumentaram, vindos de diversos setores da sociedade chilena, tais como sindicatos, professores, estudantes universitários, etc. 

Depois de tomarem as ruas e conseguirem praticamente “parar” o país, os estudantes secundaristas chilenos adotaram outra tática: a de ocupação de escolas públicas. De atores secundários nos processos políticos do país passaram a ser protagonistas, exigindo a demissão do ministro da educação (o que foi feito), maior participação na decisão das políticas públicas para a educação. O movimento, então denominado de “a rebelião dos pinguins” devido ao uniforme escolar dos alunos, serviu de inspiração para os estudantes secundaristas dos países vizinhos, ocorrendo focos de manifestações em defesa do ensino público no Equador, Colômbia, Argentina, Venezuela. 

No documentário “A rebelião dos pinguins”, todo o percurso do movimento de ascensão dos estudantes secundaristas chilenos é mostrado, começando pelos precedentes na época da ditadura militar (1973-1990) no qual possuíam um papel secundário, até mesmo os elementos iniciais que levaram ao processo de organização da mobilização dos estudantes, tais como questões mais imediatistas como o atraso no repasse do passe escolar ou o alto valor das taxas dos vestibulares, passando pela não aceitação das políticas do estado chileno para a educação. O movimento chileno ganha êxito devido as suas táticas ao incorporar novas ferramentas advindas da internet como as redes sociais, vlogs, blogs, etc. 

O que ocorreu no Chile em 2006 e mostrado no documentário “A rebelião dos pinguins”, encontra um paralelo no que ocorre no estado de São Paulo a partir de novembro de 2015. Estudantes paulistas do ensino médio resolvem ocupar diversas escolas estaduais com o objetivo de barrar a imposta reestruturação das rede estadual de ensino paulista, que os afetariam negativamente. Segundo os estudantes, e com toda a razão pois são os afetados diretamente pelas péssimas mudanças propostas, a reestruturação proposta fecharia algumas escolas, obrigando os alunos a serem remanejados para outras na grande maioria das vezes distantes, já lotadas e sem estrutura. 

Em Araraquara (interior de São Paulo), a Escola Estadual Lysanias de Oliveira Campos foi ocupada no final de novembro de 2015 por um grupo significativo de excelentes alunos que não concordam com a reestruturação escolar. A ocupação instituiu e estimulou novas práticas enriquecedoras para os adolescentes, como um convívio em grupo que deve ser organizado, mas segundo as próprias regras dos alunos. De imediato receberam o apoio da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Araraquara (através da congregação do dia 26/11/2015), de profissionais liberais, trabalhadores, professores e de estudantes de outras escolas da cidade, além dos pais. 

Os estudantes que fazem parte do movimento que estão ocupando a escola Lysanias de Oliveira Campos em Araraquara possuem um diferencial muito grande por terem um senso de coletividade, de grupo, de organização, além de um pensamento crítico e social extraordinários. São jovens entre 14 a 17 anos que estão participando de um processo não apenas político, pois reivindicam e possuem pautas próprias, mas também psicossocial, pois o amadurecimento humano e a consciência de classe, política e de luta os colocam na posição de protagonistas, assim como no Chile, das mobilizações populares horizontais e livres no país atualmente. Os estudantes estão sendo ouvidos e aclamados por grande parcela da sociedade; devendo ser temidos pela classe política. Como prometido: #ocupalysanias.